A obstinação do empresário que une hotelaria e preservação no Pantanal

Há mais de três décadas, Roberto Klabin tem batalhado pela preservação ambiental da região e conseguiu fazer do turismo, e de seu refúgio Caiman, um aliado nessa tarefa

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Roberto Klabin, um dos protetores da Onça pintada do Pantanal

Sempre que chega ao Refúgio Ecológico Caiman, no município de Miranda, Pantanal do Mato Grosso do Sul, o empresário e ambientalista paulistano Roberto Klabin visita toda a operação de sua fazenda e hotel, interage com os hóspedes e faz reuniões com o staff – de quem fala como se fosse família.

“No Pantanal todo mundo tem apelido. O porteiro é o Salgadinho, a gerente-geral é ‘A Quem Manda’ e o gerente da fazenda é “O Que Manda”. Lá tinha o Zóio (de olhos grandes), o Zóinho (com olhos pequenos) e o Só Um (de um olho só)”, conta ao NeoFeed, Klabin, entre risos.

O empresário brinca que, de certa forma, ele é o “senhor feudal” da propriedade que emprega cerca de 100 pessoas, abrange 53 mil hectares e há 35 anos é voltada a ações de pesquisa e preservação ambiental, atividade de pecuária extensiva de corte e turismo ecológico. “Eles se referem a mim como ‘O Homem’.”

Klabin é, de fato, ‘O Homem’ da Caiman, do Pantanal e do engajamento em prol da natureza brasileira. Nascido em uma das famílias mais tradicionais do País, fundadora de uma das maiores empresas de produção e exportação de papel e celulose do Brasil, ele é um dos fundadores e vice-presidente da Fundação SOS Mata Atlântica e é criador da SOS Pantanal.

“O meu papel como ativista social na área ambiental é de continuamente informar, tentar ativar, agitar, incomodar e estar presente. Como indivíduo, estou criando uma ‘arca de Noé’”, diz.

Foram as reservas africanas, mais precisamente Mala Mala Game Reserve, colada ao Kruger Park, na África do Sul, que inspiraram o empresário a iniciar, em 1985, o sonho de preservar a riqueza das paisagens pantaneiras e de compartilhá-las com as pessoas, transformando a parte que lhe coube da fazenda centenária de sua família em destino turístico.

“O negócio ambientalista já estava no meu DNA. Frequento a fazenda desde os 10 anos de idade e conheço intimamente o lugar.” Com três opções de pousadas e diárias a partir de R$ 3.350 por suíte para duas pessoas, incluindo todas as refeições e passeios, a Caiman propõe diversos programas para a observação de espécies. “Digo sempre que é um laboratório.”

A Casa Caiman, no coração do Pantanal, tem recebido cada vez mais hóspedes brasileiros

Klabin recebe e incentiva importantes projetos relacionados ao estudo e a preservação da fauna local. Um deles é o Projeto Arara-Azul. Fundado em 1990 e coordenado pela Dra. Neiva Guedes, da Uniderp, tirou a espécie do risco de extinção no Pantanal. “Ela elevou a população pantaneira da ave de 1.500 para cerca de 5 mil”, conta. Já o projeto Papagaio Verdadeiro busca e divulga, desde 1997, informações sobre uma das aves mais visadas pelo tráfico de animais.

O empresário também criou na fazenda em 2004 uma área protegida de 5,6 mil hectares que recebeu o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), a fim de garantir a conservação perpétua do bioma da região. E não para por aí.

Em 2011 Mario Haberfeld, ex-piloto de Fórmula 1, apresentou a Klabin a ideia de trabalhar com as onças. Surgia o Onçafari, com base na Caiman, idealizado para preservar a onça-pintada no Pantanal e habituá-la à presença de veículos. “De todos os anos que frequentei a fazenda só fui ver uma onça aos 40 anos de idade.” Por meio do safári fotográfico do Onçafari, em 2019, 92% dos hóspedes da Caiman avistaram o animal na propriedade.

Naturalmente, outros animais estão no radar de preservação do empresário. “Gostaria muito, no futuro, de desenvolver um trabalho com o cervo do Pantanal, que você vê pouco, e/ou com as queixadas – parente do porco selvagem, animal fundamental para manter uma boa estabilidade de predadores”, explica. “Todos esses projetos mudam a forma como as pessoas enxergam a natureza na região.”

Uma das suítes da Casa Caiman

Tanto é que Klabin participa da criação de um corredor privado de conservação que começa a ganhar força além das fronteiras de sua fazenda. Tudo graças à união de proprietários de fazendas vizinhas com o mesmo pensamento, de aliar várias atividades sem prejudicar o meio ambiente. Entre eles, estão a ambientalista Teresa Bracher, o banqueiro André Esteves e sua mulher Lilian e os empresários Alexandre Bossi e Israel Klabin.

“Estamos falando de uma área de quase 200 mil hectares de pessoas que pensam da mesma maneira.” Klabin destaca a criação de um estatuto para poder orientar e organizar as atividades nas fazendas. “Estamos criando brigadas de combate a incêndio”, completa.

Um incêndio devastador em 2019 atingiu mais de 60% da Caiman. Com a tragédia e a pandemia, em seguida, o empresário tomou fôlego para fazer a reforma completa da sede antiga da fazenda e da antiga casa da família.

O safari que proporciona avistar onças pintadas – Foto: Divulgação/Edu Fragoso

Com investimentos de R$ 14 milhões, inaugurou em maio deste ano a Casa Caiman, com as duas casas integradas, 18 suítes e uma área comum com bar, piscina, sala de leitura, redário e espaços para ver o pôr-do-sol. “A reforma mudou o patamar da Caiman por completo e tornou-a mais exclusiva.”

O timing foi perfeito. Com as restrições para viajar ao exterior por conta da Covid-19, o brasileiro partiu para descobrir o Brasil. “Eu sempre tive um turismo voltado para estrangeiros. Nunca imaginei que receberia tantos turistas brasileiros.”

No final do dia na Caiman, Klabin costuma sair de carro para visitar as paisagens mais distantes e apreciar a revoada de aves voltando para os seus ninhos. “É o rush hour dos pássaros lá no Pantanal.”

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