A Securities and Exchange Commission (SEC, a CVM dos Estados Unidos) pretende seguir adiante com os planos para acabar com a obrigatoriedade de as empresas apresentarem trimestralmente seus resultados financeiros. No entanto, a proposta não foi totalmente bem recebida.
Apresentada em maio pelo presidente da SEC, Paul Atkins, a proposta foi aberta à consulta pública e recebeu mais de 200 mil comentários, um recorde, segundo o jornal The Wall Street Journal (WSJ).
Os comentários vieram de um público diversificado, incluindo organizações sem fins lucrativos (ONGs), fundos de pensão, acadêmicos e empresas. Muitos argumentaram que a medida prejudicaria os investidores, deixando-os com menos informações para tomar decisões.
Segundo o jornal, pelo menos 20 mil comentários ecoaram uma campanha anônima em defesa da manutenção da divulgação trimestral de resultados.
Outros cerca de 40 mil argumentos diziam que a proposta “impede investidores como eu de acessar informações sobre as empresas; permite que as empresas se escondam; e possibilita que a fraude se alastre”.
Um dos comentários veio da ONG Little Warrior Foundation, que atua no combate ao câncer infantil. A organização relatou ter recebido, por meio de um relatório trimestral, a informação de que um de seus fornecedores em potencial havia sofrido uma perda que poderia comprometer sua capacidade de fabricar componentes utilizados em um ensaio clínico de imunoterapia financiado pela fundação.
“Sem essa informação, teríamos perdido doações e desperdiçado um tempo precioso que crianças com câncer não têm”, escreveu Emily McFadden, cofundadora da organização.
Entre os favoráveis à proposta está a Exxon Mobil. A petroleira afirmou que a mudança para a divulgação semestral não resultaria “em uma redução de informações relevantes ou oportunas disponíveis aos investidores, visto que informações trimestrais relevantes são divulgadas separadamente”.
A decisão de revisar as regras de divulgação de resultados ganhou força no ano passado, após a Long Term Stock Exchange (LTSE), uma operadora de bolsa americana focada em companhias que “priorizam o longo prazo”, apresentar um pedido à SEC para acabar com os balanços trimestrais.
A ideia conta com a simpatia de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos já declarou que as empresas não deveriam “ser forçadas” a divulgar os resultados trimestralmente, argumentando que isso representaria uma economia de recursos.
As empresas de capital aberto nos Estados Unidos divulgam seus resultados a cada três meses há mais de 50 anos. Para quem defende o fim da obrigatoriedade, a medida poderia estimular a abertura de capital de mais companhias.
Entre os motivos citados pelas empresas para permanecerem privadas está o trabalho administrativo demorado e dispendioso necessário para listar e manter ações negociadas publicamente, o que inclui fechar os balanços trimestralmente.
Entre aqueles que acreditam que é preciso rever as regras de divulgação estão Warren Buffett e Jamie Dimon, CEO do J.P. Morgan. Em um artigo publicado em 2018 no WSJ, a dupla defendeu o fim dos guidances trimestrais — e não dos balanços — sob o argumento de que eles prejudicam o planejamento de longo prazo.
A proposta alinharia os Estados Unidos ao que já ocorre no Reino Unido e na União Europeia (UE), onde as empresas são obrigadas a apresentar relatórios semestrais, mas podem divulgar relatórios trimestrais, se assim desejarem.
Embora seja provável que a agência dê seguimento à alteração proposta, ela poderá modificar a redação final em resposta ao feedback, disseram as fontes ouvidas pelo WSJ.