Londres — Um olhar revelador sobre o complexo militar ultrassecreto onde a antiga União Soviética treinava os seus cosmonautas durante a corrida espacial nos anos 1960. É isso o que promete a série que acaba de chegar à plataforma Apple TV: Star City. Cidade das Estrelas (ou Zvyozdny Gorodok, em russo) era justamente o nome da área, mantida isolada nos arredores de Moscou, para assegurar o sigilo das operações.
Com foco em espionagem, a produção é um desdobramento de For All Mankind, série de ficção científica lançada em 2019 que reimaginou o que teria acontecido se a União Soviética tivesse levado a melhor, pousando o primeiro homem na Lua. E não os Estados Unidos, com o astronauta Neil Armstrong, em 20 de julho de 1969, na missão Apollo 11.
Por mais que For All Mankind tenha apresentado uma realidade alternativa, a série colocou o foco no lado mais óbvio, o dos americanos. Mais especificamente, nas decisões estratégicas a partir da frustração de terem perdido a corrida espacial para a então União Soviética, em plena Guerra Fria.
Mas um pouco de veracidade foi inserido à trama. Principalmente com a inclusão de figuras históricas, como os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin e o engenheiro aeroespacial da NASA Wernher von Braun, o que trouxe certa familiaridade à série.
“O que mais diferencia Star City de For All Mankind é justamente o segredo, a inteligência e o voyeurismo”, afirmou Ben Nedivi, um dos criadores e showrunners das duas séries, em encontro com imprensa e público em Londres, do qual o NeoFeed participou.
“Queremos que o público de Star City sinta que está espiando o desenvolvimento do programa espacial russo. Assistimos a uma cena como se estivéssemos olhando por uma janela, com a sensação de que não deveríamos acompanhar o que acontece ali”, contou Nedivi, lembrando que a inspiração não veio de títulos de espionagem tradicionais, como os comandados por personagens como James Bond ou Jason Bourne nos cinemas.
Star City evoca a atmosfera do drama alemão A Vida dos Outros (2006), vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Na trama ambientada em 1984, na Berlim Oriental, um oficial da polícia secreta tem a vida transformada ao espionar um casal de intelectuais.
A comparação faz sentido à medida que todos são espionados em Star City, o que aparentemente não é fruto da imaginação dos criadores da série.
Tudo o que se refere à Cidade das Estrelas, que até hoje abriga o Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin, foi calcado em pesquisas feitas pela equipe de produção. E, segundo os levantamentos, os cosmonautas e os cientistas viviam sob a vigilância implacável e invasiva da KGB, sempre à caça de possíveis traidores.
Na série de oito episódios, o que salta aos olhos é mesmo o isolamento dos participantes do programa e o clima de paranoia na Star City. Com medo de que integrantes abandonassem a missão ou revelassem segredos espaciais aos americanos, eles eram espionados em suas casas, em apartamentos grampeados pela KGB.
Segundo registros históricos, alguns participantes ainda eram obrigados a se casar pelo Estado, que buscava controlar suas imagens públicas. Foi o caso da astronauta Valentina Tereshkova, representada aqui pela personagem Anastasia Belikova (Alice Englert), que foi submetida a um casamento arranjado e transformada em acessório de propaganda governamental, seguindo o que se esperava da mulher soviética perfeita.
“Para For All Mankind, fizemos pesquisa sobre o programa americano, que sempre foi tema de muitos documentários, filmes, artigos e livros. Mas desenterramos também a trajetória soviética, sobre a qual sabemos pouco. E ficamos fascinados com aquela cidade no meio do nada, que não figurava nos mapas, e com as histórias daqueles que arriscavam tudo rumo ao espaço enquanto enfrentavam um sistema autoritário e opressor”, contou Matt Wolpert, outro criador e showrunner das séries.
“Muitos eventos aqui são baseados em fatos reais, como os que sugerem que os riscos eram ainda maiores do lado soviético, com condições de trabalho questionáveis. Como mostramos, houve mesmo um pouso forçado no meio da Sibéria, onde os astronautas ficaram cercados por animais selvagens”, completou ele.
Para Nick Murphy, um dos diretores de Star City, talvez o mais interessante ao apresentar a corrida espacial da perspectiva soviética seja perceber “onde morava o perigo do lado de lá”: “Embora o espaço seja hostil por natureza, nessa nova história a maior ameaça se encontra no solo.”