Filme retrata a maior operação secreta dos EUA, que ajudou a criar o Talibã

Rever “Jogos do Poder”, drama lançado em 2007 e protagonizado por Tom Hanks, ajuda a entender como o grupo fundamentalista Talibã, que volta agora ao poder no Afeganistão, seria um efeito colateral da Operação Ciclone

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O congressista americano Charlie Wilson, vivido pelo ator Tom Hanks, em “Jogos do Poder”

Uma das cenas finais do drama biográfico “Jogos do Poder” (2007), ambientado nos anos 1980, alerta para o perigo de um grupo fundamentalista ser formado no Afeganistão.

É uma referência clara ao que viria a ser o Talibã, que está voltando ao poder, após conquistar a capital Cabul, em 15 de agosto, 20 anos depois de terem sido depostos na esteira dos eventos de 11 de setembro de 2001, que levaram os Estados Unidos a invadir o Afeganistão.

Rever “Jogos do Poder”, neste momento em que cenas dramáticas de afegãos querendo fugir de seu país e mães desesperadas entregam seus filhos a soldados ocidentais correm o mundo, ajuda a entender o papel do próprio Estados Unidos na formação do Talibã e explica a origem dos conflitos no Afeganistão.

Baseado em fatos reais, o filme “Jogos do Poder”, ainda que dramatize certas situações, é quase uma lição de história sobre a Operação Ciclone, um programa da Agência Central de Inteligência (CIA) desenvolvido para dar o suporte armamentista ao Afeganistão durante a invasão soviética (1979-1989).

Como o mundo ainda vivia o período da Guerra Fria (1947-1991), os EUA viam a ocupação soviética no Afeganistão como uma ameaça à paz, o que levou os americanos a fornecer apoio militar e a financiar o treinamento de guerrilhas anticomunistas no país.

O Talibã seria um dos possíveis efeitos colaterais dessa operação, à medida que os EUA não deram continuidade ao apoio, após a retirada dos soviéticos do Afeganistão, em 1989.

O filme trata da trajetória verídica de um dos responsáveis pela Operação Ciclone, Charlie Wilson (1933-2010), um congressista texano que chamava a atenção pelo comportamento de playboy, ao abusar do álcool e das festas, sempre acompanhado de belas mulheres.

Escrito por Aaron Sorkin (“The West Wing” e “The Newsroom”), o roteiro é uma adaptação do livro publicado pelo jornalista George Crile III, em 2003, “Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History” (“A Guerra de Charlie Wilson: a história extraordinária da maior operação secreta da história”, na tradução do inglês).

O congressista americano Charlie Wilson, vivido pelo ator Tom Hanks, pede que o governo dos EUA construa escolas no Afeganistão. Ele acha errado dar as costas aos afegãos depois de os EUA tê-los ajudado a expulsar os soviéticos, após uma ocupação de 10 anos.

“Metade da população do país tem menos de 14 anos. Pensem como isso é perigoso. Eles vão voltar para casa e descobrir que suas famílias foram mortas e suas aldeias foram incendiadas”, afirma o congressista.

Wilson destaca que, mesmo que os EUA tenham ajudado o povo a se livrar dos soviéticos, armando o movimento de resistência, os afegãos não sabem disso. “Porque eles não recebem em casa o The New York Times. E mesmo se eles recebessem o jornal, tudo foi secreto, lembra?”, diz Wilson, irônico.

A promessa de ajuda americana na reconstrução do país, devastado pela guerra, nunca se concretizou, o que resultou em um cenário político caótico, com grupos armados brigando pelo poder.

Analistas e historiadores acreditam que a reabilitação de escolas, por exemplo, poderia ter ajudado a frear a ascensão de grupos fundamentalistas, como o Talibã, que tomaram o poder e estiveram por trás dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, um dos eventos mais traumáticos da história americana no século 21.

“Isso é o que sempre fazemos. Nós sempre interferimos com nossos ideais, mudamos o mundo e logo depois partimos. Nós sempre partimos”, lamenta Wilson, no filme dirigido por Mike Nichols. “Mas a bola, entretanto, continua quicando”, completa ele.

Assim que a trama começa, Wilson ainda divide o seu tempo entre a farra e o trabalho, sem que ele tenha qualquer relevância política. É por influência de uma socialite conservadora e anticomunista de Houston, Joanne Herring (Julia Roberts), que ele abraça a causa dos afegãos.

Wilson é o escolhido pela milionária por integrar o Subcomitê de Apropriações de Defesa, o que o torna perfeito para a missão de levantar fundos para armar os afegãos contra os soviéticos.

Graças aos contatos de Joanne, e com a ajuda do agente da CIA, Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), o congressista começa a operação que envolve também o Paquistão, Israel e Egito, entre outros países, já que os EUA não queriam que armas de fabricação americana fossem encontradas no Afeganistão.

Em pouco tempo, os rebeldes afegãos são equipados com lançadores de mísseis portáteis chamados FIM-92 Stinger, capazes de derrubar os aviões soviéticos. Com o uso do armamento, eficaz contra aeronaves que voam baixo e com um índice de precisão de 70%, a constante perda de aviões pesou para os soviéticos, forçando-os a se retirarem do Afeganistão.

A Ciclone foi uma das operações mais caras da CIA, com gastos que variaram de US$ 20 milhões a US$ 30 milhões por ano (chegando a US$ 630 milhões no ano em 1987).

E apesar de a operação ter provavelmente contribuído para o enfraquecimento da União Soviética, uma parte dos combatentes treinada e armada pelo programa enveredou pelo fundamentalismo, abrindo caminho para o Talibã.

É por isso que “Jogos do Poder” termina com uma declaração amarga atribuída a Wilson, que morreu em 2010, no Texas, vítima de ataque cardíaco, aos 76 anos. “Essas coisas aconteceram. Foram gloriosas e mudaram o mundo … E então, na última jogada, estragamos tudo”.

Com a saída dos Estados Unidos do Afeganistão, em uma guerra que durou 20 anos, é como se a história estivesse se repetindo. No caso do Afeganistão, nas duas ocasiões, como uma tragédia.

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