Nova York - Há uma janela de oportunidade para o desenvolvimento de novas tecnologias na América Latina em razão de uma confluência de liquidez abundante, um superciclo de inteligência artificial (IA) e a rotação de capital para os países emergentes.

Na oitava edição do Latin America Private Tech Trailblazers Summit do Bank of America (BofA), os dados ajudam a dimensionar esse momento. O capex dos hyperscalers em IA pode saltar de US$ 155 bilhões em 2022 para US$ 770 bilhões neste ano.

Se há um ano muitas companhias ainda estavam falando na IA como um “feature”, neste momento ela já está na parte operacional. Hoje, as companhias mais interessantes são usadas como exemplo por tratar a IA como parte da arquitetura.

A integração de ativos e dados dentro de ecossistemas mostra que a rotação de capital para emergentes está acelerando. Segundo dados do BofA, de US$ 49 bilhões no ano passado para uma expectativa de US$ 96 bilhões neste ano.

Os dados de mercado do BofA mostram que quem estiver capitalizado terá janelas para consolidar posições e acelerar escala. Além disso, o desconto atual em valuations das startups de tecnologia da América Latina cria um potencial de re‑rating para empresas que entregarem tração previsível, governança e retenção de talento.

Leia, a seguir, alguns destaques do evento:

Sob o radar

Com uma extensa carteira de investidas na América Latina, que vai de Nubank à Loggi, passando por Petlove, Inter, Rappi e Petlove, Alex Szapiro, general manager Latam do SoftBank Latin America Fund, destacou que o mercado consumidor é uma das grandes oportunidades subestimadas no Brasil - principalmente o de pets.

Ele lembrou que o País já é o terceiro maior mercado pet do mundo e que, para muitas famílias, cachorros ou gatos são praticamente um filho.

“Quando o animal fica doente, a conta de um hospital veterinário pode facilmente chegar a US$ 500, algo pesado para o brasileiro médio”, disse Szapiro.

Ao citar a Petlove, ele disse que a empresa resolveu esse problema com um seguro para pets, ou seja, há “verticais de consumo pouco exploradas fora do eixo tradicional de fintech e pagamentos”.

“Há muitas oportunidades debaixo do radar em consumo, varejo e serviços, que são setores difíceis, mas com profundidade real de mercado”, complementou.

Bullish na Venezuela

Nicolás Szekasy, cofundador do Kaszek, lembrou que, no passado, a Venezuela foi um dos maiores mercados da América Latina em adoção digital. E que existe uma diáspora venezuelana altamente talentosa, hoje empreendendo com sucesso no México, no Brasil e na Argentina.

Segundo ele, muitos desses profissionais devem retornar ao país ou abrir operações lá, criando um ciclo de reconstrução. Com “tudo por fazer” e um mercado completamente aberto, Szekasy acredita que “os próximos cinco anos serão muito promissores, com espaço para empresas novas atacarem oportunidades desde o zero”.

“Eu estou super bullish com o futuro da Venezuela”, disse o cofundador do Kaszek.

Fundadores motivados

Empresas que crescem por aquisições bem-sucedidas conseguem manter fundadores motivados e escalar sem perder velocidade nem cultura.

Veronica Serra, fundadora da Innova Capital, explica que ao integrar times via M&A ou parcerias, o fator decisivo é manter os empreendedores engajados. E isso significa autonomia operacional, participação e ambiente propício para a inovação continuar.

“O que é chave para nós é o conjunto de incentivos que vamos montar. O ambiente que queremos ter na empresa para que os empreendedores continuem construindo e focando no que é realmente importante”, disse ela.

Capital para quem não precisa

Conhecendo o ciclo macroeconômico dos países da América Latina, Serra disse que o melhor momento para se levantar capital é quando o empreendedor não precisa de dinheiro.

O que parece um contrassenso, na visão dela, é uma maneira de ter liquidez, caixa fortalecido e, principalmente, uma governança financeira para enfrentar os ciclos regionais.

“O empreendedor deveria levantar capital agora, quando não precisa, para quando precisar. Porque vai haver uma crise. A América Latina, e especialmente o Brasil, é cíclica e tem crises frequentes. Ter liquidez e um CFO forte é crítico”, afirmou a fundadora da Innova.

Dados como diamantes

Dados proprietários e integração entre ativos são diamantes a serem polidos no portfólio dos investidores. Henrique Iwamoto, sócio da Prosus Latam Ecosystem, exemplificou como isso acontece na carteira do grupo.

Colocando o iFood no centro, ele diz que as vantagens operacionais aparecem quando há integração de dados, o que permite redução de risco, cross‑selling e monetização via publicidade e IA.

“Com a abordagem de ecossistema, podemos alavancar dados entre empresas do portfólio. Se você captura a informação do usuário iFood e valida o cliente, pode reduzir de 30% a 40% da inadimplência em determinada plataforma”, disse Iwamoto.

Gabriel, o pensador

Há um desafio de se construir um agente de inteligência artificial que não seja exatamente um robô. Na Cloudwalk, as interações diárias alimentam modelos proprietários, acelerando o ciclo de aprendizado. Na fintech, Gabriel é o agente de IA.

Mas essa dependência tem um risco e o uso de agentes em atendimentos massivos exige monitoramento de qualidade, segurança e experiência do usuário.

“O Gabriel é realmente muito inteligente, e um grupo de clientes prefere falar com o Gabriel do que com humanos. Ele atende 99% de todas as interações com clientes sem qualquer intervenção humana”, diz Silva.

Único prompt

Se atualmente existem vários prompts para as diferentes infraestruturas do segmento financeiro, Rafael Stark, cofundador e CEO do Starkbank, tem uma visão de banking centrada em um “único prompt conversacional que abstrai complexidade”.

Isso vai permitir que o usuário execute tarefas bancárias complexas de forma simples e imediata, reduzindo as fricções das operações.

“O futuro será um único prompt para você perguntar qualquer coisa sobre a sua conta bancária”, disse Stark.

O desafio continua sendo regulatório e de segurança, afinal, os produtos financeiros conversacionais exigem controles de privacidade, compliance e resiliência contra fraudes.