Em um ambiente global ainda desafiador para captar recursos, a gestora brasileira de ativos alternativos Spectra Investments avançou mais uma casa em sua trajetória no mercado de private equity e venture capital.

A gestora acaba de concluir o first closing de seu sétimo fundo. Em apenas três meses, levantou R$ 800 milhões, cerca de metade da meta inicial de R$ 1,6 bilhão, com hard cap de R$ 2 bilhões.

“Mesmo em um ambiente mais difícil para captação globalmente, conseguimos avançar no fundo 7 porque mantivemos consistência na geração de liquidez para os investidores”, afirma Jamie Keller, sócia da Spectra, ao NeoFeed.

A expectativa da Spectra, que soma R$ 7 bilhões sob gestão, é concluir a captação até meados deste ano. Se atingir o objetivo, o novo veículo manterá a consistência do tamanho das duas últimas safras, que giraram em torno de R$ 1,6 bilhão cada.

A base de investidores do novo fundo é composta majoritariamente por famílias brasileiras (entre 65% e 70% do capital levantado). A Spectra, no entanto, espera um aumento na participação de institucionais (entre 15% e 20%) e de estrangeiros, especialmente da Ásia. “Inclusive, já contamos com o primeiro cotista asiático neste first closing”, afirma Keller.

A estratégia de alocação de capital segue os parâmetros dos dois fundos anteriores, que mesclam “fund of funds”, compra de cotas no mercado secundário e coinvestimentos diretos em empresas.

Como em todo fundo, a Spectra aloca parte do capital para o que chama de “pingo”, estratégia nova em que investe uma pequena quantia para testar as águas e saber se deve escalar.

No fundo 7, a gestora vai reservar ao menos 5% do capital do fundo para alocar em investidores-anjo, algo inédito no mercado brasileiro.

A inspiração para a estratégia veio da observação de mercados mais maduros, como Israel e Estados Unidos, onde fundos passaram a investir ao lado de investidores-anjo ou comunidades de angels, como a plataforma israelense iAngels.

“Os fundos passaram a investir junto com esses anjos para garantir espaço no cap table. A ideia da Spectra é testar se essa dinâmica também pode funcionar no Brasil”, diz Keller.

A tese que a Spectra quer testar é entrar ainda mais cedo no ciclo das startups, capturando as ineficiências de um estágio ainda muito inicial dessas empresas.

A estratégia consiste em alocar capital em investidores-anjo do mercado brasileiro e participar de todos os aportes feitos por eles. Só em rodadas subsequentes, a Spectra decide se quer ou não seguir.

Um exemplo é um investidor-anjo que tenha R$ 500 mil para investir em 10 startups. A Spectra reserva outros R$ 500 mil para esse investidor e participa de todos os seus aportes.

A gestora acredita que, nesse estágio, os valuations ainda não estão arbitrados, a governança é pouco estruturada e a estrutura de capital ainda é flexível.

Jamie Keller, da Spectra
Jamie Keller, da Spectra

Além disso, a Spectra acredita que, dessa forma, conseguirá acessar o deal flow que os fundos normalmente não veem - em outras palavras, as "startups invisíveis" aos gestores de venture capital. “Muitos dos melhores empreendedores começam a levantar dinheiro com fundadores experientes, executivos de tecnologia e operadores do setor”, diz Keller.

Um investidor-anjo já recebeu capital da Spectra – o nome é mantido sob sigilo. A expectativa é contar com um “portfólio” de até três investidores-anjo para que possam coinvestir.

No ano passado, a gestora fez uma pesquisa com o objetivo de identificar quais eram os principais investidores-anjo do mercado brasileiro. Era já uma forma de saber como alocar o capital para a nova tese, embora Keller não confirme nomes.

Nessa pesquisa, os 10 principais investidores-anjo, nessa ordem, segundo os empreendedores brasileiros, foram David Vélez, fundador do Nubank; Lucas Lameiras, scout da Andreessen Horowitz; Paulo Veras, ex-99; Sergio Furio, fundador da Creditas; e Patrick Sigrist, fundador do iFood e da Nomad.

A lista inclui ainda Gustavo Ahrends, da Norte Ventures; Lucas Lima, cofundador da Men’s Market; Zen Santoro, da Nameless, junto com Juliana Haddad; e Brian Requarth, ex-Viva Real e atualmente à frente da Latitud.

Força no mercado secundário

Apesar de testar a tese de investidores-anjo, a estratégia do fundo 7 deve seguir a lógica que a Spectra construiu ao longo das últimas seis safras.

Cerca de 40% do capital deve ir para operações secundárias, compras de participações em fundos de private equity ou venture capital no mercado secundário. Esse modelo de operação permite saídas mais rápidas, o que tem garantido retornar capital com mais velocidade aos investidores.

Em 2025, por exemplo, a Spectra devolveu cerca de R$ 750 milhões aos cotistas, o maior volume de sua história, superando 2021 e 2022, quando retornou aos investidores R$ 550 milhões. Neste ano, já soma R$ 300 milhões.

“Ao longo da história dos fundos da Spectra, cerca de 70% do capital investido já foi realizado”, afirma Keller. “Em ciclos de menor liquidez, como o atual, o mercado de secundários tende a ganhar ainda mais relevância.”

Foram 42 saídas totais e quatro parciais em 2025. Entre elas estão a Labsoft (coinvestimento via search fund); BR Media (em parceria com Bridge One), ClearSale (também com Bridge One, vendida via bolsa), Sky.One (venda parcial para a Advent International); e Ademicon (coinvestimento realizado com a TreeCorp, cuja posição parcial foi vendida para 23S Capital e Auster Capital).

A Spectra tem também reservado até 30% do capital para investir em fundos, o que faz dela uma investidora-âncora dos principais fundos de venture capital do Brasil, como Big Bets, Cloud9 Capital, Bridge One, Outfield e Laplace, entre outros. Nesse caso, o alvo são cada vez mais gestoras de nichos, fugindo de casas horizontais que investem em diversas teses.

O restante do capital fica reservado para coinvestimentos diretos em empresas. A gestora também mantém outras estratégias complementares, como search funds, dos quais a Spectra é o principal investidor no Brasil, e special situations.

Aumento da competição

A Spectra nadou de braçada no mercado de operações secundárias nos últimos anos, mas a competição está começando a crescer. Diante da falta de liquidez – carência de IPOs e de M&As – muitos fundos começaram a atuar nessa área.

Um exemplo é o Patria High Growth, união da Kamaroopin e Igah Ventures, que está levantando um fundo justamente para atuar nessa área. A Headline também captou um fundo para investir em "equity morto", segundo Romero Rodrigues, o head de venture capital da XP.

Outro ator é o Partners Group, gestora suíça que está começando uma estratégia de growth no Brasil e cujo objetivo é comprar fatias secundárias de outros fundos.

O primeiro cheque foi para a Omie, um aporte de R$ 850 milhões, o maior do Brasil em 2025, que deu saída parcial para todos os fundos que haviam investido na startup fundada por Marcelo Lombardo e Rafael Olmos. A ideia é fazer um aporte desse porte por ano no Brasil nos próximos cinco anos.

Um gestor de um grande fundo diz que diversas safras de venture capital estão chegando ao seu limite, o que vai forçar muitos gestores a fazer desinvestimentos. “Por isso é que está todo mundo de olho em secundárias”, diz.

Saídas são fundamentais para que a roda do venture capital não pare, além de acelerar captações para novas safras de fundos. Há mais de 40 gestoras de venture capital no mercado brasileiro captando recursos, segundo apurou o NeoFeed. Mas a maioria delas não tem conseguido levantar recursos ou tem fechado seus fundos abaixo da meta de captação.

Mesmo assim, gestoras com track record e tradição no mercado têm conseguido atrair investidores para seus novos fundos. São exemplos Astella Investimentos, Canary, Valor Capital Group, OneVC, Big Bets e Volpe Capital.