Sete jovens artistas presentes no Panorama de Arte Brasileira que você precisa conhecer

Sob o título “Sob as cinzas, brasa”, 37ª edição da mostra bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo apresenta trabalhos que dialogam com a ancestralidade e a revisão do passado numa ponte para o futuro

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Em série de lambe lambe, Laryssa Machada trabalha a estética afro futurista (Foto: Karina Sergio Gomes)

Este é o ano das efemérides: centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e bicentenário da Independência. Ancorada nas comemorações e reflexões que as datas suscitam, a 37a. edição do Panorama da Arte Brasileira, exposição bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo que abre neste sábado (23), traz como tema: “Sob as cinzas, brasa”.

O grupo curatorial, formado pelo curador-chefe do museu, Cauê Alves, e os curadores Claudinei Roberto da Silva, Cristiana Tejo e Vanessa Davidson, acreditam que essa é uma oportunidade de rever mitos e fatos do passado, levantando novas discussões – como a brasa que, quando atiçada, pode continuar gerando luz e calor, ou mesmo as cinzas, que podem ser reflexos da destruição das queimadas, mas também servem de adubo.

A exposição apresenta trabalhos de 26 artistas e coletivos de diferentes regiões do Brasil. Um detalhe que se destaca entre os selecionados é a porcentagem de jovens. Cerca de 40% dos artistas têm 40 anos ou menos. “O Panorama, além de ser uma das exposições mais importantes do Brasil, caracteriza-se como uma plataforma de reconhecimento institucional e de divulgação de artistas”, diz Cauê Alves ao NeoFeed. “A mostra tem esse papel de dar visibilidade à obra de quem está despontando para um público amplo.”

O Panorama surgiu em 1969, como uma forma de o MAM se reerguer depois que o seu fundador, o empresário Ciccillo Matarazzo, retirou sua coleção do museu e a doou para a Universidade de São Paulo, com a qual fundaria o Museu de Arte Contemporânea.

A principal característica da mostra era mapear a produção nacional, apresentá-la e adquirir alguns novos trabalhos para a construção de seu novo acervo. Até 1993, a exposição era realizada todos os anos, depois se tornou bienal. Devido à pandemia de Covid-19, a atual edição, que deveria ter acontecido em 2021, atrasou um ano.

Segundo Alves, o recorte curatorial desta 37a edição destaca o interesse dos artistas – principalmente dos mais jovens – por pesquisas relacionadas à ancestralidade. “Em vez de uma mostra utópica, olhando para o futuro ou como o futuro será, os trabalhos propõem uma visão de futuro com retorno a um estado ancestral”, afirma. Conheça os sete artistas mais jovens que têm trabalhos presentes no Panorama:

O artista Davi de Jesus do Nascimento explora sua origem familiar em sua obra (Foto: Karina Sérgio Gomes)

Davi de Jesus do Nascimento (Pirapora, MG, 1997 – vive em Pirapora)
Trabalha com pintura, desenho e escultura. Sua pesquisa tem origem na história da sua família e da cultura ribeirinha do rio São Francisco, onde nasceu. O artista costuma dizer que sua investigação começa sempre do curso do rio. A instalação, apresentada na sala Paulo Figueiredo, parte de uma coleção de fotos de família, desenhos de carrancas – elemento muito presente nas embarcações – e registros de performances que o artista faz na beira do São Francisco.

Laryssa Machada (Porto Alegre, RS, 1993 – vive em Salvador, BA)
Trabalhando principalmente com fotografia e vídeo, a artista propõe novas narrativas para a construção da imagem de pessoas LGBTQIA+, em situação de rua e indígenas. A proposta de Machada é a “desinvenção do brazil”. No vídeo “note que sua intenção não é entregar os mapas”, discute a vulnerabilidade das imagens e da valorização do que está visível apenas na superfície dos fatos. A artista apresenta ainda uma série de fotografias em lambe-lambe, com a qual trabalha a estética afro futurista.

Sol e montanha I e II (2021), de Tadáskía (Foto:Guilherme Sorbello)

Tadáskía (Rio de Janeiro, RJ, 1993 – vive entre o Rio de Janeiro e São Paulo)
O desenho é o principal meio de expressão de Tadáskía. Com referências tropicalistas e da cultura africana, a artista faz desenhos abstratos em grandes e pequenas escalas – como a superfície da casca de ovo. Os trabalhos presentes na mostra exploram colorido ritmado como um gráfico de uma dança, que acenam aos desenhos feitos pela bailarina americana Trisha Brown.

Detalhe de uma das pinturas da série série “Encontros Políticos”, de No Martins (Foto: Karina Sergio Gomes)

No Martins (São Paulo, SP, 1987– vive em São Paulo)
Artista multidisciplinar, trabalha com pintura, instalação e performances. Sua investigação reflete principalmente o cotidiano da população negra, discutindo conflitos sociais e o racismo. Para o Panorama, traz a série “Encontros Políticos”, uma série de pinturas de pessoas negras na praia. O trabalho, apresentado no corredor do museu, propõe que o espectador se relacione com as cenas bem de perto. Em algumas pinturas, Martins deixa mensagens – como na camiseta de um homem com a data: “1888?”, ano da assinatura da Lei Áurea, que libertaria os negros da condição de escravos.

O artista Xadalu Tupã Jekupé resgata a cultura guarani em seus trabalhos ( Foto: Karina Sergio Gomes)

Xadalu Tupã Jekupé (Alegrete, RS, 1985 – vive em Porto Alegre)
De origem guarani, o artista usa serigrafia, pintura, fotografia e objetos para abordar o tensionamento entre a cultura indígena e ocidental nas cidades. Seu trabalho é uma luta contra o apagamento da cultura de seus antepassados no Rio Grande do Sul. No Panorama, apresenta uma série de pinturas de cores vibrantes e linhas bem marcadas, em uma estética pop, que apresenta a cultura, a história e as lendas dos guaranis.

Instalação “Árvore Nacional”, de Jaime Lauriano (Foto: Karina Sergio Gomes)

Jaime Lauriano (São Paulo, SP, 1985 – vive entre São Paulo e Porto, Portugal)
A pesquisa do artista propõe reflexão e reelaboração das estruturas de poder contidas na produção da história oficial. A instalação “Árvore Nacional” faz uma intervenção no jardim das esculturas do MAM, com 27 vasos com mudas de Pau Brasil, formando o desenho das estrelas da bandeira nacional. Com o trabalho, o artista discute o conceito de patrimônio em “um país marcado por violências e violações constantes, seja a terra seja aos corpos de seus habitantes”, escreve.

Esculturas de Luiz 83 trazem referência da iconografia do picho (Foto: Conrado Thunas Corrêa)

Luiz 83 (São Paulo, SP, 1983 – vive em São Paulo)
Luiz dos Santos Menezes, conhecido como Luiz 83, é autodidata. Sua formação artística parte da experiência adquirida nas ruas como “pichador”. Na mostra, apresenta uma série de esculturas que partem da iconografia das palavras pichadas. As esculturas são feitas em fibra de vidro, como das carrocerias de carro, e pintadas com tintas automotivas, reforçando o caráter urbano de seu trabalho. O artista, no entanto, eleva suas esculturas em uma base, dando o status de arte para a iconografia urbana expressa nos prédios, muros e pontes, sempre questionada – pichação seria arte ou não?

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