Em meio a um cenário ainda difícil para os investimentos em ativos alternativos, o Patria conclui a captação de seu quarto fundo de venture capital, levantando R$ 550 milhões.

O Patria High Growth, união das gestoras Kamaroopin e Igah Ventures, que conta com mais de US$ 500 milhões em ativos sob gestão na frente de venture capital e growth equity, contou com o apoio de veículo estruturado para clientes da XP Investimentos e estruturas de coinvestimento para captar os recursos.

“Entendendo as mudanças do mercado e as necessidades dos investidores, mantemos a estratégia de investir em empresas que utilizam a tecnologia para impulsionar ganhos de eficiência em seus respectivos setores”, diz Pedro Melzer, sócio do Patria e responsável pela estratégia de high growth da gestora, ao NeoFeed.

O valor levantado para essa safra de investimentos em venture capital ficou abaixo da ambição de conseguir até US$ 150 milhões (R$ 777,8 milhões). O prazo de captação foi também mais longo que o esperado. O processo começou em 2023. Na época, em conversa com NeoFeed em 2024, Melzer afirmou que a captação poderia ser concluída até o primeiro trimestre de 2025.

Com esse montante, a intenção é reforçar a tese de investir em empresas de tecnologia com forte componente financeiro, além de ampliar a presença na América Latina.

Com esses recursos, o Patria já realizou seis investimentos com o fundo IV. Entre eles estão a Spott, plataforma de gestão de carregadores para veículos elétricos; a Benup, que atua na gestão de benefícios corporativos; e a Liqi, especializada em tokenização de ativos financeiros.

O plano é que esse novo fundo tenha entre 12 e 20 companhias investidas, com o tamanho médio dos cheques variando de R$ 20 milhões a R$ 25 milhões, podendo chegar até a R$ 100 milhões.

A alocação dos recursos segue uma estratégia conservadora, com a construção gradual de portfólio. O Patria faz cheques iniciais menores e depois concentra capital nas empresas que demonstram maior capacidade de execução ao longo do tempo.

Uma das prioridades é aprofundar a exposição a serviços financeiros. Segundo Melzer, o fio condutor dos seis investimentos realizados até agora é justamente o uso de tecnologia para resolver problemas ligados a crédito, pagamentos, infraestrutura financeira ou tokenização de ativos.

A tese reflete a visão de que, apesar da sofisticação que o sistema financeiro brasileiro ganhou, ainda existe espaço para startups criarem soluções que os grandes bancos têm dificuldade de desenvolver internamente.

“Estamos avaliando oportunidades em saúde e em diversos outros setores nos quais tradicionalmente investimos, mas, neste momento, temos uma atenção especial para empresas que oferecem serviços financeiros ou infraestrutura financeira aplicados a diferentes segmentos da economia”, afirma Melzer.

Outra prioridade é ampliar a busca por oportunidades na América Latina, dedicando mais atenção a esses mercados diante da evolução dos ecossistemas locais de inovação da região.

Em julho deste ano, o Patria anunciou que liderou uma rodada de US$ 60 milhões na startup colombiana Duppla, que opera um modelo de “rent to own”, no qual famílias que não conseguem arcar com a entrada exigida para um financiamento imobiliário pagam um aluguel acrescido de uma parcela que gradualmente se converte em participação no imóvel.

Melzer diz que não há uma meta de alocação regional, mas a ideia é ir crescendo onde o Patria já possui presença relevante, como Colômbia, Chile e Argentina, aproveitando o alcance da companhia, que possui mais de US$ 62 bilhões em ativos sob gestão.

Esse alcance, segundo Melzer, permite ter um nível de inteligência elevado sobre oportunidades, garantindo assertividade, como foi o caso da Duppla.

Ele conta que o investimento foi resultado de uma parceria do time de venture capital com Diego Chona, sócio e líder de investimentos de private equity que mora na Colômbia, e com Marcelo Fedak, responsável pela parte de real estate global, excluindo o Brasil.

“Hoje, nos sentimos mais confortáveis para avaliar oportunidades na América Latina porque contamos com um conhecimento local e setorial muito mais profundo do que tínhamos no passado”, diz Melzer.

Tema do momento, a inteligência artificial (IA) acaba sendo muito mais uma questão de como a tecnologia afeta a empresa analisada tanto pelo lado de ajudar a impulsionar o seu crescimento, como de potencial ameaça competitiva.

Melzer entende que o momento está mais propício para realizar investimentos. Após os excessos observados durante o boom do venture capital, a constatação é de que empreendedores e gestores passaram a convergir para avaliações mais realistas e estratégias de crescimento menos agressivas.

“Hoje você consegue entrar em preços adequados, com o volume de capital adequado e construir uma história alinhada com o empreendedor muito mais saudável do que a gente viu tempos atrás”, afirma.

Safra nova de captações

A captação do novo fundo do Patria acontece em um momento desafiador para a indústria global de venture capital. Com o ritmo de saídas abaixo do esperado nos últimos anos.

Mesmo assim, algumas gestoras de venture capital com histórico e tradição no mercado estão conseguindo avançar em suas captações. Cloud9 Capital, Astella Investimentos, Canary, Valor Capital, OneVC, Big Bets, Volpe Capital, Spectra e DNA Capital, têm conseguido atrair investidores para seus novos veículos.

Muitos investidores institucionais seguem sobrealocados na classe e mais seletivos na hora de fazer novos compromissos. Em meio a esse cenário, houve uma mudança estrutural na forma como investidores têm acessado a classe de venture capital e diferentes classes de ativos, segundo Melzer.

Em vez de concentrar recursos exclusivamente em fundos fechados, os investidores passaram a demandar veículos específicos para determinadas oportunidades, formato que o Patria adotou.

“Hoje você compõe a oferta para os investidores com fundos fechados e veículos específicos. Isso permite construir portfólios com maior afinidade e participar de oportunidades de coinvestimento”, afirma Melzer. “Quando você vê o quanto as diferentes casas estão captando, tem essa configuração, de fundo fechado com mais veículos específicos.”

Melzer afirma que esse formato permite captar recursos por meio de veículos dedicados a oportunidades específicas, mesmo após o encerramento formal do fundo. “Se amanhã tivermos uma oportunidade de investir US$ 20 milhões em uma empresa e não quisermos concentrar todo esse valor dentro do fundo, podemos, por exemplo, alocar US$ 8 milhões no fundo e os outros US$ 12 milhões em um veículo específico”, afirma.

Isso faz com que a captação de recursos e a construção do portfólios sejam contínuos, dando flexibilidade para a casa. “Ainda não sabemos qual será o tamanho final dessa vintage, porque continuamos captando recursos por meio de veículos específicos”, diz Melzer.