A Lojas Renner começou 2026 mostrando que a principal alavanca de sua estratégia não está, por ora, no ritmo de crescimento das vendas, mas na rentabilidade de cada peça vendida. No primeiro trimestre, a varejista entregou margem bruta recorde para o período, chegando a 56,7%, 1,6 ponto percentual superior ao do mesmo período do ano passado.

Parte significativa desse ganho de margem, segundo Fábio Faccio, CEO da Lojas Renner, vem do aumento da produção de peças durante as coleções. “Quando produzimos cada vez mais durante a coleção, com o lead time mais curto, conseguimos ser muito mais assertivo no que está sendo demandado para aquele momento e no volume que está sendo demandado”, diz Faccio ao NeoFeed.

A estratégia, afirma, tem reduzido as sobras e os estoques antigos e aumentado a venda de produtos novos a preço cheio. Para o CEO, esse é um processo gradual e que ainda deve seguir agregando valor nos próximos balanços da empresa.

Uma das formas pelas quais a Renner espera seguir ampliando sua rentabilidade é a diluição de despesas. Daniel Santos, CFO da companhia, cita os investimentos já realizados em logística. “O nosso CD de Cabreúva foi montado e desenhado de tal maneira que permite o crescimento da companhia sem necessidade de aumento de despesa”, afirma.

O ganho de margem apareceu diretamente no resultado operacional. O Ebitda de varejo cresceu 23,5%, para R$ 487,5 milhões, com margem de 17%, alta de 2,7 pontos percentuais. O lucro líquido chegou a R$ 257,3 milhões, avanço de 16,4% na comparação anual e recorde para um primeiro trimestre.

A rentabilidade recorde, no entanto, veio em um trimestre de crescimento mais moderado das vendas. A receita líquida de varejo cresceu 4,3%, para R$ 2,9 bilhões, enquanto as vendas em mesmas lojas avançaram 3,2%.

Embora o ritmo esteja abaixo do guidance de crescimento anual de 9% a 13% da receita líquida de varejo entre 2026 e 2030, Faccio afirma que o trimestre foi impactado pela transferência de produtos antigos do e-commerce entre centros de distribuição, que reduziu em cerca de 1 ponto percentual o crescimento das vendas.

Segundo o CEO, a expectativa é que a receita volte a acelerar para níveis mais próximos do guidance na segunda metade do ano. “No ano passado, tivemos alta de 9,2% na receita, que veio de 15% de crescimento no primeiro semestre e 4% no segundo semestre, arredondando os números. Este ano, a nossa expectativa é inversa”, diz Faccio.

Neste trimestre, a Renner também manteve uma postura mais cautelosa na concessão de crédito pela Realize, sua financeira. A participação dos cartões próprios nas vendas caiu de 27,7% para 26,7%, reflexo de uma política mais seletiva de originação. O movimento limita o crescimento da carteira, mas preserva a qualidade do crédito em um ambiente ainda desafiador para o consumidor.

Resultado da maior prudência, a carteira vencida caiu de 21% para 20,8% da carteira total, enquanto a participação de atrasos com mais de 90 dias recuou de 15,2% para 14,9%. “Sem dúvida, quando você opera de uma maneira mais prudente no plano de crédito, ele pode, sim, impactar a originação”, diz o CFO.

Segundo Santos, a cautela é adequada para o momento, mas pode abrir espaço para a companhia voltar a assumir mais risco no futuro, caso o cenário de inadimplência e comprometimento de renda das famílias melhore.

Outro fator que pode acelerar as vendas no segundo semestre é a abertura de lojas prevista para o fim do ano. Até agora, a companhia abriu oito das 50 a 60 unidades prometidas para 2026. Segundo Faccio, a concentração das inaugurações na segunda metade do ano é esperada, já que a varejista busca colocar as novas lojas em operação mais perto do período de maior fluxo.

A decisão de acelerar a abertura de lojas em 2026, depois de 34 inaugurações em 2025, faz parte da estratégia da Renner de ampliar a proximidade com os clientes e aumentar a conversão, mesmo em um cenário macroeconômico mais desafiador. “Não pode contar com a melhora do macro, a gente trabalha no que está na nossa mão”, diz Faccio.