Era 23 de agosto de 1987. Aquele domingo entraria para a história do basquete mundial. Cerca de 16 mil torcedores lotaram o estádio Market Square Arena, em Indianápolis, para acompanhar a final dos Jogos Pan-Americanos: Estados Unidos contra Brasil. Os americanos estavam convictos da vitória. Favoritos absolutos, nunca haviam perdido em casa, tampouco derrotados em um jogo decisivo.
Mas eles fracassaram. Sofreram um revés inesquecível porque nós, os brasileiros, tínhamos Oscar Schmidt — o Mão Santa, envergando a camisa 14, seu número da sorte.
A seleção americana começou ganhando. Liderada por David Robinson, ainda uma promessa, mostrou sua força no garrafão e fechou o primeiro tempo com 14 pontos de vantagem — 68 a 54. No segundo, os brasileiros demoraram a engrenar, mas, depois que deslancharam… ah, aí foi um festival de cestas.
Naquela época, a linha de três pontos ainda era uma novidade, adotada cinco anos antes. E foi nela que Oscar brilhou. Se no primeiro tempo ele marcou apenas 11 pontos, no segundo, encaixou nada menos do que seis bolas de três. O Brasil venceu por 120 a 115, com 46 pontos feitos por Oscar — 21 feitos de longa distância.
Antes da partida, Denny Crum, o técnico americano, não se mostrava muito preocupado com o embate contra o Brasil. Mais tarde, porém, revelaria: a única tática para garantir o ouro era uma defesa em cima de Oscar e Marcel — dois jogadores, segundo ele, muito altamente precisos nos arremessos.
Os rivais até tentaram, mas não teve para ninguém. Aquela medalha era nossa.
Aquele domingo em Indianápolis foi transformador também para os americanos — “uma exibição ofensiva que muitos jamais esquecerão”, lê-se no site do USA Basketball. A derrota foi o estopim para uma série de mudanças no basquete dos Estados Unidos. Ali, os dirigentes perceberam que era preciso fortalecer a seleção para evitar novos vexames. Os jogadores universitários foram substituídos por atletas profissionais — um movimento que mais tarde culminaria com a formação do Dream Team.
Para os brasileiros, 23 de agosto de 1987 representou a maior conquista desde a Copa do Mundo de 1970. A vitória na Market Square Arena serviu como um atestado para nós e o mundo: sim, o Brasil era também o país do basquete.
Foi, assim, com a lembrança de um tempo em que o esporte brasileiro ainda despertava orgulho, o país se despediu de Oscar na sexta-feira, 17 de abril. Aos 68 anos, o atleta morreu vítima de um tumor cerebral, diagnosticado em 2011.
Nascido em Natal em 16 de fevereiro de 1958, ele era competidor obstinado, um arremessador compulsivo. Depois do treino da manhã, fazia 500 arremessos. À tarde, mais 500. Oscar se colocou o desafio de fazer pelo menos 20 cestas seguidas. Se não conseguisse, começava tudo de novo. Certa vez, demorou duas horas para cumprir a missão autoimposta. Em casa, teve de explicar à família o motivo do atraso para o jantar.
Não à toa Oscar era também um colecionador de recordes. Foi o dono da carreira mais longeva do basquete mundial, 26 anos. O maior pontuador da história, com 49.973 pontos, até 2024, quando foi superado por LeBron James. Um dos 50 melhores do planeta, na lista elaborada pela Federação Internacional de Basquete em 1991. O melhor jogador de basquete que nunca jogou na NBA.
Aliás, nos anos 1980, recebeu um convite para ingressar na liga americana, mas recusou. Naquela época, os atletas daa organização eram proibidos de disputar Olimpíadas — e Oscar jamais abriria mão de competir com a camisa da seleção brasileira.
Por falar em Olímpiadas, ele é até hoje o maior cestinha dos jogos — participou de cinco edições, somando 1.093 pontos.
Com 2,05 metros de altura e suas cestas, Oscar conquistou fãs entre os grandes nomes do basquete mundial. Kobe Bryant, por exemplo, admirava a capacidade do brasileiro de pontuar em qualquer lugar da quadra.
E, seu nome está inscrito em pelos menos três halls da fama. Em 2010, entrou no da FIBA e, há dez anos, no da Itália.
Mas foi no dos Estados Unidos que Oscar, já doente, fez um discurso (assista no vídeo) emocionado e bem-humorado: "Eu sempre sonhei em estar aqui". Ele agradeceu à família, técnicos e jogadores com quem trabalhou. Lembrou o Pan de 1987 e, brincou com a plateia americana: "Desculpe-me".
Na década de 1990, quando atletas eram chamados para ocupar cargos públicos, Oscar entrou na política como deputado federal por São Paulo, pelo então PPB (hoje Progressistas). Eleito, entre 1999 e 2003, teve como bandeira o desenvolvimento do esporte no Brasil. Mas ele se decepcionou com Brasília — a burocracia, as trocas de favores, os conchavos… aquele ambiente não era para ele. O lugar do Mão Santa sempre foi as quadras. E nelas, quanto mais longe a cesta, melhor.