Pouco mais de um mês depois de assumir o comando da XP Asset Management, depois de uma longa temporada na Vinci Compass, Leandro Bousquet já traçou um plano de aceleração para a gestora e parte dele pode sair do papel antes do previsto.
A XP Asset, que detém cerca de R$ 200 bilhões, está reorganizando seu time de gestão offshore e ampliando a grade de produtos no exterior. Mas a novidade preparada por ele é que a gestora estuda antecipar a entrada em ativos alternativos globais, como crédito privado e real estate, por meio de parcerias com gestores locais, em vez de aquisições.
"Eventualmente, vamos antecipar produtos com características de alternativo, muito provavelmente em parceria. Não é uma aquisição, mas uma joint venture (JV) com alguém de fora. Isso se encaixa na estratégia da XP Inc.", diz Bousquet, CEO da XP Asset, em entrevista ao NeoFeed.
O modelo de joint venture, em sua visão, é mais enxuto, menos arriscado e mais rápido, o que pode gerar uma vantagem competitiva em um mercado global cada vez mais disputado.
Para Bousquet, a internacionalização da XP Asset não começa pelo caminho clássico de atrair o investidor estrangeiro para investir no Brasil, mas sim pela alocação da carteira do brasileiro no exterior. “O que vai vir primeiro é oferecer produtos globais para os clientes brasileiros”, diz o CEO.
A construção de uma base de investidores estrangeiros para alocar no Brasil segue no plano, mas como um projeto de maturação mais lenta. “É um trabalho de relacionamento, principalmente em alternativos, que demora a dar frutos”, afirma Bousquet.
Para atender essa demanda, a gestora já subiu sua grade de produtos offshore para o ambiente digital e criou novas famílias de fundos com perfis variados. O time de gestão está sendo reorganizado em paralelo.
A custódia internacional do grupo já soma cerca de US$ 15 bilhões, um volume que justifica, por si só, a aceleração da estratégia. Por esse motivo, o que era para ser uma segunda fase pode virar primeira: a oferta de produtos de crédito privado e imobiliário globais, via joint ventures com gestoras estabelecidas nos mercados-alvo.
O modelo reduz o risco regulatório, acelera o time-to-market e evita os tropeços que marcaram as investidas anteriores da XP no exterior.
Durante evento realizado em Miami, na esteira da abertura do novo escritório do XP Private Bank, em março deste ano, ficou claro que conversas com gestoras independentes nos Estados Unidos já estão em curso. A cidade americana é apontada como a principal prioridade geográfica.
Mesma lógica local
Ao mesmo tempo em que reorganiza o offshore, a XP Asset avança em duas frentes no mercado local que têm em comum um mesmo pano de fundo.
A primeira é a dos Exchange Traded Funds (ETFs). O produto é o mais alinhado ao fee based, modelo de remuneração vem de uma taxa anual a ser cobrada em cima do montante sob gestão ou consultado.
Dados da Anbima mostram que o patrimônio líquido dos ETFs no Brasil saltou de R$ 46,4 bilhões no final de 2024 para R$ 90,2 bilhões em janeiro de 2026 - quase o dobro em pouco mais de um ano. Só em fevereiro de 2026, os ETFs captaram R$ 5,8 bilhões, puxados principalmente pelos de renda fixa.
"A indústria de ETFs demorou quase 20 anos para alcançar R$ 50 bilhões e dobrou de tamanho nos últimos 24 meses. É uma mudança de patamar", diz Bousquet.
A XP Asset já tem 20 ETFs na prateleira - incluindo três lançados recentemente atrelados à inflação - e o plano é ter 28 até o fim deste ano.
A gestora está entre as 12 gestoras que mais trouxeram novidades ao mercado em 2025, ano em que a indústria lançou 60 novos produtos, elevando o total para 160.
A segunda frente é menos óbvia. As carteiras administradas, um produto endereçado ao varejo com R$ 50 mil de tíquete, saltaram de 1,2 mil para 12 mil em 12 meses, sem grande esforço de captação.
O mercado de carteiras administradas ganhou tração em 2025, impulsionado pela busca por eficiência tributária, personalização e uma oferta mais robusta de produtos.
Na visão da XP, o crescimento aconteceu pela combinação da demanda reprimida que encontrou a estrutura certa. E é um movimento que deve continuar em 2026.
Campo em disputa
No universo dos alternativos, o principal cartão de visitas de Bousquet pelo seu histórico recente na Vinci, o executivo vê um Brasil ainda no começo. "O market share dos bancos ainda é dominante. Existe um espaço enorme para as assets", afirma o CEO.
A aposta da XP Asset está no crédito estruturado, onde a combinação de garantias, diversificação e engenharia financeira permite construir produtos com melhor relação risco-retorno.
A aquisição da Augme Capital, no fim do ano passado, dobrou o tamanho da plataforma de crédito high yield - o fundador Marcelo Urbano está liderando a área na XP Asset.
A grande incógnita, porém, é o timing. A guerra no Oriente Médio e a volatilidade das taxas de juros podem atrasar a queda esperada da Selic, o que afetaria diretamente a demanda por ativos alternativos - como FIIs e crédito estruturado.
Bousquet, no entanto, parece confiante. "A dúvida não é se as taxas vão cair, mas sim a magnitude. E isso tem um impacto muito positivo para o mundo de alternativos em geral."