Nova holding prevê investir até R$ 120 milhões em startups de impacto

Criada a partir da fusão do Grupo Anga e da Din4mo, a Anga&Din4mo planeja captar esse montante via equity crowdfunding e estruturar um portfólio com até 32 empresas no prazo de cinco anos

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Enquanto alguns segmentos do ecossistema de inovação já atraem centenas de milhões de reais em investimentos, as startups de impacto, como são chamadas as empresas com soluções que têm propósito social, ainda estão longe do mesmo grau de amadurecimento.

A pandemia expôs, porém, as vulnerabilidades sociais e fez mais investidores olharem para essas novatas. Foi nesse cenário que a Din4mo, que investe em startups de impacto, e o Grupo Anga, que desenvolve programas de educação e fomento, decidiram fundir suas operações na holding Anga&Din4mo.

“Sabíamos que único caminho de destravar todo o nosso potencial seria efetivamente atrelando nosso portfólio à capacidade de mobilizar capital”, diz Pedro Nascimento, sócio e COO do Grupo Anga&Din4mo, com exclusividade ao NeoFeed.

A holding já nasce com oito startups em seu portfólio, todas investidas pela Din4mo, que captou R$ 6 milhões em recursos via crowd equity. Com a união das operações, a expectativa é ampliar esse número para 32 empresas e captar entre R$ 80 milhões e R$ 120 milhões para investimentos nos próximo cinco anos.

Na nova holding, a Din4mo contribuirá, principalmente, com a experiência na captação de recursos. Além do braço de investimento, a companhia tem um programa que desenvolve a gestão e a governança de empresas.

A Din4mo conta ainda com o InvestSocial, braço que estrutura operações de securitização  e que é uma joint venture com o grupo Gaia; o BlendLab, que estrutura operações financeiras híbridas; e a associação SOMA, Sistema Organizado de Moradia Acessível.

Já o Grupo Anga tem cinco empresas sob seu guarda-chuva e desenvolve programas com foco em impacto social, inteligência de dados para a inclusão digital e desenvolvimento para comunidades marginalizadas. No ano passado, o grupo alcançou a marca de R$ 13 milhões em receita.

As conversas sobre a união começaram no ano passado. “Já estávamos no meio da pandemia e começamos a perceber que teríamos um valor muito maior juntos”, conta Marco Gorini, cofundador da Din4mo e presidente do conselho do Grupo Anga&Din4mo.

Neste ano, a holding prevê investir em quatro empresas. Todas as rodadas são feitas por meio de plataformas de equity crowdfunding. A Din4mo Ventures lidera a captação, aportando entre 15% e 25% em cada processo.

A holding já nasce com oito startups em seu portfólio, todas investidas pela Din4mo, que captou R$ 6 milhões em recursos via crowd equity

Outros investidores podem participar, em um formato semelhante ao de sites de financiamento coletivo. “O modelo ajuda a democratizar os investimentos”, afirma Gorini.

Ao usar esse tipo de plataforma, a holding também espera diversificar o perfil dos investidores interessados em apoiar negócios de impacto. “Há uma questão geracional. A juventude que está se empoderando do ponto de vista econômico é muito conectada a causas”, diz Gorini.

A Anga&Din4mo vai olhar para startups que desenvolvem soluções alinhadas principalmente a quatro dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) da ONU: redução das desigualdades; saúde e bem-estar; educação de qualidade; e cidades e comunidades sustentáveis.

O portfólio atual da Din4mo ilustra um pouco dessa tese. Entre as startups investidas estão a Programa Vivenda, que oferece reformas de baixo custo, e a Simbiose Social, especialista em leis de incentivo, que conecta empresas, proponentes e governo para potencializar transformações sociais.

A atuação da holding foi estruturada em quatro etapas e mostra que o investimento financeiro não é, necessariamente, porta de entrada para a atuação com as startups. “Elas foram pensadas de forma a oferecer um apoio multidisciplinar em toda a jornada de desenvolvimento”, afirma Gorini.

A primeira vertical vai trabalhar com a formação de lideranças, desenvolvendo competências em futuros empreendedores, muitos deles sem a experiência necessária para tocar uma empresa.

A segunda dá sequência a essa jornada, ao desenvolver modelos que tornem os projetos viáveis, até que a startup esteja apta a receber recursos. A terceira etapa será dedicada justamente aos investimentos. A Din4mo Ventures será responsável por liderar essas operações.

Por fim, há uma quarta fase que vai sistematizar o conhecimento gerado e comunicar esses aprendizados para o mercado. A atuação, aqui, será tanto por meio tanto de publicações quanto de consultoria. “Estruturamos essa ‘esteira’ para que ela funcione de forma muito fluída”, diz Gorini.

Marco Gorini, cofundador da Din4mo e presidente do conselho do Grupo Anga&Din4mo

Ao atuar em todas as etapas do processo de desenvolvimento de uma startup de impacto social, os executivos esperam reduzir os riscos e oferecer maior transparência aos investidores interessados. E, com isso, acelerar o interesse por essas companhias.

“O ecossistema amadureceu muito, de talento a conhecimento”, afirma Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemísia, aceleradora que investe em projetos de impacto social e acompanha o segmento há 10 anos. “Vemos fundos de impacto e investidores ao menos sentando na mesa para começar a conversar”, diz.

O caminho, no entanto, ainda é longo. “Temos muitas discussões pela frente”, afirma Maure. Segundo ela, nem sempre é possível medir a importância de uma startup com foco em redução de desigualdades pelas métricas tradicionais com que o mercado avalia o sucesso das empresas.

Alguns números traduzem os desafios do segmento. De acordo com a segunda edição do Mapa de Negócios de Impacto Social e Ambiental, feito pela Pipe Social em 2019, 43% dessas startups não têm faturamento. Apenas 4% faturam mais de R$ 1 milhão, e 76% são financiadas com recursos dos próprios investidores.

Outra preocupação de quem trabalha no setor há mais tempo é garantir que o interesse por inovação de impacto não seja apenas uma moda. “Muitos estão se aproximando do assunto hoje não apenas porque é importante, mas porque traz visibilidade”, diz Mariana Fonseca, cofundadora da Pipe Social, que conecta negócios com quem investe e fomenta o ecossistema de impacto.

Para ela, esse contexto oferece, no entanto, uma oportunidade de lançar as bases para uma transformação duradoura. Se antes os investimentos no setor eram vistos quase como filantropia, hoje há o entendimento que existe espaço para lucro.

“Temos que aproveitar o momento para desenvolver mecanismos para atrair investimentos e ajudar na escolha das soluções de maior potencial”, diz ela. “Uma vez que esses processos tenham sido aprendidos, eles têm mais chance de perdurar.”

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