Ao longo de três mandatos como presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva se acostumou a fazer viagens internacionais mundo afora para fechar acordos e ampliar a pauta comercial do Brasil com países aliados.

Em tese, o objetivo do giro presidencial de oito dias pela Ásia, para onde Lula embarcou na terça-feira, 17 de fevereiro, com destino à Índia e à Coreia do Sul, não é diferente de viagens anteriores.

O que muda é a mensagem que o líder brasileiro vai passar para Estados Unidos e China, as duas maiores potências comerciais do planeta, antagônicas entre si e diretamente interessadas nos temas principais que Lula vai tratar na primeira escala, a Índia: inteligência artificial e terras raras.

Com o mundo mergulhado na era Trump, com multilateralismo em baixa e protecionismo dos EUA em alta, marcado pela crescente pressão da Casa Branca a países aliados para minar a posição da China como a maior nação comercial do planeta – responsável por cerca de 16% do total das exportações mundiais, a viagem do presidente brasileiro está recheada de armadilhas.

Lula terá de recorrer à sua conhecida habilidade política para se equilibrar nessa nova ordem mundial. De um lado, é essencial manter proximidade com o presidente dos Estados Unidos sem desprezar a China e, de quebra, fazer o que dele se espera – fechar negócios com os demais países. No caso da escala na Coreia do Sul, a meta é ampliar a pauta de exportações do agronegócio.

De outro, Lula deve aproveitar o encontro com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para reforçar a união do chamado Sul Global de países emergentes, mantendo prudente distância e independência das duas potências comerciais.

O peso dessa viagem pode ser comprovado pelo tamanho da comitiva presidencial, com ao menos 10 ministros e 315 empresários, e a expectativa de Lula avançar, em especial, nos dois temas mais delicados que serão tratados na Índia.

Em Nova Delhi, o presidente vai participar na quinta-feira, 19 de fevereiro, da abertura da Cúpula Impacto da Inteligência Artificial, com participação de líderes de mais de 20 países – incluindo o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez –, promovida por Modi. Além de políticos, participam também CEOs de big techs, como Google, Nvida, OpenAI, entre outras.

O AI Impact Summit, encontro anual de tom informal que discute aspectos diversos do desenvolvimento da tecnologia – ou seja, não aprova deliberações compulsórias –, já foi realizado no Reino Unido (2023), na Coreia do Sul (2024), na França (2025).

A declaração final deve lançar uma carta para difusão democrática da IA, a rede internacional de IA para instituições científicas e um guia para avanço da infraestrutura resiliente da IA, entre outras propostas. O Brasil e Japão copresidem o grupo de trabalho sobre IA “segura e confiável”, um dos enfoques da cúpula e um tema caro ao presidente brasileiro.

Lula deve defender a mesma pauta de demandas às big techs desde o início de seu governo, que inclui medidas de contenção aos abusos de discriminação, manipulação de informações, fotografias e vídeos, as deep fakes, que agora ganham uma atenção especial do presidente brasileiro por causa da campanha presidencial.

Como o tema também tende a fazer parte da pauta bilateral entre Lula e Trump, que devem se reunir na Casa Branca na segunda quinzena de março, o governo americano e os líderes das big techs devem acompanhar com atenção o discurso de Lula. O desafio do presidente brasileiro é marcar posição sobre o tema sem deixar brecha para contaminar a reunião na Casa Branca.

Terras raras

A segunda etapa da escala presidencial na capital indiana prevê um encontro de Lula com o premiê Modi no qual devem ser assinados vários acordos comerciais. Mas o foco maior dos dois países é fechar uma parceria para ampliar a capacidade de processamento de minerais críticos e terras raras.

O tema é de extrema sensibilidade, pois envolve a disputa entre EUA e China para assegurar fornecimento desses minerais estratégicos, essenciais para tecnologias voltadas à transição energética, dos quais tanto Brasil quanto Índia estão entre os países com as maiores reservas.

A China, que detém cerca de 70% das reservas mundiais e em torno de 90% da capacidade de processamento, tem usado esses recursos como arma geopolítica contra a política tarifária dos Estados Unidos, cuja indústria de alta tecnologia depende desses minerais críticos no desenvolvimento de IA e supercondutores.

Na semana passada, um enviado do governo americano a Brasília, o secretário adjunto do Departamento de Assuntos Econômicos, Energéticos e Comerciais, Caleb Orr, afirmou que os EUA estão dispostos a criar uma parceria entre os dois países que incluiria o processamento desses minerais tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

A iniciativa faz parte de uma estratégia da Casa Branca de atrair países aliados para um novo bloco comercial com o objetivo de estabelecer preços mínimos de minerais estratégicos e, com isso, neutralizar a supremacia chinesa nessa área.

O governo brasileiro, porém, estabeleceu três condições centrais para aceitar a parceria com os EUA. Primeiro, o Brasil quer priorizar o uso interno desses minerais — como terras raras e lítio — garantindo que apenas o excedente seja exportado.

Segundo, exige negociar o grau de processamento que será realizado no País, defendendo que o Brasil não fique restrito às etapas mais básicas da cadeia produtiva. Por fim, o governo deixou claro que não aceitará acordos de exclusividade, preservando o direito de comercializar com qualquer país, inclusive a China, evitando alinhamentos que limitem sua autonomia estratégica.

O acordo que Lula vai assinar com Modi sobre o tema contempla a maioria das exigências feitas pelo governo brasileiro à Casa Branca. Denominado Memorando de Entendimentos Sobre Minerais Críticos e Terras Raras, o documento não estabelece planos, prazos e investimentos específicos, mas prevê investimentos concretos no futuro, envolvendo empresas públicas ou privadas, incluindo a exportação brasileira de minerais estratégicos e a possibilidade de os dois países desenvolverem uma parceria de processamento.

Em 2023, a Índia estabeleceu uma lista de 30 minerais críticos essenciais, segundo a demanda do país em setores como defesa, agricultura, energia, farmacêutico, telecomunicações, entre outros. O governo indiano já fechou acordos nesse setor com ao menos oito países ricos em minerais, envolvendo trocas de tecnologia e abertura de espaço para a indústria indiana.

A empresa indiana Altmin, por exemplo, deve anunciar um investimento de cerca de R$ 220 milhões na Companhia Brasileira de Lítio para a exploração de lítio, um mineral crítico essencial para a transição energética.

Além de evitar melindrar Trump e o governo chinês nos temas IA e metais estratégicos, Lula deve aproveitar o giro para fechar negócios para empresas brasileiras e ampliar a balança comercial.

Na pauta com Modi, está prevista uma discussão sobre a concorrência bilionária da Força Aérea da Índia para compra de até 80 aeronaves médias de transporte, para renovar sua frota. A Embraer se associou à empresa local Mahindra para a disputa, que tem ainda a Airbus e a Kawasaki como potenciais concorrentes.

Após a etapa indiana, Lula segue depois para a Coreia do Sul, onde terá reuniões com o presidente Lee Jae-myung e participará do Fórum Empresarial Brasil-Coreia.

O governo brasileiro pretende aproveitar a visita para abrir novas frentes de cooperação, mas o foco maior é na abertura de mercados agropecuários, especialmente para carnes bovina e suína, além de produtos de maior valor agregado.