Com o setor de fundos imobiliários (FIIs) ganhando força e investidores nos últimos anos, um grupo de seis gestoras se uniu para liderar a institucionalização do mercado brasileiro e também da América Latina, de olho em atrair recursos de fora da região.
As casas Alianza, Guardian, Suno, TRX, Valora e Vinci Compass, que juntas somam mais de R$ 370 bilhões em patrimônio sob gestão, além do escritório de advocacia I2A Advogados, anunciaram nesta sexta-feira, 29 de maio, a criação da Lareal (Latin America REITs Association), associação que pretende liderar a institucionalização dos fundos imobiliários no Brasil e na América Latina.
A avaliação é de que o mercado brasileiro e latino-americano precisa se organizar, consolidando dados e padrões internacionais, para ampliar a presença de investidores institucionais, locais e estrangeiros, em um mercado cujo crescimento foi puxado até agora pelo varejo.
“Nosso mercado já tem um tamanho relevante. O Brasil é o sétimo maior mercado de fundos imobiliários, mas não tem uma voz consolidada nem visibilidade internacional”, diz Potyguara Camargo, presidente da Lareal, ao NeoFeed. “O volume de capital estrangeiro poderia ser muito maior se existisse uma padronização.”
Segundo ele, a Lareal quer engajar o mercado para estabelecer uma infraestrutura institucional capaz de organizar dados e criar padrões de apresentação de informações, visando traduzir o segmento para diferentes investidores.
A associação pretende atuar incentivando a consolidação e a padronização de informações conforme os padrões exigidos por investidores profissionais, o acompanhamento de critérios de elegibilidade e a produção de inteligência de mercado, além de realizar trabalho de advocacy.
Camargo diz que a institucionalização do mercado visa a atrair diferentes perfis de investidores, de fundos de pensão a multimercados. “A Lareal busca ser uma porta de entrada para qualquer investidor que ainda não esteja inserido no mercado de FIIs”, afirma.
A padronização é vista como fundamental para atrair investidores estrangeiros, que não entendem as peculiaridades do mercado brasileiro e da América Latina. No Brasil, por exemplo, os FIIs têm uma estrutura jurídica de veículos de investimento, enquanto, nos Estados Unidos, os REITs funcionam como companhias tradicionais.

Apesar disso, investidores globais analisam parte relevante dos fundos imobiliários brasileiros dentro da mesma lógica dos veículos internacionais de investimento imobiliário listados. A associação quer partir desse ponto de convergência para aproximar o mercado brasileiro e latino-americano da indústria global.
Segundo Camargo, existe interesse de investidores estrangeiros pela região. Ele conta que a porta de entrada desse público são os ETFs, com os primeiros movimentos ocorrendo em 2022, época em que o presidente da Lareal trabalhava na mesa institucional de FIIs da XP Investimentos.
A avaliação é de que a adaptação dos FIIs a critérios globais permitirá a entrada de mais fundos brasileiros em índices e ETFs internacionais, atraindo maior fluxo de recursos já no curto prazo para o setor.
Medidas como essas podem melhorar a representatividade dos FIIs nos benchmarks globais de real estate. Segundo a Lareal, o Brasil aparece com 8,69% de participação no FTSE EPRA Nareit Emerging Index, índice internacional que acompanha empresas e veículos imobiliários listados em mercados emergentes e é usado como referência por investidores globais e ETFs.
Com a maior inclusão dos fundos brasileiros no índice, a participação do país poderia chegar a 13,45%, com market cap de US$ 25,5 bilhões, acima dos atuais US$ 14,04 bilhões.
Para isso, é preciso engajamento das gestoras locais no atendimento aos critérios de elegibilidade exigidos pelos índices, como tamanho, liquidez, free float, governança e composição da base de investidores.
“Muitas vezes, quando falamos sobre investimento estrangeiro com alguns gestores, como isso ainda não está tanto no radar do mercado local, eles acabam achando que é um milestone para daqui a quatro ou cinco anos. No entanto, existem questões que podem ser destravadas, abrindo caminho para que isso se torne realidade no mercado brasileiro em pouco tempo”, afirma Camargo.
Ele conta que a Lareal já mantém conversas com outras quatro assets brasileiras. Mais à frente, a ideia é trazer gestoras de outros países da América Latina para a associação, excluindo o México, que já possui uma estrutura equivalente.
A Lareal já nasce associada à Global REIT Alliance, grupo que reúne associações de diferentes países e atua na harmonização de padrões globais de governança, reporte e divulgação de dados dos fundos, representando a América Latina.
Em junho, a associação participará da REITweek, em Nova York, com o objetivo de representar a América Latina no debate internacional sobre veículos imobiliários da região e ampliar a interlocução com investidores, associações e demais participantes da indústria global.