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“In bitcoin we trust”: a gestora brasileira que está surfando a alta das criptomoedas

A tese da Hashdex não era fácil: convencer investidores a apostar em criptoativos. Dois anos depois, com a alta da moeda virtual, a gestora carioca vê o número de seus clientes dobrar em três meses e o valor dos ativos sob gestão se multiplicar por sete em um ano

 

Marcelo Sampaio, um dos fundadores da gestora Hashdex

Nos últimos anos, a moeda virtual bitcoin viveu uma verdadeira montanha russa. Desde dezembro de 2017, quando atingiu o patamar recorde de quase US$ 20 mil, a criptomoeda vive subindo e descendo como se fosse um eletrocardiograma.

Nada disso tirou o otimismo do empreendedor carioca Marcelo Sampaio, que fundou a gestora de recursos Hashdex em 2018 com o objetivo de desenvolver fundos de investimentos baseados em criptoativos.

A tese de Sampaio não era fácil de convencer os investidores, principalmente os institucionais, que sempre olharam com desconfiança para o mundo das criptomoedas. Dois anos depois, parece que a Hashdex está começando a romper essa barreira. “O que a gente faz é dar acesso ao mercado financeiro para investir em cripto de forma simples, segura e regulada”, afirmou Sampaio ao NeoFeed.

Com o bitcoin chegando a valer US$ 15,4 mil, o maior patamar desde janeiro de 2018, a Hashdex começa a colher os frutos de sua insistência. Em agosto deste ano, a Hashdex tinha 5 mil cotistas em seus quatro fundos. Em novembro, o número já havia superado 11 mil cotistas.

O valor dos ativos sob gestão da Hashdex também deu um salto. Há um ano, era de R$ 45 milhões. Em novembro deste ano, havia chegado a R$ 302 milhões, um salto de quase sete vezes no período de 12 meses.

A Hashdex administra quatro fundos no Brasil, que hoje são distribuídos nas principais plataformas de investimento do País, da XP ao BTG Digital, passando por Órama e Easynvest, entre outras.

O primeiro deles é o Discovery, para investidores em geral, que aplica 20% em criptoativos baseado no índice HDAI (Hashdex Digital Assets Index), criado pela Hashdex e distribuído desde julho pela Nasdaq, nos Estados Unidos. Neste ano, o fundo valoriza-se 25,36%.

O segundo fundo é o Voyager, para investidores profissionais, que investe até 100% em cripto (HDAI). A alta já soma 166,35%. O terceiro, lançado em dezembro de 2019, batizado de Explorer, é para investidores qualificados e investe 40% em criptoativos (HDAI). Este fundo sobe 56%.

O mais recente lançamento da gestora, feito em outubro de 2020, é um fundo que investe 100% em bitcoin e é destinado aos investidores qualificados. Neste ano, o valor do bitcoin, em dólar, cresceu 108%. Desde março, quando atingiu seu menor valor neste ano, a alta é de 146,9%.

Neste ano, o valor do bitcoin, em dólar, cresceu 108%. Desde março, quando atingiu seu menor valor, a alta é de 146,9%.

Mas o que explica essa alta do bitcoin? E, em especial, será que ela é sustentável, dada ao fato de que se trata de um ativo que sofre enormes oscilações? O megainvestidor Warren Buffett, conhecido como o Oráculo de Omaha por conta de suas tacadas certeiras de investimentos, já disse muitas vezes que o bitcoin nada mais é do que um esquema Ponzi, pois não produz nada e, portanto, não tem valor.

Apesar dessa visão pessimista de Buffett, o bitcoin ganhou uma série de apoios institucionais de peso em 2020. “A adesão recente de empresas como Square e Paypal e a entrada de investidores profissionais com grandes aportes têm sido os principais vetores de alta”, diz Safiri Felix, presidente da Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto), que estima em R$ 100 bilhões as transações com criptomoedas no Brasil em 2020.

Em outubro deste ano, o Paypal anunciou que seus clientes poderão comprar, vender e manter moedas digitais na sua plataforma. Por enquanto, a novidade estará disponível primeiro nos Estados Unidos e deve chegar a outras regiões no início de 2021.

“Estamos ansiosos para trabalhar com bancos centrais e reguladores em todo o mundo para oferecer nosso apoio e contribuir significativamente para moldar o papel que as moedas digitais desempenharão no futuro das finanças e comércios globais”, disse, na ocasião, Dan Schulman, presidente do Paypal.

A fintech Square, que fornece soluções de meios de pagamentos, informou também que vendeu US$ 1,6 bilhão em bitcoins durante o seu terceiro trimestre fiscal de 2020. As vendas, nesse período, somam quase 90% das vendas de todos os trimestres anteriores.

Em agosto deste ano, a Microstrategy, empresa de tecnologia avaliada em US$ 1,7 bilhão na Nasdaq, se tornou também a primeira empresa aberta a alocar parte de seu caixa em bitcoin. Hoje, a companhia tem o equivalente a US$ 425 milhões na moeda virtual.

“Estamos muito confiantes de que o Bitcoin é menos arriscado do que guardar dinheiro, menos arriscado do que guardar ouro”, disse Michael Saylor, CEO da Microstrategy, em uma entrevista à Bloomberg.

Outro apoio de peso ao bitcoin veio do bilionário Paul Tudor Jones, fundador do Tudor Group, que tem mais de US$ 9 bilhões em ativos sob gestão. Em maio deste ano, ele alocou parte dos recursos em bitcoin, sem revelar a fatia.

Recentemente, Jones deu diversas declarações a favor da moeda digital. Uma delas comparava o investimento que seus fundos hedge fizeram no bitcoin a investimentos em empresas como Apple e Google nos seus estágios iniciais.

“Acredito que estamos vivenciando a primeira grande chance do bitcoin”, disse Jones, em entrevista ao programa Squawk Box, da CNBC. “É um longo caminho a percorrer.”

A bolsa eletrônica Nasdaq vai lançar o seu próprio índice de criptomoedas, que segue a fórmula desenvolvida para o Hashdex Digital Assets Index

Em dezembro deste ano, o bitcoin vai ganhar outro grande impulso. A bolsa eletrônica Nasdaq vai lançar o seu próprio índice de criptomoedas, que segue a fórmula desenvolvida para o Hashdex Digital Assets Index, cuja bitcoin representa atualmente 75% do peso do índice.

O Nasdaq Cripto Index, que será uma espécie de S&P 500 das criptomoedas, segue uma série de regras. Para fazer parte dele, a moeda virtual precisa ter preço flutuante, ser negociada em uma corretora qualificada, ser suportado por um custodiante profissional, contar com um volume médio diário de US$ 4 milhões e representação do mercado mínima de 0,25%.

Com isso, a Hashdex vai lançar um ETF (Exchange Traded Fund, fundos que replicam índices e são negociados em bolsa, como se fossem ações) que vai replicar o índice da Nasdaq. O Hashdex Nasdaq Crypto Index será o primeiro mundo, segundo a gestora, e será listado na bolsa de valores da Bermudas (BSX).

A Hashdex foi fundada por Sampaio e Bruno Caratori. Sampaio tem passagens pela Oracle e pela Microsoft. Já Caratori foi gerente de risco da Gávea, a gestora de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso.

A gestora recebeu R$ 20 milhões em duas rodadas. O aporte veio de fundos como Graph Ventures, Social Capital e Outlier Ventures, todos do Vale do Silício. No Brasil, o Canary, a Igah (união da e.bricks ventures com a Joá Investimentos) e o fundo de investidores-anjo da Fundação Estudar apostaram na empresa. Sampaio não descarta um novo aporte em 2021.

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