Os “tiros” de Daido Moriyama, o fotógrafo que fez de sua câmera uma “metralhadora”

O fotógrafo Daido Moriyama, um dos mais importantes artistas do Japão, estreia sua maior exposição na América Latina, no Instituto Moreira Salles, com 250 fotografias de sua profícua trajetória

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Kanagawa, 1967. Da série Um caçador. (©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation)

Todos os dias o fotógrafo japonês Daido Moriyama, de 83 anos, sai para caminhar e fotografar seu bairro, Shinjuku, em Tóquio. “É muito bonito esse jeito dele mostrar que um mesmo lugar pode ser eternamente uma nova fonte de sentido”, explica ao NeoFeed, Thyago Nogueira, curador de “Daido Moriyama: uma retrospectiva”, que abre neste sábado (9), no Instituto Moreira Salles.

Resultado de uma pesquisa que Nogueira começou em 2019, a mostra apresenta cerca de 250 fotografias e dezenas de publicações produzidas desde a década de 1960. É a maior já feita na América Latina.

O tamanho da exposição é tão expressivo quanto a obra de Moriyama, a quem o curador se refere como um dos fotógrafos que mais produziu imagens no mundo. A profícua produção é resultado da ação contínua e repetitiva do fotógrafo, que sai fotografando os locais por onde passa.

A repetição faz parte do processo de Moriyama de pensar a imagem. Nascido na cidade de Ikeda-Cho, em 1938, entre a Primeira e a Segunda Guerra, o fotógrafo cresceu em um momento conturbado do Japão.

O país estava ocupado pelos Estados Unidos e precisava da ajuda financeira de seu inimigo de guerra para se reerguer. “A transformação do Japão é um dos grandes temas da obra dele”, explica Nogueira.

Moriyama mudou-se para Tóquio logo após terminar a faculdade de design, em 1961 – mesma época em que começou a colaborar como fotojornalista para jornais e revistas de grande circulação.

O artista se tornou um dos icônicos fotógrafos da revista Provoke, publicação em que os colaboradores procuravam romper com os dogmas do fotojornalismo profissional, explorando a estética “are, bure, bokeh”, que significa literalmente imagens granuladas, embaçadas e fora de foco. O fotojornalismo, além de escola, era tema de reflexão de Moriyama.

“Ele tentou mostrar que o jornalismo lia imagens de uma maneira estreita, ilustrativa e empobrecedora”, ressalta Nogueira. A fim de mostrar como a abordagem fotojornalística poderia ser diferente, na série “Acidente”, feita para a revista Asahi Câmera, em 1969, o fotógrafo registrou como o assassinato do candidato à presidência dos Estados Unidos, Robert Kennedy, foi noticiado em Shinjuku.

Tóquio, 1969. Da série Acidentes, premeditados ou não. (©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation)

Fez parte também desse ensaio fotos que fez de uma imagem de um cartaz de propaganda sobre prevenção de acidentes de trânsito – ou seja, o registro é a imagem da imagem de um acidente. “Ele propõe maneiras mais complexas e amplas de mostrar um fato que não dependem de estar lá de olho no lance”, afirma o curador.

“Minha câmera é como se fosse uma metralhadora. Eu aperto e saem 200 mil fotos por segundo”, diz o fotógrafo

O ato de fotografar também é uma forma de refletir sobre a produção de imagens. “Minha câmera é como se fosse uma metralhadora. Eu aperto e saem 200 mil fotos por segundo”, diz o fotógrafo. Uma de suas principais referências é o artista americano Andy Warhol.

“Moriyama tem uma grande admiração pelos artistas que enxergaram a nossa sociedade como a da repetição, da cópia, da profusão e do consumo de imagens”, diz Nogueira. Isso fica claro na série “Linda mulher”, de 2017, em que ele expõe as fotografias sobre paredes que já estão forradas de imagens, aplicadas como lambe-lambes. O projeto expositivo, replicado na mostra do IMS, causa um embaralhamento no espectador sobre o que está no primeiro ou no segundo plano.

Seguindo o fluxo

Nos anos 1970, após ler o livro “Pé na estrada”, de Jack Kerouac, Moriyama resolveu experimentar a ideia de uma produção orientada por um fluxo de consciência. Sua estratégia foi colocar a câmera na janela e sair clicando ao percorrer uma estrada. “Fotografava sem parar como se pudesse, com o seu o carro, atravessar a realidade”, analisa Nogueira. A experiência foi editada no livro “Um caçador”, de 1972, que na mostra é exibido com uma projeção audiovisual.

Nesse mesmo ano, Moriyama recolheu todo tipo de negativo e imagens que poderiam ser consideradas um erro na fotografia – como negativos queimados, fotos estouradas, imagens rasgadas que estavam no chão do laboratório – e os entregou a um editor com a seguinte proposta: organize da maneira que você quiser. O resultado é o livro “Adeus, Fotografia!”

Tóquio, 1970. Da série Adeus, fotografia! (©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation)

Ao olhar para todo aquele conjunto, que talvez jamais teria espaço numa publicação, o fotógrafo reflete sobre a falência do indivíduo ao tentar controlar o mundo e dar um sentido profundo por meio da narrativa de imagens. Uma interessante reflexão para o atual momento em que todos vivem tão conectados em seus celulares produzindo e consumindo imagens a todo momento.

“Com esse livro, ele apresenta sua teoria de que, na fotografia, não há nada além de uma superfície bidimensional. E nós temos de lidar com a falência, frustração ou potência dessa conclusão de que uma foto é apenas uma foto”, analisa Nogueira. Tal conclusão deprime Moriyama. “Tentei desmontar a fotografia, mas acabei desmontando a mim mesmo”, afirmou o artista sobre o ensaio.

A retomada

Após a publicação de “Adeus, fotografia”, a produção tão abundante do fotógrafo sofreu um hiato de 10 anos. A retomada do seu contato com as imagens ocorreu a partir da busca por uma essência na fotografia, valorizando elementos básicos como a luz, sombra e o grão de prata.

Seu retorno aconteceu a partir de uma pesquisa estética de fotógrafos clássicos do século XIX. E o objeto para a realização foi uma investigação sobre sua própria vida, voltando a lugares como a sua cidade natal, Ikeda-Cho. “Luz e Sombras” e “Memórias de um cão”, séries publicadas entre 1982 e 1983, de acordo com o curador, investigam não apenas a memória, mas como essas lembranças podem ser fontes de novas imagens.

É a partir desse momento que o fotógrafo vai aprimorar a sua estratégia de caminhar e fotografar seu bairro, buscando personagens, paisagens e memórias dos locais por onde anda. E não apenas em Shinjuku, mas também em Paris, Nova York, Buenos Aires e até São Paulo.

“Não importa se ele está fotografando São Paulo, Marrakech, Paris. Tem um trabalho que une tudo isso numa mesma qualidade visual”, reflete Nogueira. “Tem uma forma de olhar o mundo e de pensar a imagem que aproxima todas essas cidades numa única trama fotográfica.”

Tóquio, c. 1971. (©Daido Moriyama/Daido Moriyama Photo Foundation)

Moriyama sai para suas caminhadas fotográficas levando apenas uma câmera compacta amadora. Para ele, o equipamento é o menos importante. Aliás, segundo o curador, o fotógrafo guarda profunda admiração por fotógrafos amadores, fotografia comercial ou qualquer imagem em que não é possível identificar um autor por trás.

No segundo andar da exposição, onde há uma projeção de fotografias recentes, há algumas imagens, como a dos raios de sol batendo em uma xícara de café sobre uma mesa, que poderiam fazer parte do instagram de qualquer um de nós.

“Para ele, esse é o verdadeiro estilo e a verdadeira essência da fotografia”, afirma Nogueira. “A fotografia precisaria assumir sua condição de equipamento técnico, óptico. A despessoalização seria a grande contribuição da fotografia para pensar a imagem.”

Para alcançar tamanha despretensão estética, Moriyama pratica um ritual diário de andar e fotografar. “Quando eu caminho agora, de câmera na mão, por uma cidade real, estou escutando as memórias dos sonhos de uma cidade que um dia existiu, e também elaborando uma modesta documentação endereçada aos sonhos da cidade que está por vir”, diz o artista.

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