A geração apontada pelo Bank of America como a mais rica do mundo até 2035 já começa a redesenhar o mapa dos investimentos no Brasil. Mais digital, mais aberta a risco e menos dependente da poupança, a geração Z, na faixa de 16 a 29 anos, investe proporcionalmente mais em criptomoedas, ações, fundos e crédito privado do que a média da população.

Na geração Z, 8% afirmam investir em criptomoedas, o dobro da média nacional, de 4%, segundo dados da Anbima. No mercado de ações, 4% dos jovens afirmam investir, também o dobro da média geral. Em fundos de investimento, a fatia chega a 8%, ante 5% da população, enquanto 10% da geração Z têm investimentos em títulos privados contra 7% da população brasileira.

“A geração Z cresceu em um ambiente digital, com acesso a muita informação e a uma oferta muito maior de produtos do que as demais faixas etárias. Isso se reflete em escolhas mais diversas, mas também em um comportamento de testar, aprender e tomar decisões financeiras de forma mais autônoma”, afirma Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, em entrevista ao NeoFeed.

Esse comportamento também aparece no consumo de informação. Proporcionalmente, os jovens consomem mais conteúdo sobre investimentos em diferentes canais do que as demais gerações — inclusive jornais, portais, YouTube, Instagram, buscadores e podcasts. As exceções são TV e rádio, em que a presença relativa da geração Z é menor.

Apesar da familiaridade com produtos financeiros e do maior acesso à informação, a disposição da geração Z a correr mais risco convive com baixa adesão à previdência privada e maior exposição às apostas online.

Só 1% da geração Z investe em previdência privada, metade da média nacional, enquanto a fatia dos jovens que aplicam em criptomoedas é oito vezes maior e a dos que fazem apostas online, 27 vezes maior — a mais alta entre as gerações.

Para Billi, essa exposição acende um alerta. “Existe, principalmente entre os homens mais jovens, uma noção de investimento como um jogo. Fazem day trade e acompanham os preços de criptoativos ou de minicontratos futuros 24 horas por dia, naquela tentativa de ganhar muito dinheiro em pouco tempo”, afirma.

A geração Z também é a que mais declara ainda não ter começado uma reserva para aposentadoria, mas pretende começar. São 66% dos jovens nessa situação, acima dos millennials, com 58%.

Billi pondera que a baixa formação de reserva para aposentadoria entre os jovens tem relação com o próprio ciclo de vida da geração Z, já que parte desse público ainda está entrando no mercado de trabalho. Mas, segundo ele, mesmo entre os que já dizem se preparar para o futuro, a previdência privada aparece pouco.

“Eles mencionam outras coisas: ações, títulos públicos ou uma casa para alugar. Mas não falam em previdência. Os produtos de previdência enfrentam esse passivo reputacional de parte da população e também dos mais jovens, de serem interpretados como um produto que não é adequado, que não rende, ou que tem taxas altas”, afirma Billi.

Essa distância em relação à previdência também pode estar ligada a uma mudança na forma como os jovens enxergam trabalho e aposentadoria. Segundo Billi, há uma mentalidade mais associada à informalidade, ao empreendedorismo e ao desejo de não depender da CLT.

“Tem uma nova mentalidade que olha muito para essa informalidade da economia brasileira e faz com que os jovens pensem em empreendedorismo, em não ser CLT”, afirma. “Com o declínio do trabalho formal, instrumentos públicos de previdência, seguridade social e apoio estão sendo vistos como algo com o qual não vão poder contar no futuro.”

A Anbima tenta agora aprofundar esse diagnóstico em uma nova pesquisa qualitativa sobre longevidade. A ideia, diz Billi, é entender a mentalidade dos mais jovens não apenas em relação à previdência, mas ao planejamento para uma vida mais longa. “A gente vai viver muito mais, o que é uma coisa boa, mas que gera desafios.”