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Inovação

O fim “do menos é mais” na Apple

O executivo Jonathan Ive que criou o iMac, iPod, iPhone e iPad junto com Steve Jobs deixa a empresa. Ele era dono de um estilo de design que privilegiava a simplicidade. Sua saída marca a transição da Apple para uma empresa de serviços.

 

Jonathan Ive (à esquerda) e Steve Jobs. Os dois salvaram a Apple da bancarrota ao criar um estilo de design inconfundível

Todas as retrospectivas sobre como a Apple conseguiu sair da beira da falência, em meados dos 1990, colocam como personagem central dessa que é uma das maiores reviravoltas empresariais de todos os tempos Steve Jobs, o genial e polêmico fundador da companhia, morto em 2011.

Mas há um personagem lateral, pouco lembrado, que deveria dividir as glórias com Jobs. Trate-se do britânico Jonathan Ive, o responsável pelo design de todos os produtos que levaram a Apple ao topo do mundo. Do iMac ao iPod, ao iPhone e ao iPad, tudo passou pelas mãos de Ive.

É difícil imaginar se a Apple teria chegado tão longe sem Jobs e Ive, criadores de um estilo de design que ficou conhecido como “menos é mais”. Os dois eram almas gêmeas.

Na quinta-feira, 26 de junho, a Apple anunciou que Ive está deixando a empresa depois de mais de 23 anos liderando a equipe de design da companhia. Ele ficará na empresa até o fim do ano, depois criará sua própria companhia independente de design, a LoveFrom, que prestará serviços à Apple.

“Depois de muitos anos trabalhando juntos, estou feliz que nossa relação continue a evoluir e ansioso para trabalhar com Jony no futuro”, declarou Tim Cook, o CEO que sucedeu a Jobs, em um comunicado.

A saída de Ive da Apple, no entanto, é como se Jobs estivesse morrendo pela segunda vez. É um sinal inequívoco das transformações do modelo de negócio da companhia para o mundo de serviços, como a venda de aplicativos, de conteúdos de entretenimento, de ferramentas financeiras e de outros serviços.

O iMac, lançado em 1998, foi o primeiro produto em que Ive e Jobs trabalharam juntos. Ele salvou a Apple da falência

Quando Jobs voltou à Apple em 1996, Ive já liderava a área de design da companhia. Mas estava prestes a pedir demissão, cansado da obsessão da empresa com a maximização dos lucros, mais do que com o design dos produtos.

Mas Jobs, em uma palestra aos executivos da Apple, afirmou que o objetivo não era apena ganhar dinheiro, mas fabricar grandes produtos. Foi a faísca que Ive precisava para não pedir as contas.

Apesar disso, Jobs foi procurar um executivo de design no mercado, antes de manter Ive no cargo e dar início a uma das mais promissoras parcerias de sua carreira.

O primeiro trabalho conjunto da dupla foi o iMac, lançado em agosto de 1998, por US$ 1.299. Era um computador com um design diferente de tudo o que tinha sido feito até então e chegava ao mercado em várias cores.

Foram vendidas 278 mil unidades do iMac nas seis primeiras semanas. Até o fim daquele ano, as vendas alcançaram 800 mil unidades, o que fez dele o computador de venda mais rápida da história da Apple.

A melhor notícia para Jobs e Ive era que 32% das vendas foram feitas para pessoas que estavam comprando o seu primeiro computador e 12% para consumidores que usavam máquinas com o sistema operacional Windows, da rival Microsoft.

Em seu depoimento ao livro Steve Jobs, de Walter Isaacson, Jobs assim descreve Ive, a quem ele chamava de Jony:

“Se tivesse um parceiro espiritual na Apple, foi Jony. Jony e eu bolamos a maioria dos produtos juntos, e depois chamamos outras pessoas e perguntamos: ‘O que acham disso?’. Ele percebe a ideia geral, assim como os detalhes mais infinitesimais, de cada produto”.

A filosofia do design de Ive foi descrita por ele próprio no livro de Isaacson, lançado pouco antes da morte de Jobs, em 2011, e que contou com o apoio do fundador da Apple.

“Por que acho que o simples é bom? Porque, com produtos físicos, é preciso sentir que os dominamos. Quando se impõe ordem à complexidade, descobre-se um jeito de fazer o produto submeter-se à nossa vontade. Simplicidade não é apenas um estilo visual. Não é apenas minimalismo ou ausência de confusão. Implica explorar as profundezas da complexidade. Para ser verdadeiramente simples, é preciso realmente ir fundo.”

Ive já estava afastado do dia a dia da Apple. Não ia com frequência ao novo quartel-general da companhia, em Palo Alto, no coração do Vale do Silício, na Califórnia.

Ele dividia seu tempo entre os Estados Unidos e o Reino Unido, sua terra natal. No mesmo comunicado de Cook, sobre sua saída da Apple, Ive disse que o time de design hoje “é mais forte, mais vibrante e mais talentoso do que qualquer outro da história da Apple.”

O fato é que a Apple, com sua saída, deixa claro a todos que não é mais uma empresa de hardware e de design. Não se trata de um lamento. Apenas uma constatação, que não afetou o mercado financeiro. As ações da companhia caíram apenas 1% ontem.

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