Os mercados de petróleo reagiram na segunda-feira, 2 de março, com forte alta na cotação do barril após o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, no final de semana, e a resposta agressiva iraniana - atacando países árabes produtores de petróleo do Golfo Pérsico -, impulsionando os temores de uma crise de fornecimento no médio prazo.

Essa percepção ficou ainda mais clara depois de Donald Trump mudar o discurso, de um tom ufanista no fim de semana - como se a queda do regime iraniano fosse uma questão de dias - para outro, mais cuidadoso, na segunda, 2, quando admitiu que a campanha militar poderia durar “de quatro a cinco semanas”. Para analistas, o presidente americano simplesmente reconheceu não ter um plano claro para o desfecho da crise.

O petróleo Brent subiu até 13% no primeiro dia de negociações após os ataques ao Irã, atingindo US$ 82,37 o barril, antes de recuar e fechar em torno de US$ 77 o barril, com alta de 7% em Londres.

Os preços do ouro subiram 1,6%, para US$ 5.362 a onça troy, com investidores buscando ativos de refúgio. O dólar valorizou-se 0,4% em relação a uma cesta de moedas de seus principais parceiros comerciais. As bolsas asiáticas recuaram na segunda-feira, com o índice Topix do Japão e o Hang Seng de Hong Kong caindo 1,5% e 1,4%, respectivamente.

A elevação da cotação do barril já era esperada e não chegava a preocupar a Casa Branca, tendo em vista o excesso de oferta de petróleo, de 2 a 3 milhões de barris por dia, no mercado internacional – quase o triplo da demanda, segundo cálculos da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

Durante o período da intervenção militar dos EUA no Iraque, entre 2003 e 2011, o preço médio do petróleo bruto foi de aproximadamente US$ 72 por barril. Ajustando para valores atuais, isso equivale a mais de US$ 100 por barril – bem acima da cotação atual.

A expectativa do governo americano era uma repetição do cenário da guerra de 12 dias entre Israel e Irã, em junho de 2025, no qual os preços do Brent chegaram a ultrapassar brevemente os US$ 80, antes de retornarem aos níveis pré-guerra em duas semanas.

O erro pode ter sido de comparar um conflito extremamente curto, com objetivos limitados, como o do ano passado, com a ofensiva atual, de final ainda aberto e incerto.

Nesse sentido, a rápida escalada do conflito no domingo, depois que os bombardeios americanos e israelenses mataram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, e 49 líderes militares, incluindo boa parte da cúpula da Guarda Revolucionária - o braço armado do regime -, causou uma reviravolta na expectativa da Casa Branca.

Além de atacar alvos israelenses, o Irã disparou mísseis direcionados a vários países árabes que produzem petróleo, internacionalizando o conflito.

A atividade no Estreito de Ormuz, a estreita passagem marítima na entrada do Golfo Pérsico, que margeia a costa iraniana e por onde flui um quinto do petróleo e gás do mundo, praticamente parou após os ataques – mesmo porque as seguradoras se recusaram a negociar apólices para navios-tanques que tentem navegar pelo estreito.

“O choque imediato nos preços não é a principal ameaça para a Casa Branca alcançar um Irã livre de armas nucleares e do regime dos aiatolás”, afirma Landon Derentz, do Atlantic Council, um dos principais think tanks de relações internacionais dos EUA. “Em vez disso, são a duração e a escala desse choque.”

Segundo ele, os mercados podem tolerar um pico, mas não uma incerteza prolongada sobre os fluxos comerciais através do Estreito de Ormuz. Na prática, o fechamento do Estreito ameaça impedir que 15 milhões de barris por dia de petróleo bruto — cerca de 30% do comércio global de petróleo bruto transportado por via marítima — cheguem aos mercados.

Mesmo que infraestruturas alternativas sejam utilizadas para contornar os fluxos do estreito, o impacto seria uma perda de 8 a 10 milhões de barris por dia no fornecimento de petróleo bruto, de acordo com a consultoria Rystad Energy.

A onda de ataques também levou à paralisação de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A Aramco, da Arábia Saudita, fechou sua maior refinaria de petróleo no país na segunda-feira, após ser alvo de drones iranianos. A Qatar Energy, uma das maiores produtoras de gás natural do mundo, interrompeu a produção de GNL (Gás Natural Liquefeito), fazendo com que os preços do gás na Europa disparassem.

William Jackson, economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics, em nota aos clientes, expôs o que está em jogo. Segundo ele, como regra geral, um aumento de 5% nos preços do petróleo em relação ao ano anterior costuma adicionar cerca de 0,1 ponto percentual à inflação média nas principais economias.

"Portanto, uma alta do Brent para US$ 100 por barril poderia adicionar de 0,6 a 0,7 ponto percentual à inflação global", disse Jackson.

Efeito inverso

A possibilidade de o conflito no Oriente Médio causar elevação de preços nos Estados Unidos seria um indício mais forte de que a operação militar no Irã pode se transformar num gigantesco fiasco para a Casa Branca, ofuscando o possível ganho político com a morte de Khamenei.

Na semana passada, Trump viu sua popularidade atingir o nível mais baixo – 50% dos americanos desaprovam seu governo. Nesse sentido, o ataque era uma forma de recuperar popularidade visando as eleições de meio de mandato, no segundo semestre.

Durante o discurso do Estado da União, na terça, 24 de fevereiro, Trump fez breves menções sobre o Irã, mas não mencionou mudança de regime. Ele também disse que preferiria resolver as questões da suposta ameaça militar do Irã por meio da diplomacia.

A esperança de Trump pode ser que, como na Venezuela em janeiro, os EUA consigam decapitar o regime e fechar um acordo com seus aliados. Esse cenário, porém, dificilmente se repetirá no Irã. A nomeação de Ali Larijani, um dos principais auxiliares de Khamenei, como líder interino é vista como um recado que a repressão interna tende a aumentar, o que poderia levar o regime a descambar para uma radicalização ainda maior.

Larijani chefia o Conselho Supremo de Segurança Nacional e fez carreira política na Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), braço militar que controla todos os setores da economia iraniana. Além disso, não há liderança de oposição conhecida dentro ou fora do Irã que possa ser impulsionada por Trump.

Ao afirmar nesta segunda que a campanha militar no Irã não só poderia durar “de quatro a cinco semanas” como os EUA teriam capacidade “para prolongá-la por muito mais tempo”, o presidente americano acabou despertando pesadelo de uma possível intervenção militar americana de longo prazo. Isso significaria ir além dos bombardeios aéreos, ou seja, com envio de soldados, algo que o próprio Trump sempre descartou.

Embora as intervenções no Afeganistão, em 2001, e no Iraque, dois anos depois, tenham recebido apoio de 90% e 70% da população americana na época, o número de baixas americanas nos dois conflitos deixou uma dura lição. Uma pesquisa da YouGov divulgada na semana passada – antes da ação militar do final de semana – mostrou que apenas 27% dos americanos apoiam o uso da força militar contra o Irã.

Desde o domingo, 1, choveram críticas da oposição democrata e de analistas à falta de um plano claro delineado por Trump sobre como endereçar a crise no Irã, em meio a temores de os EUA serem sugados para um conflito duradouro.

"Uma das coisas que certamente aprendemos com tudo, desde a guerra da Coreia até a Guerra Fria, passando pelo Vietnã e certamente no Iraque e no Afeganistão, é que não basta começar uma guerra, é preciso ter um plano para acabar com ela", disse Steven Cash, ex-oficial de operações da CIA e agora chefe do Estado Estacionário – uma organização de ex-oficiais de segurança nacional dos EUA.

Sem planos claros de como derrubar o regime xiita nem como conduzir uma possível transição no Irã, Trump precisa por enquanto se preocupar com os efeitos econômicos negativos no mercado de petróleo, conforme adverte Landon Derentz, do Atlantic Council.

Segundo ele, para garantir o tempo necessário para neutralizar o regime dos aiatolás e seu programa nuclear, o fluxo marítimo precisa ser retomado. Caso contrário, a crescente pressão sobre os preços poderá forçar um fim prematuro do conflito antes que seu objetivo principal seja alcançado.

“O sucesso militar exige tempo, o tempo exige estabilidade econômica e a estabilidade econômica exige o fluxo de energia”, afirma Derentz. “A segurança energética e o desmantelamento do regime e do programa nuclear iraniano não são, portanto, objetivos concorrentes, mas interdependentes.”