Milhares de credores, dezenas de empresas vazias e R$ 4,3 bilhões em dívidas. A recuperação judicial (RJ) da Fictor, deferida há cerca de dez dias pela 3ª Vara de Falências do Estado de São Paulo, se inicia cercada de suspeitas de fraude, confusão patrimonial, criação de créditos fictícios e esvaziamento de ativos, além de acusações contra seus  principais sócios e desconfianças sobre sua idoneidade, segundo credores, documentos judiciais e laudos da administradora judicial Laspro.

O NeoFeed teve acesso, com exclusividade, a mais de 50 documentos envolvendo processos que a Fictor, que tentou comprar o Master em novembro do ano passado, responde na Justiça.

O conjunto de documentos indica que recursos captados com investidores eram redistribuídos entre empresas do grupo e sócios por meio de empréstimos mútuos e adiantamentos sem registro contábil claro, incluindo operações que beneficiariam diretamente o CEO Rafael Góis, cujo patrimônio cresceu de forma abrupta enquanto suas dívidas pessoais explodiram.

A dívida da companhia com partes relacionadas, segundo a administradora judicial, saltou de próximo de zero, em 2024, para R$ 1,8 bilhão, em 2025. Esse é o passivo da holding com partes relacionadas, e outras empresas do grupo tinham estrutura semelhante, o que pode indicar que a movimentação seja maior. A dívida do conglomerado com empresas do grupo era de R$ 1,13 bilhão, em janeiro deste ano

“Isso indica a criação de créditos ‘fictícios’ (intercompany) para que o próprio Grupo possa dominar a Assembleia Geral de Credores e aprovar um plano de recuperação judicial prejudicial aos credores reais (investidores)”, diz o advogado Felipe Gousen da Silveira, que representa mais de 200 credores da companhia, em petição contra os sócios da Fictor, em que aponta “graves indícios de fraude, confusão patrimonial, esvaziamento de ativos e blindagem societária”.

Na CVM, um investidor lesado pela companhia enviou uma representação por meio do advogado Carlos Ayalla, em que aponta “indícios robustos de fraude, gestão temerária, indução de investidores em erro e captação irregular de poupança popular”.

Parte significativa das acusações decorre das informações presentes nos laudos técnicos realizados pela administradora judicial Laspro, nomeada pela Vara de Falências.

De acordo com a Laspro, os balanços das empresas ligadas à Fictor apresentam uma série de inconsistências, indícios de confusão patrimonial e até de esvaziamento da empresa pelos sócios da companhia.

Segundo o relatório, os valores captados pela Fictor Invest via Sociedades de Conta em Participação (SCP) eram direcionados ao financiamento das atividades do grupo. Os números da Fictor, no entanto, mostram uma série de empréstimos feitos entre suas próprias companhias, adiantamentos e pagamentos, e empréstimos inexplicados em nome de seus sócios.

Operações com sócios

O CEO e fundador da Fictor, Rafael Góis, aparece no centro das suspeitas ao movimentar valores extremamente elevados e incompatíveis com a situação financeira da empresa.

De acordo com o balanço da Fictor apresentado pela Laspro, Góis teria uma dívida de R$ 173,1 milhões. A Fictor, por sua vez, teria uma dívida com Góis de R$ 373 mil, proveniente de um empréstimo mútuo.

Já a defesa dos credores, que teve acesso ao imposto de renda de Rafael Góis, aponta um aumento substancial do patrimônio do CEO. Segundo a petição de Silveira encaminhada para a Vara de Falências, o patrimônio total de Góis teria aumentado de R$ 27,16 milhões, em 2023, para R$ 161 milhões, em 2024, com rendimentos declarados de R$ 4,3 milhões e R$ 400 mil isentos.

As dívidas pessoais de Góis, por outro lado, teriam aumentado de R$ 17,3 milhões para R$ 294,8 milhões, o que, segundo Silveira, “caracteriza criação de aparente insolvência pessoal (passivo fictício) para evitar arrestos e execuções”. Segundo a defesa, Góis teria declarado uma dívida de R$ 134,7 milhões com a Fictor Holding, em 2024.

A petição ainda aponta que Góis teria declarado R$ 109 milhões no fundo Fictor Agro FIM e uma aquisição da participação de Luiz Phillippe Gomes Rubini na Fictor Invest por R$ 161,7 milhões. “Isso simula uma compra bilionária na pessoa física para justificar o trânsito de fortunas ou lavagem de dinheiro”, afirma a petição.

No balanço da Fictor de janeiro de 2026, apresentado pela Laspro, a dívida da Fictor proveniente de empréstimos mútuos seria de R$ 478,6 milhões, sendo parte significativa com partes relacionadas.

Na pessoa física, Luiz Phillippe Gomes Rubini, ex-sócio da Fictor, é o que tem o maior saldo a receber em empréstimos mútuos firmados com a empresa: R$ 34,4 milhões. Outro sócio, Rafael Paixão Ferreira Giuseppe, teria R$ 373 mil a receber por empréstimos mútuos (sim, um montante igual ao do CEO Rafael Góis).

A Laspro, no entanto, aponta, com base em extratos bancários, que a Fictor teria recebido R$ 20 milhões, em outubro de 2025, de uma conta de Giuseppe, mas que não teria sido registrado.

“O cruzamento do extrato bancário com o balancete de verificação de 2025 demonstrou que a rubrica empréstimo e mútuo em nome de Rafael Paixão apresentou movimentação incoerente com os valores recebidos pela Fictor Holding e requer esclarecimento.”

De acordo com a Laspro, o cruzamento das transferências bancárias realizadas em outubro de 2025 pela Fictor Holding em favor das demais empresas do grupo totalizou R$ 131,6 milhões. No entanto, ao comparar os números com o balanço de 2025, a administradora afirmou que “não foram identificados os correspondentes registros contábeis desses valores”.

“A inconsistência contábil pode comprometer a fidedignidade do saldo da respectiva conta, bem como a adequada representação da posição patrimonial e financeira do grupo e requer esclarecimentos da requerente, apontando o registro contábil dessa movimentação”, afirmou a Laspro.

Esvaziamento patrimonial

Em algumas dessas empresas do grupo, a Laspro identificou indícios de esvaziamento patrimonial. Uma delas é a Vensa Alimentos Ltda., que, segundo relatório, sofreu “retiradas recorrentes pelo sócio administrador” ao longo dos últimos anos.

"A conta ‘Antecipação – Luis Carlos de Mattos Urnikes’ apresenta crescimento contínuo ao longo do período analisado, passando de R$ 446.312 em 2023 para R$ 1.045.937 em 2024, e alcançando R$ 1.232.546 em 2025, um incremento aproximado de R$ 786.233 em retiradas ao longo do período, situação que ocorre paralelamente à geração de prejuízos operacionais sucessivos, circunstância que pode impactar negativamente a preservação do patrimônio da sociedade em relação aos credores", aponta a Laspro.

Outro indício de esvaziamento patrimonial apontado pela administradora judicial envolve a Dynamis Beleza, uma empresa que não gerava receita e recebeu adiantamento de R$ 30,6 milhões, em 2025. O valor, quase cinco vezes o volume de ativos reportado pela companhia no ano anterior, chamou a atenção dos administradores judiciais.

“Sob a ótica técnico-contábil, a realização de adiantamentos de grande magnitude por sociedade que não apresenta faturamento operacional constitui elemento atípico e potencialmente indicativo de transferência de recursos sem contrapartida operacional clara, o que pode caracterizar movimentação financeira intragrupo ou possível esvaziamento patrimonial.”

Nos passivos da Dynamis Beleza, a companhia reportou R$ 6,19 milhões em “débitos com pessoas ligadas” e uma dívida de R$ 23,47 milhões vinculada ao “Cartão de Crédito – Fictor Pay”.

O padrão também se repetia em parte das empresas ligadas ao grupo. Segundo a administradora judicial, algumas dessas companhias apresentavam baixa ou nenhuma geração de receita, mesmo diante de movimentações financeiras relevantes.

No laudo de constatação prévia, a Laspro relata ainda que, em determinados casos, não teve acesso às dependências dessas empresas, o que limitou a verificação de suas atividades e aprofundou as dúvidas sobre a efetiva operação de parte da estrutura.

"Passa no cartão"

Os documentos também indicam que essa estrutura de empréstimos entre empresas e sócios envolvia o uso de cartões de crédito. Segundo balanço analisado pela administradora judicial, em janeiro, a Fictor Holding registrava R$ 506,9 milhões a receber vinculados a operações com cartões B2B da American Express.

Parte relevante desse valor — cerca de 40% — estava associada à Est3lar 01 Tecnologia e Processamento de Dados Ltda., empresa que aparece nos registros contábeis em operações de natureza intercompany. Na lista de credores da Fictor, a American Express possui R$ 800 milhões a receber, sendo a maior credora da empresa. A American Express, no entanto, sempre negou ser credora da Fictor.

Em março, Rafael Góis e outros sócios da Fictor foram alvo de uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal, diante de suspeitas de envolvimento da empresa com o Comando Vermelho. De acordo com documentos obtidos pelo NeoFeed, a PF investiga a Fictor, pelo menos, desde 2023, quando abriu conversas formais com a CVM.

Com a recuperação judicial aprovada, a Laspro passa a acompanhar internamente as operações da companhia, fiscalizar suas atividades e reportar ao juiz e aos credores o andamento do processo.

No deferimento da recuperação judicial, a Justiça também determinou a contratação de um watchdog para analisar os dados da companhia, diante das inconsistências apontadas pela administradora judicial.

A decisão previa a indicação da PwC para esse trabalho. Porém, de acordo com apuração do NeoFeed, a empresa informou que não presta mais esse tipo de serviço. A expectativa dos credores é de que um novo auditor independente seja nomeado em breve.

Enquanto isso, Investidores que colocaram dinheiro na companhia com promessas de retorno de 2% ao mês, estão sem conseguir resgatar os valores desde dezembro do ano passado.

Os pedidos de resgate, segundo a Fictor, se aceleraram a partir da tentativa fracassada de comprar o Banco Master no dia anterior à liquidação da instituição pelo Banco Central. Entre novembro e fevereiro, a companhia afirma que os pedidos de resgate chegaram a superar R$ 3 bilhões.

No auge, a companhia chegou a investir dezenas de milhões em publicidade e entrou na bolsa por meio de um IPO reverso da Fictor Alimentos, viabilizado pela compra da já listada Atom. No entanto, o que se passava da porta para dentro da companhia seguia um mistério. Ao menos, até então.

Procuradas, a Fictor e a American Express não responderam aos questionamentos da reportagem.