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A vida imita a arte: nem o consultor do filme “Contágio” escapou do coronavírus

O médico Ian Lipkin, um dos mais respeitados epidemiologistas dos EUA, ajudou a produção hollywoodiana a criar um cenário plausível de uma pandemia mundial, em 2011. Agora foi infectado pelo Covid-19

 

Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecção e Imunidade da Universidade Columbia, foi o consultor do filme “Contágio”

Uma conversa entre o apresentador do programa “The Dr. Oz Show” e um epidemiologista infectado pelo novo coronavírus chamou a atenção na programação da TV americana, na última quinta-feira.

Não se tratava de mais um médico contaminado enquanto cuidava de seus pacientes no hospital. E sim de ninguém menos do que o dr. W. Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecção e Imunidade da Universidade Columbia.

O que gerou barulho ao redor dessa contaminação não é porque ele é um dos mais famosos epidemiologistas dos Estados Unidos, mas sim pela ironia por trás de tudo isso: ele foi dos consultores técnicos que ajudaram os roteiristas do filme “Contágio” (2011).

A produção cinematográfica voltou à tona nos dias atuais. E, melhor do que ninguém, Lipkin, chamado nos EUA de “o caçador de vírus”, sabia que uma pandemia global dessa magnitude poderia acontecer.

Durante a pré-produção de “Contágio”, thriller sobre doença viral que mata 26 milhões de pessoas ao redor do mundo, o cineasta Steven Soderbergh contratou Lipkin justamente para ajudar o roteirista Scott Z Burns a criar um cenário plausível de uma pandemia.

De tão verossímil, quem assiste hoje ao filme, acompanhando como um vírus letal deixa a população em pânico, acaba boquiaberto com as semelhanças com a crise mundial do novo coronavírus.

Desde o início da sua colaboração com Hollywood, a ideia de Lipkin sempre foi alertar a população sobre os “desafios urgentes que a saúde pública vai enfrentar no século 21”.

Na webpage da faculdade de saúde pública da Universidade Columbia, o epidemiologista esclarece por que o planeta está mais suscetível a surtos de vírus, citando o comércio internacional mais intenso, o número maior de viagens internacionais, a urbanização e o investimento inadequado em infraestrutura para vigilância sanitária e para a produção e a distribuição de vacinas, entre os fatores.

Cena do filme “Contágio”, de 2011, com a atriz Gwyneth Paltrow

Segundo seus estudos, ainda figura entre as principais causas a comercialização de animais silvestres, pelas pandemias muitas vezes serem reflexo das intervenções do homem no meio ambiente, desrespeitando os seus hábitats. Foi ideia de Lipkin apresentar em “Contágio” o surto de um vírus capaz de migrar de animais para pessoas.

Enquanto o morcego é apontado por especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) como o reservatório muito provável do novo coronavírus, no filme a rota de transmissão é do morcego para um porco, contaminando a partir daí as mãos de um chef de cozinha que prepara o leitão em seu restaurante.

A inspiração para Lipkin aqui foi o vírus Nipah, detectado pela primeira vez na Malásia, em 1998. Na ocasião, os primeiros humanos contaminados foram os que tiveram contato com porcos, os hospedeiros intermediários do vírus adquiridos de morcegos.

Por estar infectado, Lipkin cancelou todas as entrevistas no momento. Ele só aceitou conversar, por Skype, com Dr. Oz, que é uma personalidade de TV nos EUA, além de ser seu amigo – o apresentador foi colega de faculdade do epidemiologista, na Columbia.

Durante o programa, Lipkin contou estar se tratando com o remédio antimalária Plaquenil (a hidroxicloroquina). O desafio, segundo ele, foi encontrar o medicamento, atualmente em falta nas farmácias dos EUA.

No início do ano, o epidemiologista esteve na China, para cooperar com cientistas e autoridades de saúde pública locais no desenvolvimento de estratégias para diminuir a mobilidade e a mortalidade do novo coronavírus. Mas como tantos nova-iorquinos, Lipkin afirma que adquiriu o vírus por transmissão comunitária na cidade onde mora.

A infecção, segundo ele, não está relacionada às pesquisas conduzidas em seu laboratório na Columbia. Por apresentar sintomas leves, atualmente o epidemiologista está em casa, de quarentena.

“Por muitos anos, combater a propagação de doenças infecciosas foi uma missão profissional e humanitária para mim. Agora que se tornou pessoal, aprecio profundamente os votos de melhoras recebidos, principalmente dos meus colegas na China com quem trabalho há muitos anos”, disse ele, em declaração publicada na webpage da faculdade de saúde pública da Universidade Columbia.

Capa do filme “Contágio”

Paralelo a isso, a procura por “Contágio”, estrelado por Matt Damon, Gwyneth Paltrow e Kate Winslet, só aumenta, fazendo do filme um hit do momento. Disponível no Brasil para compra (por R$ 19,90) e aluguel (por R$ 7,90) no iTunes, “Contágio” figurou nesta última semana na lista dos filmes mais procurados no “top chart” da iTunes store nos EUA. Por aqui, o filme também está no catálogo da plataforma de streaming HBO GO.

São muitas as semelhanças entre ficção e realidade, a começar pela região onde o vírus surgiu. Nos dois casos, a doença veio da Ásia. Mais especificamente, de Hong Kong, na trama hollywoodiana, e da China, que foi o país epicentro do novo coronavírus.

Os sintomas também são parecidos, por lembrarem os de uma gripe, embora muito mais fortes e intensos. Até a forma de contágio é a mesma: tanto o Sars-Cov-2 (nome oficial do vírus que atinge o mundo atualmente) quanto o fictício MEV-1 são transmitidos pelo ar e por contato – como o toque em uma pessoa contaminada ou em uma superfície contaminada, seguida neste último caso de contato com a boca, o nariz ou os olhos.

No filme, a pandemia é desencadeada com a morte de Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) em Minneapolis (EUA), dois dias após voltar de uma viagem de negócios em Hong Kong. Depois que o vírus se espalha (obviamente de forma mais rápida e letal que na realidade, para carregar no drama), as cenas não são muito diferentes do que se vê hoje nos noticiários ou nas ruas.

É como se “Contágio” fosse uma espécie de profecia, mostrando as cidades em quarentena, as prateleiras vazias nos supermercados, o fechamento de fronteiras, a apreensão das autoridades de saúde, a enxurrada de “fake news’’ e a corrida contra o relógio dos cientistas, em busca de uma vacina capaz de colocar um ponto final no pesadelo.

A diferença é que a vacina contra o fictício MEV-1 levou apenas 90 dias para chegar à população, enquanto a do novo coronavírus pode levar mais de ano para ser desenvolvida. A vida, neste caso da vacina, bem que poderia imitar a arte.

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