Insiders

Milhares de investidores estão comprando ações de empresas “falidas”. Qual é a lógica?

Investidores amadores estão usando o aplicativo Robinhood para comprar ações de empresas em concordata, como a Hertz e a JC Penney. O risco de prejuízo é enorme, mas até agora eles não têm do que reclamar

 

Demanda por ações da Hertz cresceu no aplicativo Robinhood

O investidor amador Ryan Landerfer, de 20 anos, não pensou duas vezes quando viu o valor das ações da locadora de veículos Hertz, que pediu recuperação judicial em 23 de maio.

“Eu comprei uma dúzia de ações da Hertz por US$ 1 cada. O valor é tão baixo que não representa exatamente um risco”, disse ele ao NeoFeed.

Desde que Landerfer comprou as ações da Hertz, os papéis dispararam e hoje valem US$ 2,55, uma valorização de 155%.

Essa perspectiva de ganho fácil, mesmo com risco alto, tem feito milhares de pequenos investidores do aplicativo Robinhood, que permite investimentos em ações sem cobrar comissões, comprar papéis de companhias em recuperação judicial ou que enfrentam problemas financeiros.

Antes de a Hertz protocolar seu pedido de concordata, havia 43 mil usuários do aplicativo com ações da locadora de automóveis no Robinhood. Agora, são quase 100 mil.

A Hertz, no entanto, não é a única empresa com problemas financeiros que está surfando nessa onda de investidores amadores à procura de ganhos rápidos.

Os usuários do Robinhood também apostaram nos papéis da White Petroleum Corp, que está em recuperação judicial. Nas últimas 24 horas, o número de pessoas a deter a ação cresceu em 10 mil usuários.

A JC Penney, que também pediu proteção judicial, está vendo o interesse por seus papéis aumentarem. O empresário da Carolina do Norte Nathan Godwin, de 48 anos, é outro desses investidores que toparam se arriscar, mas que investiram pouco dinheiro, numa estratégia para mitigar o risco.

Empolgado com o “ganho” na aposta arriscada que fez na Hertz, o americano foi além e adquiriu também ações da JC Penney. “Comprei 100 papéis por US$ 0,92 cada e eles saltaram 130%”, diz Godwin.

O investidor se diz esperançoso de que alguém compre a JC Penney, o que faria as ações subirem ainda mais. O fundo de private equity Sycamore, que comprou e depois desistiu da Victoria’s Secret, está em negociações com a rede varejista.

A JC Penney tem até 15 de julho para negociar com seus credores e, mesmo que aceite a oferta de compra, a varejista precisa do aval do juiz responsável por sua concordata.

Se as negociações falharem e a JC Penney não conseguir nenhuma alternativa para honrar sua dívida de US$ 5 bilhões, a companhia pode ir à falência. Nesse caso, Godwin e todos os que investiram no papel quando ele valia centavos vão perder todo o dinheiro.

“É ótimo que Las Vegas esteja reaberta, mas quem precisa disso quando você tem o mercado de ações?”, escreveu em um relatório Peter Boockvar, chefe de investimentos do Bleakley Financial Group, referindo-se ao crescimento de interesse por investidores amadores por essas ações. Para ele, os aumentos rápidos do valor desses papéis é um claro sinal de “espuma” em partes do mercado.

A opinião é compartilhada por Glenn Reynolds, executivo-chefe da CreditSights, que disse, em uma ligação para investidores, que a subida no preço das ações da Hertz “não faz nenhum sentido”. “Mas, desde que todos se divirtam negociando, não ficaremos com inveja deles”, afirmou Reynolds, segundo o Financial Times.

Essa é a lógica dos investidores amadores. Com as taxas de juro perto de zero, eles resolveram brincar na bolsa de valores, usando aplicativos que não cobram taxas e comissões, como é o caso do Robinhood.

Os investimentos são sempre pequenos. Se a empresa for à falência ou o preço da ação cair, o prejuízo não será grande. Em resumo, é como apostar pouco dinheiro nos cassinos de Las Vegas.

São poucos os investidores que têm a capacidade de correr grandes riscos e investir grandes somas de capital em negócios que enfrentam problemas financeiros.

Um deles é o megainvestidor Bill Ackman, fundador e CEO da Pershing Square Capital Management, que comprou por centavos as ações da operadora de shopping centers General Growth Partners pouco depois dela pedir recuperação judicial, em 2008.

Um ano depois, os papéis tinham se valorizado 13 vezes. Mas o ganho não foi por um passe de mágica. Ackman, que tinha 25% da companhia, ajudou na reestruturação da companhia e conseguiu alongar a dívida de US$ 27,3 bilhões em sete anos.

Era o fôlego necessário para a companhia sobreviver e se valorizar, pois gerava caixa. Em 2010, a Simon Property Group anunciou a aquisição do General Growth Partners, em um negócio avaliado em US$ 6,5 bilhões, que envolvia dinheiro e troca de ações.

Mas uma aposta desse porte é coisa para profissionais. Amadores devem ficar longe de tacadas tão arriscadas. Em especial, de empresas à beira da falência.

Siga o NeoFeed nas redes sociais. Estamos no Facebook, no LinkedIn, no Twitter e no Instagram. Assista aos nossos vídeos no canal do YouTube e assine a nossa newsletter para receber notícias diariamente.

Leia também

UM CONTEÚDO:

NEOFEED REPORT

Baixe o relatório “O mapa de ataque das grandes empresas”

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO