Poucos nomes ilustram o boom e o inverno das startups como a Daki. Criada em 2021, a novata de supermercados online se uniu à americana Jokr, atraiu aportes e virou unicórnio em dez meses. Mas, em 2023, deixou essa prateleira, quando seu valuation caiu de US$ 1,2 bilhão para US$ 800 milhões.
O ajuste veio com a redução do apetite dos consumidores pelas compras online nesse espaço, que haviam sido turbinadas na pandemia, o que, na época, também atraiu players como o iFood. Ao mesmo tempo, os investidores “congelaram” seus aportes.
A Daki sobreviveu, porém, a esse clima nada favorável. E está voltando a encher seu carrinho com um pacote que combina, entre outras frentes, a expansão de operações e do uso de inteligência artificial. E que vem embalado por alguns números.
“O setor movimenta cerca de US$ 200 bilhões no Brasil e 90% dele ainda é offline”, diz Ralf Wenzel, cofundador e chairman da Daki/Jokr. “E estamos crescendo 50% ao ano e chegando a R$ 1 bilhão em receita.”
A disputa por uma fatia online desse bolo bilionário inclui nomes especializados, como a própria Daki e a Shopper, empresas de delivery como iFood e Rappi, e grupos como Mercado Livre e Magazine Luiza.
O mais novo gigante a ingressar de vez nesse front foi a Amazon. Na semana passada, a companhia americana lançou no Brasil o Amazon Now, serviço de entregas de supermercados em até 15 minutos, disponível em praças como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Para defender seu território, um dos planos da Daki é retomar sua expansão. Frear essa estratégia foi um dos ajustes feitos nos últimos três anos pela startup – presente hoje em São Paulo, Santos e Belo Horizonte. Em paralelo, a empresa também reduziu suas dark stores – de 70 para 50 unidades.
“Queremos lançar mais uma ou duas cidades ainda este ano”, diz Wenzel. “Vamos voltar a expandir porque construímos um modelo em que cada uma das nossas lojas é lucrativa. Então, isso pode ser implementado em locais como Brasília, Porto Alegre e Salvador.”
Embora não crave que esses serão alguns dos próximos destinos, ele tem na ponta da língua alguns indicadores que a Daki colheu de 2023 para cá. “Temos uma margem de lucro bruto de 45%”, diz. “E nossas lojas contribuem, em média, com uma margem Ebitda de 20%”.
Ele ressalta que o modelo construído nesse intervalo está por trás desses números. A tese é controlar toda a cadeia do negócio, começando pelas compras de produtos – 40% deles frescos, como frutas, verduras, carnes e peixes – diretamente dos produtores.
Esse formato verticalizado e integrado também inclui três centros de distribuição em São Paulo e Belo Horizonte, e as entregas – rápidas ou agendadas - na última milha, partindo de suas dark stores.
“O ponto crucial foi perceber que não se tratava apenas de ser um marketplace e de gerenciar a experiência de compra e de entrega”, diz. “Nós nos tornamos o próprio varejista, controlando cada etapa e capturando todo o potencial de margem.”
Da inteligência artificial às marcas próprias
Um dos ingredientes que alimentaram esse modelo e que será reforçado nesse ano é a inteligência artificial (IA). Hoje, a startup tem mais de 50 agentes de IA em operação e cerca de 90% dos seus pedidos de compras já são automatizados.
Entre outras questões, os agentes determinam os produtos e quantidades a serem comprados para cada loja. Com base nos volumes, eles também sugerem preços ou descontos na negociação com fornecedores e produtores.
Com o tempero da IA e um volume expressivo de dados, a Daki tem um índice de 1,5% de desperdício de produtos e 98% dos pedidos entregues no prazo e com todos os itens solicitados. E essa combinação também será a base para a expansão da área de retail media, lançada há cerca de um ano.
“O fato de entendermos os bairros, clientes e suas preferências detalhadamente nos dá a oportunidade de fazer publicidade altamente segmentada”, diz Wenzel. “A expectativa é que em um ou dois anos, 10% da receita venha desse braço.”
De olho em margens mais saudáveis, as marcas próprias também ganharão força. Com produtos como água mineral e papel higiênico, que representam cerca de 5% do sortimento total de 4 mil SKUs, a ideia é avançar para linhas como outras bebidas e itens de conveniência.
Da mesma forma, considerando seu mix total e produtos de fornecedores, a companhia vê espaço para entrar em categorias além dos alimentos e artigos de conveniência. No radar estão segmentos como cosméticos e itens de farmácia e pets.
Lançado em 2025, seu programa de fidelidade é outro foco. Esse, porém, mais no médio prazo. Wenzel entende que a plataforma pode ser a ponte para a integração, por exemplo, de serviços financeiros.
Movimentos no mercado
A construção desse modelo coincidiu com outro movimento. Entre 2022 e 2023, a startup decidiu fechar suas operações nos Estados Unidos, México, Colômbia, Chile e Peru para se concentrar 100% no Brasil. Outros “pure players” seguiram, porém, na direção contrária.
Esse foi o caso da mexicana Justo. A empresa decidiu deixar o Brasil e se concentrar em seu mercado doméstico no fim de 2024. Detalhe: a saída do País veio um mês depois de uma rodada série C de US$ 70 milhões, liderada pela General Atlantic.
Quem seguiu o mesmo roteiro foi a colombiana Frubana, que captou US$ 271 milhões com nomes como Softbank e Tiger Global. Dona de um marketplace de compra e delivery de itens de supermercado para restaurantes e mercados de bairro, a empresa deixou o País em julho de 2025.
Em outro exemplo, esse local, o James Delivery, comprado em 2018 pelo GPA, foi internalizado e descontinuado a partir de 2023. Um caminho cumprido também pela chilena Cornershop, absorvida e posteriormente desativada pela Uber.
O setor tem sido palco ainda de parcerias. A própria Daki é um dos nomes por trás das entregas de mercados do iFood, que optou por migrar para esse modelo, num trajeto que também incluiu a compra de uma fatia minoritária na Shopper, no fim de 2024.
É justamente em novas parcerias nesses moldes que a Daki enxerga mais uma via de expansão, e ao mesmo tempo, de defesa diante da concorrência com players mais generalistas e de maior porte.
“Não basta investir milhões para conquistar esse mercado. É preciso construir uma infraestrutura física, integrada à tecnologia. E isso leva tempo. Nós temos e tornamos isso lucrativo”, diz. “Então, estamos em uma posição única e podemos ser a peça que falta no quebra-cabeça de muitos desses rivais.”