Sandra Mazzini e a arte de criar vertigens (e fila de espera por suas telas)

Com lista de espera por sua obra, a artista de 32 anos está em cartaz com a individual “Vertigo”, no Farol Santander, com pinturas de diversos anos da carreira e uma instalação específica para a mostra

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A artista Sandra Mazzini: lista de espera de três anos por suas obras

No filme “Vertigo” (traduzido como “Um corpo que cai” no Brasil), o cineasta Alfred Hitchcock conta a história do detetive John “Scottie” Ferguson (James Stewart) que tem medo de altura. Se Scottie viesse ao Brasil, é provável que evitasse subir até o 22o andar do Edifício Altino Arantes para visitar a exposição homônima do filme americano, “Vertigo”, de Sandra Mazzini.

Os trabalhos apresentados pela artista no Farol Santander não tem nenhuma aparente relação com a obra de Hitchcock. A primeira impressão que puxa o visitante para as telas é o colorido vibrante. Mas, ao olhar com um pouco mais de atenção, as paisagens criadas por Mazzini provocam vertigem no espectador mesmo estando com os pés bem fincados no chão.

De acordo com a curadora Denise Mattar no texto de apresentação da exposição, em seu trabalho a artista “constrói e reconstrói, processa e reprocessa, fazendo surgir uma miríade de pequenas representações que se refletem umas nas outras, num jogo ótico. O resultado é uma imagem caleidoscópica, é pintura transformada em uma experiência – um convite à contemplação e à vertigem”.

Mattar teve o cuidado de selecionar obras de diferentes anos da produção de Mazzini, mas que apresentam uma coerência do trabalho da artista. A criação de Mazzini envolve do digital ao mais artesanal dos processos. Ela cria suas paisagens primeiro artificialmente, no photoshop – e o arquivo digital tem tantas camadas quanto suas pinturas a óleo.

Para a passagem da imagem do computador à tela, usa um esquema tradicional de ampliação de imagem: a malha quadriculada. É neste momento que o trabalho da artista começa a ganhar complexidade.

Mazzini não esconde a sua malha. Ela esgarça a técnica ao máximo na tela apresentando as linhas ora de forma bem evidente e em alguns momentos de forma sutil. Aproveita-se de cada quadradinho pintando cada parte da sua paisagem individualmente com uma luz própria. A união dessas partes é o que cria a paisagem caleidoscópica, ressaltada pela curadora.

No clássico texto “Grids”, publicado em 1979 na revista “October”, a crítica e historiadora de arte americana Rosalind Krauss comenta o histórico uso da malha pelos artistas. Leonardo Da Vinci, por exemplo, usava a retícula quadriculada para criar uma perspectiva e simular o mundo real.

“A perspectiva era uma demonstração da maneira como a realidade e sua representação podiam ser mapeadas uma na outra da mesma maneira que a pintura e seu referente no mundo real de fato se relacionavam – o primeiro sendo uma forma de conhecimento do segundo”, escreve.

Assim como os renascentistas, as paisagens reais servem como uma primeira inspiração para Mazzini, mas ela não se contenta com sua mera reprodução. A grade é estratégia para ficcionalizar. A paisagem pixelada, como as imagens virtuais em baixa definição, ganha alta definição em cada “pixel”.

É esse excesso de detalhe em cada mínima parte do trabalho que dá ao espectador uma espécie de tontura ao tentar capturar o trabalho como um todo. Nesse jogo de sedução, caso o visitante se sinta tão encantado pelo trabalho ao ponto de querer entrar, pode ter essa experiência na mostra. Pela primeira vez, a artista produziu um site specific.

A exposição Vertigo, no Farol Santander

Cuidadosamente, compilou uma série de fragmentos de trabalhos, recriando uma paisagem em perspectiva concêntrica, por meio da qual é possível caminhar e sentir que se está entrando na obra. Esta também foi uma forma que Mazzini encontrou para trazer, ao menos em partes, os trabalhos que não estão presentes na exposição para o espaço.

Desde a primeira linha

A artista, de 32 anos, é formada no Instituto de Artes da Unesp. Em 2014, quando era estudante de artes visuais e usava o ateliê da universidade para pintar, conheceu a galerista Janaína Torres. “Essa menina pinta muito”, pensou Torres logo que viu as pinturas, recorda em entrevista ao NeoFeed.

“Ela fazia umas nadadoras em uma piscina, uns retratos. Eu já achava aquilo muito bom. Mas entendia que ela ainda estava no processo para descobrir o caminho dela.” Nessa época, Torres tinha um escritório de arte e estudava um plano de ação para abrir a sua galeria.

Em 2016, ano de inauguração da galeria Janaína Torres, fazia apenas um ano que Mazzini tinha se formado. Torres não teve dúvidas em chamar a jovem para ser uma das artistas representadas. No ano seguinte, Mazzini fez sua primeira individual na galeria e no circuito comercial de arte – “Como os rios correm para o mar”.

“Foi um sucesso. Em uma semana eu vendi a exposição inteira e para coleções particulares importantes”, lembra. Os trabalhos de Mazzini fazem parte de acervos como dos colecionadores Sofia e Sérgio Fadel, do Rio de Janeiro.

Mesmo com a alta demanda por trabalhos da artista, Torres conta que teve o cuidado de não inflacionar os preços e seguir o projeto de carreira traçado. “Vai contra a minha política colocar um preço muito alto no trabalho de uma artista tão jovem, pois pode deixá-la estagnada e com dificuldade de crescer. Tomamos o cuidado de ser gradativos na valorização das obras e coerentes com o currículo institucional, que a artista vem desenvolvendo”, explica.

Em 2019, aos 29 anos, Mazzini fez sua primeira individual em uma instituição pública: “Paisagens expandidas”, no Museu Nacional da República – Honestino Guimarães, em Brasília. Idade um tanto precoce.

Para que se tenha uma ideia, Adriana Varejão realizou sua primeira individual em uma instituição pública brasileira em 2001, aos 37 anos – curiosamente, também em Brasília, com “Azulejões”, no Centro Cultural Banco do Brasil.

Para a mostra “Paisagens expandidas”, a galerista negociou o espaço com Charles Cosac, diretor do Museu Nacional na época, e convidou Denise Mattar para assinar a curadoria. “Foi uma ação muito proativa da galeria para realizar essa exposição”, diz. Esse movimento foi importante para que acontecesse esta segunda mostra em cartaz atualmente.

Mattar tinha sido procurada pelo Farol Santander para fazer uma exposição de um jovem artista na instituição e logo pensou no trabalho de Mazzini para ocupar o espaço. Para a pintora, fazer uma exposição no icônico prédio paulistano tem um gostinho especial. “É a primeira vez que faço uma exposição institucional aqui em São Paulo, onde nasci”, explica.

“Na adolescência, eu estudei em um colégio na Liberdade. Lembro de ficar sentada na Praça Antônio Prado depois da aula. Quando saí do prédio, dei de cara com a praça.”
Em agosto, Mazzini fará sua segunda exposição individual na galeria Janaína Torres. Na mostra, ela apresentará telas inéditas, e todas já têm possíveis compradores.

O efeito é uma demanda represada por suas pinturas. Para realizar a exposição, a galerista passou o último ano sem vender nenhum trabalho da artista para que Mazzini pudesse produzir para exposição. “Tem pessoas esperando por uma obra da Sandra há três anos”, diz.

A artista leva cerca de três meses para produzir uma tela. Além de ser um trabalho extremamente rigoroso e detalhista, Mazzini é resistente à ideia de ter um assistente. “Eu não consigo pensar em nenhuma fase que seja menos importante”, enfatiza.

“Desde preparar a tela – se eu quero que seja mais lisa ou mais áspera – até comprar material. Tem tanta coisa que eu uso hoje em dia que descobri olhando a loja.”

Sem pressa, quadradinho por quadradinho, Mazzini vai construindo sua obra e sua carreira. O próximo passo é a entrada do trabalho no acervo de uma instituição pública importante – o que levará a produção da artista a um outro patamar.

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