Negócios

Na healthtech Bionexo, chegou a hora de ser fintech

A empresa, que conecta milhares de hospitais e fornecedores, anuncia a compra da Avatar Soluções, companhia de software de gestão do ciclo de receita hospitalar. A aquisição é mais um passo para ampliar seu portfólio com a oferta de produtos financeiros, como antecipação de recebíveis, seguros e score de crédito

 

Rafael Barbosa, CEO da Bionexo

O ano de 2020 colocou as healthtechs sob os holofotes dos investidores. Segundo o hub de inovação Distrito, com 49 aportes, o setor ficou atrás apenas das fintechs, apesar do volume total ainda tímido, de US$ 114 milhões. O que se explica pelo fato de muitas delas terem sido gestadas nos últimos anos e estarem em seus estágios iniciais de operação.

Dona de um marketplace que conecta hospitais e fornecedores da cadeia da saúde, a Bionexo destoa desse perfil. Fundada no ano 2000, a empresa foi uma das pioneiras na atração de investidores ao captar US$ 95 milhões, desde a sua criação, junto a fundos como Temasek e Prisma Capital, que tem como sócio Marcelo Hallack, ex-head da área de private equity do BTG.

Agora, a “veterana” começa a desbravar mais uma trilha entre as healthtechs: as aquisições. A companhia acaba de concluir uma participação majoritária – não revelada – da Avatar Soluções, empresa de sistemas de gestão do ciclo de receita hospitalar, no modelo de software como serviço. O acordo, cujos termos financeiros não foram divulgados, é um grande passo da healthtech para se tornar uma fintech, como o NeoFeed havia revelado em 2019.

“A gestão das receitas de um hospital com os planos de saúde é sempre complexa e já estávamos de olho na área há tempos”, diz Rafael Barbosa, CEO da Bionexo, em entrevista exclusiva ao NeoFeed. “E a Avatar foi o ativo que mostrou o crescimento mais sólido, além dos fundadores, que seguem na operação, serem do setor.”

Essa é a terceira aquisição da Bionexo em dois anos. Nesse intervalo, a empresa também comprou a catarinense GTT, dona de soluções em nuvem e baseadas em internet das coisas para a gestão de estoque hospitalar, e a mineira Manager, de ferramentas de integração e automatização para o setor da saúde.

Com sede em Itu (SP), a Avatar, por sua vez, tem sistemas que gerenciam, automatizam, padronizam e dão visibilidade do contas a receber dos hospitais junto às operadoras de saúde. “A ideia é que o hospital fature tudo o que precisa faturar. E que o plano pague aquilo que é certo. Nem mais, nem menos”, explica Barbosa.

Já na Bionexo, o carro-chefe é um marketplace que conecta as demandas de compras de produtos e insumos dos hospitais com leilões eletrônicos. No processo, os fornecedores enviam suas propostas sem saber os preços dos concorrentes. E os hospitais só têm acesso aos valores de cada lance quando se encerra o período da oferta.

No entorno dessa plataforma, a empresa vem construindo um portfólio voltado às instituições e fornecedores. De sistemas na nuvem que cobrem do planejamento ao pagamento, passando pela compra dos produtos, monitoramento dos estoques e entregas dos itens. E a Avatar traz a peça que faltava para fechar esse ciclo.

“Estávamos mais na área de custos e entramos agora na camada das receitas dos hospitais”, diz Barbosa. Com mais visibilidade sobre as etapas da cadeia, a Bionexo quer dar fôlego à estruturação do seu braço de fintech para a área da saúde.

O primeiro movimento concreto veio em meados de 2020, com um projeto-piloto de antecipação de recebíveis para fornecedores. No produto, ainda em teste, essas empresas escolhem os títulos que querem negociar e a Bionexo abre um leilão para bancos e parceiros dispostos a financiar esse crédito.

Com a chegada da Avatar, o plano é estender essa oferta aos hospitais, o que deve acontecer no decorrer deste ano. “Vamos usar essa mesma arquitetura para pegar uma outra perna da conversa” explica Barbosa. “Temos todas as informações que precisamos. Agora, é escalar essas ofertas.” Para 2022, outros produtos, como compras garantidas por seguros e score de crédito, estão no radar.

Essa é a terceira aquisição da Bionexo em dois anos. Nesse intervalo, a empresa também comprou a catarinense GTT e a mineira Manager

Em todos os passos nessa arena, a lógica será a mesma. A Bionexo atuará como o elo de ligação entre os hospitais e fornecedores com as empresas especializadas em produtos e serviços financeiros. No caso da antecipação de recebíveis, por exemplo, um dos parceiros cadastrados é o C6 Bank.

“Nós não damos crédito. Somos uma empresa de tecnologia e nossa ideia não é ser o melhor aplicativo financeiro”, afirma Barbosa, sobre o formato desenhado para entrar nesse espaço. “Queremos, sim, ser o sistema operacional, o intermediário por trás dessas ofertas. E somos agnósticos, podemos ter muitos parceiros.”

Moeda de troca

Nessa equação, a moeda de troca da empresa é o acesso a uma plataforma com 2,2 mil hospitais e 25 mil fornecedores, distribuídos no Brasil e nas operações na Argentina, na Colômbia e no México, países que respondem por 15% da receita.

Essa rede movimentou R$ 11,7 bilhões em 2020, um salto de 20,7% levando-se em conta apenas o setor privado. Em 2019, o total transacionado foi de R$ 12 bilhões, mas a cifra incluía o segmento público, cuja oferta foi encerrada naquele ano.

“Marketplaces como a Bionexo têm acesso a muitos dados transacionais. É natural que sigam essa ‘fintechrização’”, diz Marcelo Nakagawa, professor do Insper, que faz uma ressalva: “O mercado de saúde está passando por uma forte consolidação, por meio de players como Hapvida e Rede D’Or. E empresas como a Bionexo correm o risco de terem cada vez menos elos para integrarem em suas plataformas.”

Nesse sentido, a Avatar também traz opções. Além de clientes como as redes Mater Dei e os hospitais da Amil, a empresa tem uma carteira de laboratórios e clínicas, segmentos ainda com pouca representatividade na Bionexo, cuja plataforma tem usuários como Albert Einstein e Hospital São Luiz.

Gustavo Araújo, cofundador e CEO do Distrito, também destaca a entrada da Bionexo em produtos financeiros, a partir da sua ampla base de dados transacionais do setor de saúde.

“Muitas empresas de software de gestão estão avançando nessa área. Assim como, na saúde, há o movimento contrário”, afirma, citando o caso da Stone, de meios de pagamento, que anunciou a aquisição da Vitta, startup de gestão de planos de saúde corporativos, em maio passado.

“A pandemia chancelou a necessidade de os hospitais usarem tecnologia para fazer a gestão das suas operações”, diz Araújo, ressaltando que a Bionexo é uma das mais bem posicionadas nesse cenário. “Abrir novas frentes mostra maturidade. Ninguém faz esse movimento antes que o seu produto core esteja consolidado.”

A Bionexo tem uma rede que conecta 2,2 mil hospitais e 25 mil fornecedores, e que movimentou R$ 11,7 bilhões em 2020

Sob a ótica de sua linha principal de ofertas, a Bionexo também vê oportunidades com a compra da Avatar. Uma delas é a conexão de dados que ela já compila, como o preço médio dos medicamentos, com as informações capturadas pelos sistemas de gestão do ciclo de receita.

“Eu consigo incrementar a inteligência do produto e gerar insights aos hospitais”, diz Barbosa. Um exemplo dessa abordagem é a integração entre o índice médio de preços do setor, compilado pela Bionexo, com os dados capturados pela plataforma da Avatar.

A partir dessa conexão, a Bionexo pode constatar que um hospital está cobrando menos do plano de saúde do que ele pagou por um determinado item no mercado. E alertar a instituição sobre essa diferença.

Barbosa aponta, porém, que as primeiras sinergias com a Avatar virão da integração de tecnologias, que permitirá avanços também na estrutura por trás da sua plataforma.

Esse mesmo viés alimenta a disposição da Bionexo em investir em novas aquisições. “Estamos com um olhar bem agressivo para empresas de nuvem e há espaço para mais aquisições esse ano”, afirma. “E ainda temos recursos em caixa da nossa última captação, no fim de 2018, para financiar novos acordos.”

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