A Vinci Compass, que tem R$ 354 bilhões de ativos sob gestão, acaba de dar um passo relevante em sua estratégia de consolidação regional. A gestora comandada por Alessandro Horta anunciou com exclusividade ao NeoFeed a fusão de sua operação de asset management na Argentina com a BACS, gestora ligada ao Banco Hipotecario, movimento que dobra o tamanho da companhia no país.
Com a transação, a Vinci Compass eleva seus ativos sob gestão na Argentina para cerca de US$ 1,6 bilhão, ante uma base próxima de US$ 800 milhões. A operação não envolve dinheiro e foi feita via troca de ações. A BACS passa a ser acionista da gestora combinada com mais de 40% de participação. A Vinci Compass, por sua vez, mantém o controle e a gestão do negócio.
O negócio envolve um earn-out no qual os sócios argentinos aumentam sua participação, vinculada ao crescimento dos ativos e das receitas geradas pelos canais de distribuição do BACS e do Banco Hipotecario. A Vinci Compass, neste cenário, seguirá com o controle do negócio.
“A Argentina é um mercado que encolheu muito ao longo dos anos, mas cujo potencial permanece intacto. E acreditamos que o país esteja entrando em um ciclo de melhora”, diz Alessandro Horta, CEO da Vinci Compass, ao NeoFeed. “Vemos a Argentina como um mercado promissor, depois de uma longa sequência de crises, agora com sinais mais claros de normalização econômica.”
Com a fusão, a marca da Vinci Compass será mantida na nova gestora combinada, assim como a gestão ficará com o time que já comandava a operação argentina da casa. O ganho de escala é apenas uma parte do racional da transação.
“Existe uma complementaridade muito clara. Eles trazem uma distribuição forte, especialmente pelo canal bancário. E a gente traz um know-how em produtos alternativos, que é algo que eles queriam e não tinham escala para desenvolver sozinhos”, afirma Bruno Zaremba, sócio e presidente de finanças e operações da Vinci Compass.
Essa complementaridade passa, sobretudo, por dois pontos. O primeiro deles é o fato de a gestora da Vinci Compass ter forte presença entre os investidores institucionais. Já o BACS é forte no varejo e entre as empresas argentinas.
O segundo ponto é que, com a transação, a Vinci Compass pode levar à Argentina estratégias já consolidadas no Brasil, como crédito privado, infraestrutura e real estate. O novo tamanho da operação, afirma Zaremba, é determinante para viabilizar esse movimento. “Ter mais escala ajuda a lançar produtos alternativos. É um objetivo não só na Argentina, mas em outros países da América Latina”, diz Zaremba.
A fusão também aprofunda o acesso da Vinci Compass ao ecossistema financeiro e empresarial argentino. Além da incorporação da gestora BACS, o acordo estabelece uma parceria de longo prazo com o Banco Hipotecario, que permanecerá como acionista relevante e parceiro comercial. “Ganhamos acesso a uma base de clientes que hoje não tínhamos, e isso aumenta muito a nossa capilaridade no país”, afirma Zaremba.
O Banco Hipotecario é controlado pelo empresário argentino Eduardo Elsztain, um dos nomes mais influentes do capitalismo local. Ele é presidente do banco desde 2009 e lidera o Grupo IRSA, maior conglomerado imobiliário da Argentina. Com 140 anos de história, o Banco Hipotecario conta com cerca de 1.500 funcionários, mais de 1 milhão de clientes e ativos totais na casa de US$ 3 bilhões.
O movimento ocorre em um momento em que a Vinci Compass enxerga uma melhora gradual do ambiente macroeconômico argentino, após anos de instabilidade. A gestora, inclusive, já tem um histórico recente de retorno elevado no país, com o fundo Vinci Argentina Opportunity Fund II, de special situations.
“A Argentina sempre foi uma operação lucrativa para nós, porque gestão de recursos é um serviço financeiro que se sustenta mesmo em ciclos difíceis. Isso nos deixa confortáveis com esse movimento”, afirma Horta.
Além disso, a operação foi estruturada de forma conservadora do ponto de vista de risco. “Não teve injeção de capital. A gente usou a própria operação que já existia para fazer essa combinação societária. É uma forma de nos posicionarmos para capturar a melhora do mercado com mais profundidade e mais opções de produtos”, diz Zaremba.
Expansão regional no radar
A operação na Argentina não é um caso isolado. Ela faz parte de uma estratégia mais ampla de expansão da Vinci Compass na América Latina, intensificada após a combinação de negócios com a Compass, em 2024. Hoje, a gestora tem presença em países como Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai, com diferentes frentes de atuação.
“No IPO, tínhamos duas grandes prioridades: crescer as estratégias e diversificar regionalmente a plataforma. Resolver a questão regional é fundamental para gerar valor para o cliente”, afirma Zaremba.
O Chile, segundo Zaremba, é o mercado mais desenvolvido fora do Brasil, com uma atuação forte em crédito privado. Colômbia e Peru vêm ganhando relevância por meio de fundos de crédito e joint ventures com parceiros locais.
No caso colombiano, a gestora fez uma joint venture com a KFS, que prevê a captação de um fundo de crédito privado no país. Caso o fundo chegue a um determinado valor estabelecido, a Vinci Compass pode comprar a gestora.
Além do crescimento orgânico, a gestora mantém um radar ativo para novas aquisições e parcerias na região. A Vinci Compass está olhando oportunidades semelhantes a essa da Argentina em mercados como Chile, Colômbia, Peru e México. “Combinar crescimento orgânico com aquisições acelera muito a nossa estratégia”, diz Zaremba.
No Brasil, a Vinci não vê apenas movimentações táticas como as que devem acontecer em outros países da América Latina e deve focar mais no crescimento orgânico. Desde o IPO, quando captou US$ 250 milhões na Nasdaq, a gestora realizou uma série de M&As que ajudaram a companhia a entrar em novas áreas.
Em novembro de 2024, comprou a Lacan Ativos Reais, gestora de fundos florestais no Brasil. Em abril de 2024, adquiriu a MAV Capital e aumentou sua presença no agronegócio. Em 2022, entrou em special situations com a SPS Capital.
O negócio mais emblemático foi a aquisição de 50,1% da Verde Asset, de Luis Stuhlberger, por R$ 46,8 milhões e mais uma parte em ações. O acordo prevê ainda a compra da totalidade da empresa em cinco anos, por até R$ 127,4 milhões, a depender do atingimento de determinadas metas.