Uma estrutura altamente dependente de créditos entre empresas do próprio grupo, balanços entregues sem assinatura, extratos bancários ausentes, contas vinculadas a CPFs de acionistas, transferências via PIX para pessoas físicas posteriormente classificadas como empréstimos a partes relacionadas e uma baixa de R$ 309,7 milhões ainda sem uma resposta da companhia.

Esse foi o cenário encontrado pela administradora judicial Laspro nos primeiros 30 dias dentro da Fictor, segundo o primeiro Relatório Mensal de Atividades (RMA) apresentado à Justiça no âmbito da recuperação judicial do grupo.

O RMA aprofunda um diagnóstico que já havia aparecido nos primeiros laudos da Laspro na recuperação judicial, que, conforme publicado pelo NeoFeed, apontavam inconsistências contábeis, indícios de confusão patrimonial e operações entre partes relacionadas.

Agora, já na fase de acompanhamento mensal da RJ, a Laspro mostra que parte desses pontos segue sem esclarecimento e cobra novas explicações.

“A aparente solvência de determinadas entidades é mantida de forma artificial por meio de Adiantamentos para Futuro Aumento de Capital (AFAC) e contratos de mútuo, os quais substituem ativos operacionais por créditos de difícil recuperação perante o próprio ecossistema econômico do Grupo Fictor”, afirma a administradora judicial.

Na Fictor Invest, empresa por meio da qual o grupo captava recursos de investidores em SCPs, a Laspro identificou que, em fevereiro, a companhia declarava R$ 2,78 bilhões em ativos totais, sendo R$ 2,77 bilhões no ativo não circulante. Desse valor, 99,6% estava vinculado a créditos perante partes relacionadas, incluindo R$ 1 bilhão registrado como AFAC e R$ 1,76 bilhão em contratos de mútuo.

Segundo a administradora judicial, não foram apresentados elementos que comprovassem liquidez, vencimento ou amortização material desses valores.

Como mostrou o NeoFeed em abril, o próprio Rafael Góis, sócio-fundador e CEO da Fictor, aparecia entre os nomes ligados a valores registrados a receber pela companhia. No novo relatório, a Laspro volta a apontar movimentações do tipo, agora dentro da OROS Corretora de Seguros, empresa do grupo.

O relatório aponta que a OROS realizou transferências via PIX em 30 de janeiro deste ano para Lucas Kuperman Conte e Felipe Micheloni Pereira, que, segundo a Laspro, são vinculados ao grupo. Posteriormente, a operação foi classificada como “aumento de mútuos ativos”, o que, de acordo com a administradora judicial, “impacta diretamente a liquidez imediata da entidade”.

No fim de fevereiro, a OROS registrou R$ 402,5 mil em “Empréstimos com Partes Relacionadas”, valor equivalente a 99,03% de seu ativo circulante realizável. Os principais devedores eram a Fictor Holding, com R$ 202,5 mil, e Felipe Micheloni Pereira, com R$ 200 mil.

Outro ponto apontado pela Laspro foi a existência de uma conta denominada “Bancos Conta Vinculada”, no valor de R$ 5,33 milhões. O valor aparecia vinculado aos CPFs dos acionistas Diego Ricardo Nascimento, com R$ 4,54 milhões, e Ana Paula Carmesini, com R$ 789,7 mil.

“Sob a ótica contábil, a manutenção de saldos expressivos vinculados a CPFs de acionistas no Ativo Circulante, sem evidência de liquidez imediata ou destinação operacional clara, sugere ‘empolamento’ do ativo, com potencial efeito de mascaramento da real erosão patrimonial e do capital circulante”, diz a Laspro no relatório.

Na prática, o “empolamento” citado pela Laspro se refere a ativos registrados no balanço que, segundo a administradora judicial, não tinham substância econômica aparente ou liquidez comprovada.

Na Fictor Holding, a Laspro atribui ao mesmo “empolamento” uma baixa de cerca de R$ 580 milhões no ativo total, de R$ 4,07 bilhões para R$ 3,49 bilhões, entre 31 de dezembro de 2025 e 1º de janeiro de 2026.

O ajuste, segundo o relatório, decorreu da eliminação de lançamentos cruzados com a Fictor Invest, descritos pela administradora judicial como “sem substância econômica aparente”.

As inconsistências também aparecem na comparação entre demonstrativos. Na Fictor Holding Financeira, a DRE de janeiro apontava prejuízo de R$ 310,2 milhões, enquanto o balancete do mesmo período reportava patrimônio líquido positivo de R$ 297,2 milhões.

Na FW SPE Solar 1 LTDA, outra empresa do grupo, a Laspro faz um “alerta de fidedignidade histórica”, ao apontar discrepância entre o patrimônio líquido de 31 de dezembro de 2025 e o saldo de abertura de janeiro de 2026, com alteração da base histórica de lucros ou prejuízos acumulados sem documentação comprobatória suficiente.

A Laspro também cobra explicações sobre uma baixa de R$ 309,7 milhões na Fictor Holding Financeira, reconhecida em janeiro de 2026 como “Despesa com Cartão” e atribuída à operação B2B/AMEX. Segundo o relatório, a companhia mantinha em 2025 saldos relevantes ligados a colaterais e faturas da operação, que só foram efetivamente zerados em janeiro de 2026, com o reconhecimento da despesa.

A operação com cartões já havia sido citada nos primeiros laudos da administradora judicial, revelados pelo NeoFeed em abril. Nos documentos de fim de 2025 analisados pela Laspro, a Fictor Holding registrava R$ 506,9 milhões a receber vinculados a operações com cartões B2B da American Express. A American Express constava na lista de credores com R$ 800 milhões a receber, embora já tenha negado ser credora da Fictor.

Redução de atividade e falta de aviso ao mercado

Ao longo do RMA, a Laspro ainda identifica baixa ou nenhuma geração operacional em diferentes empresas do grupo — incluindo a Fictor Holding, a Fictor Invest, SPEs de energia e empresas agroindustriais. Em alguns casos, valores registrados como receita decorriam de estornos, provisões ou receitas financeiras, e não de faturamento ligado à atividade empresarial.

A redução da atividade também aparece na Fictor Alimentos, única empresa listada do grupo, que chegou à bolsa por meio de um IPO reverso, em 2024.

Segundo o RMA, em diligência realizada em 27 de abril de 2026 no endereço da Fictor Alimentos Betim, em Minas Gerais, a administradora judicial foi informada de que a unidade antes arrendada pela companhia havia sido devolvida ao antigo proprietário.

Diferentemente da contratação do arrendamento, anunciada ao mercado por fato relevante em julho de 2025, a devolução da unidade não foi comunicada aos investidores até o encerramento desta reportagem. De acordo com o relatório, a Fictor confirmou a desmobilização e o encerramento das atividades da UPI Mellore naquele endereço.

A recuperação judicial da Fictor inclui 43 empresas do grupo. A companhia atribuiu a crise ao abalo reputacional após a tentativa de compra do Banco Master e à corrida por resgates de investidores de SCPs, que teria chegado a cerca de R$ 3 bilhões, segundo documentos do processo.

Procurada pelo NeoFeed, a Fictor não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação desta matéria.