O endividamento das famílias brasileiras em níveis históricos; a disposição e até a necessidade de reduzir as faturas em operações de crédito que desestabilizam orçamentos pelo alto custo; e a tendência à acomodação no ritmo de expansão da renda do trabalhador poderão frear a propensão ao consumo de bens e serviços e, por tabela, o crescimento econômico a partir de 2027 – ano que já inspira cuidados pela expectativa de que o cenário atual prescreve um forte ajuste fiscal.

Desaceleração não aponta necessariamente recessão à vista. Entretanto, o desaquecimento da atividade poderá ser agravado por um processo de desalavancagem das famílias. A disposição em reduzir o endividamento contrata, porém, ao menos duas consequências: comprometer ainda mais o bem-estar da população que já vê a situação da economia nada promissora; e reduzir um “conforto” de caixa do governo propiciado pela arrecadação recorde de impostos.

A pesquisa de intenção de votos para presidente BTG/Nexus em sua 9ª edição, divulgada na segunda-feira, 10, confirma longa estabilidade na avaliação da Situação Financeira e Econômica do País. Na 1ª edição da sondagem, em março, 53% dos entrevistados consideravam a situação ruim ou péssima; em agosto, 52%. Ainda em março, 16% viam a situação econômica boa ou ótima; em agosto, 17%.

Esse resultado se mostra refratário ao melhor comportamento da inflação, sobretudo de alimentos, e à queda da Selic que, embora ainda estelar, aconteceu. Conspira contra dados mais favoráveis o endividamento que favorece a percepção de que o cenário pode se agravar, inclusive, por maior restrição ao crédito pelos bancos – cujos resultados trimestrais escancaram uma importante alta de provisões para compensar devedores duvidosos e inadimplentes.

Em sua sexta alta seguida em julho ao recorde de 82%, segundo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento das famílias torna o crédito variável crítica para a formação de expectativas.

E o BTG Pactual amplia o alerta em dois relatórios, pontuando a relevância da desalavancagem dos endividados. Procedimento que pode trazer alívio às famílias, mas abater o consumo para constrangimento do crescimento econômico.

No Cenário Macro Brasil de agosto e no Estudo Especial Risco de Desalavancagem das Famílias no Brasil, de julho, o banco aponta o crédito como a principal preocupação do cenário de atividade sobretudo para o próximo ano – diante do endividamento e comprometimento de renda em meio ao juro elevado.

Na análise sobre atividade no Cenário Macro, onde reafirmam projeções de alta do PIB de 2% em 2026 e 1,1% em 2027, os especialistas Ederson Schumanski e Bruno Martins elencam surpresas baixistas em relação ao esperado nos últimos dois meses para indústria, comércio e serviços que refletem a política monetária ainda contracionista e a política fiscal que deve se aproximar da neutralidade.

Impacto da renda

Já o Estudo Especial sobre desalavancagem das famílias alerta para o impacto da desaceleração no aumento da renda e do consumo sobre o PIB e traça quatro cenários de renda: forte, moderada, fraca e de crise. E, em todos eles, simulações para o consumo recuam com menor ou maior gravidade.

Cenário Renda Forte com expansão da renda de 4,4% em 2026 e de 4,8% em 2027, a expectativa de avanço do consumo cai de 2,7% para 2,2%.

Cenário Renda Moderada – com aumento da renda ainda em 4,4% neste ano, declinando a 1,2% em 2027, a perspectiva de alta do consumo é de 0,8%.

Cenário Renda Fraca – com alta de renda neste ano de 3,1% e crescimento zero em 2027, a expansão do consumo recua a 1,9% neste ano e a -0,4% no próximo.

Cenário de Crise – com crescimento da renda em 2026 também de 3,1%, o avanço do consumo persiste em 1,9%. Mas, em 2027, se a renda registrar variação negativa de 3,3%, o efeito sobre o consumo seria negativo em substantivos 2,2%.

Para o BTG, a inflação corrente mais benigna e sinais de moderação da atividade e do mercado de trabalho abrem espaço para a continuidade do ciclo de calibração do juro. Porém, o balanço de riscos para 2027 e 2028 piorou com a geopolítica, maior probabilidade de um El Niño intenso e nova deterioração das expectativas de longo prazo. Resultado: sobre a atividade em 2027, que já tem viés de baixa, pesa o endividamento recorde que pode intensificar a desaceleração do consumo.

O banco explica que há, no mercado internacional, uma correlação entre o endividamento das famílias e posterior queda da atividade via consumo. No Brasil não foi diferente entre o ciclo recessivo de 2011 a 2016. E hoje o cenário tem agravantes. O endividamento e o comprometimento da renda são mais altos e a composição do crédito piorou, concentrando-se na baixa renda entre 2017 e 2022.

Além do endividamento e comprometimento da renda próximos de máximas históricas, lembra o banco, o ciclo recente de crédito trouxe maior inclusão financeira, digitalização bancária, expansão de produtos para baixa renda e crescimento de modalidades com maior custo de serviço da dívida.

Adicionalmente, desde a pandemia, ocorreram mudanças estruturais que impulsionam o mercado de trabalho e forte expansão fiscal e parafiscal com estímulos creditícios a sustentar renda, consumo e a alavancagem.

Resumo da ópera: uma possível desaceleração desses impulsos, combinada a juros elevados por tempo prolongado e choques de oferta, pode transformar o alto endividamento em uma efetiva restrição ao consumo. Com efeito deletério sobre o PIB. Recado dado.