O ano de 2026 começou com a estratégia protecionista no comércio global introduzida em 2025 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sendo replicada desde quinta-feira, 1° de janeiro, por dois países – México e China – que antes a haviam criticado duramente.
As restrições às importações anunciadas pelos governos mexicano e chinês, sob a mesma alegação de Trump de que precisam proteger a indústria nacional, têm alcance diferente em termos de produtos e de nações atingidas pela sobretaxação.
Mesmo assim, o tarifaço anunciado pelos dois países afeta diretamente o Brasil. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 15% das exportações de vários produtos do País ao México podem ser afetadas pelas novas tarifas, com alíquotas de 5% a 55%.
Em relação às restrições chinesas – limitadas à importação de carne bovina -, o impacto é estimado em até US$ 3 bilhões (ou cerca de R$ 16,5 bilhões) em receitas para o País em 2026, segundo estimativa da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) e da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).
Daniela Poli Vlavianos, do escritório Arman Advocacia e especialista em comércio internacional, as iniciativas dos governos mexicano e chinês revelam uma contradição jurídica e política evidente no sistema multilateral de comércio.
“A questão central é que a retórica crítica ao protecionismo dos Estados Unidos não se sustenta quando os próprios críticos passam a adotar políticas de mesma natureza, apenas sob outra justificativa geopolítica ou conjuntural”, diz Vlavianos ao NeoFeed.
“Do ponto de vista jurídico-institucional, essa prática fragiliza o sistema multilateral de comércio, incentiva retaliações cruzadas e enfraquece a segurança jurídica nas relações internacionais, pois transmite a mensagem de que as regras são relativizadas conforme a conveniência do momento”, acrescenta.
A decisão da China de adotar salvaguarda contra a importação de carne bovina de diversos países, anunciada na virada do ano, foi justificada como uma forma de proteger a indústria nacional.
Após investigação sobre mercados de carne bovina fresca, congelada, com e sem osso, o governo concluiu que os preços têm apresentado tendência de queda nos últimos anos, com excesso de oferta e falta de demanda.
O meio escolhido de sobretaxar os países exportadores foi determinar cota de importação por país pelo período de três anos, até 31 de dezembro de 2028. Além do Brasil, a medida atinge outros países, como EUA, Argentina, Uruguai e Austrália. Até um determinado volume, a tarifa original de 12% segue valendo. Os volumes excedentes dessa cota terão sobretaxa de 55%.
No caso do Brasil, a cota será de 1,106 milhão de toneladas em 2026. Como as importações chinesas de carne bovina brasileira devem chegar a 1,7 milhão de toneladas este ano, quase 600 mil toneladas das exportações estariam sujeitas à tarifa extra de 67% (os 12% iniciais mais os 55% de sobretaxa) a partir de julho, quando devem terminar os embarques que preenchem a cota inicial de exportação brasileira sem sobretaxa.
A China responde por 52% das vendas externas do setor brasileiro de carne. O Brasil, por sua vez, é a principal fonte de importações do produto no mercado chinês.
Impacto
As ações dos frigoríficos lideraram as baixas na bolsa brasileira na sexta-feira, 2 de janeiro, no primeiro pregão depois de a China estabelecer limites para as importações de carne bovina. As ações da Minerva chegaram a cair mais de 6% no meio da tarde, enquanto as da MBRF perdiam 5%. Os papéis da JBS também regitraram queda na NYSE, bolsa dos Estados Unidos, com baixa de quase 2%.
Segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos, a receita do setor com exportações à China deve alcançar aproximadamente US$ 9 bilhões em 2025 (falta compilar os dados de dezembro). "Os efeitos podem se estender por toda a cadeia produtiva, com reflexos sobre geração de renda, emprego e investimentos no campo", diz a entidade em nota.
Em nota conjunta, a Abiec e a CNA alegam que a adoção de medidas de salvaguarda pelo governo chinês à importação de carne bovina "impõe necessidade de reorganização dos fluxos de produção e de exportação”.
O governo brasileiro diz que tem agido de forma coordenada com o setor privado. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) afirma que vai seguir atuando junto ao governo chinês tanto em nível bilateral quanto no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), com vistas a mitigar o impacto da medida e defender os interesses legítimos dos trabalhadores e produtores do setor.
O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, por sua vez, assegura que o governo brasileiro pretende negociar com o país asiático para conseguir seguir exportando carne bovina à China sem a nova tarifa de 55%. Entre as opções colocadas na mesa, uma possibilidade é o Brasil assumir as cotas de carne bovina de países que não exportem produto à China ou não cumpram o total possibilitado.
"Vamos propor ao governo chinês, pela boa relação que temos, que se algum país não for cumprir a sua cota, que transfira ao Brasil, que está pronto para cumprir e garantir a chegada ao país asiático de carnes com qualidade, preços competitivos e sem tarifas excedentes", afirmou Fávaro, citando os EUA como exemplo de país que não atingiiu sua cota mínima de exportação do produto aos chineses.
A sobretaxa ocorre num momento em que a produção mundial de carne bovina tem expectativa de redução de 400 mil toneladas em 2026 – o que pode ajudar o Brasil a buscar outros parceiros para absorver o excedente da cota estipulada pela China, embora seja uma tarefa considerada difícil.
A expectativa é que o mercado futuro de carne bovina na B3 abra o pregão da próxima segunda-feira, 5 de janeiro, em baixa.
Tarifaço mexicano
Já o pacote de tarifas mexicano foi decidido no mês passado, quando o Congresso Nacional do país aprovou o Programa de Proteção das Indústrias Estratégicas, incluído no Orçamento federal de 2026.
Oficialmente, o objetivo do governo mexicano é proteger 325 mil empregos ameaçados em 19 setores industriais estratégicos, substituir importações e reduzir o crescente déficit comercial do México com os países-alvo, especialmente a China.
Os aumentos tarifários atingem 1.463 itens de produtos importados de países com os quais a nação latino-americana não possui acordo comercial, incluindo China, Rússia, Coreia do Sul, Índia, Vietnã, Tailândia e Brasil. A lista inclui veículos elétricos, autopeças, cosméticos, plásticos, aço, papelão, acetato, têxteis, calçados, brinquedos, móveis, eletrodomésticos, vidro, sabonetes e outros itens. As alíquotas ainda não foram especificadas.
Em um comunicado divulgado no início da semana, o Ministério da Economia mexicano afirmou que a medida “não está voltada para nenhum país em particular” – numa tentativa de evitar comparações com a política tarifária baixada em abril pelo presidente americano.
Mas, na prática, a medida protecionista representa uma reversão de 40 anos de liberalização comercial unilateral que transformou o México em uma potência exportadora e um destino atraente para investimentos, principalmente no setor manufatureiro.
Analistas veem ao menos três objetivos mais amplos com o tarifaço mexicano. Um deles é permitir que o México responda às pressões dos EUA para aumentar suas tarifas e se junte ao esforço do governo Trump para construir uma barreira tarifária contra a China.
Outro seria fortalecer a posição do México nas negociações que antecedem a revisão, que deve ocorrer até julho, do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) - que abrange mais de 80% das exportações mexicanas e representa receitas anuais superiores a US$ 500 bilhões para o país latino-americano. O terceiro motivo é atender aos objetivos de política interna mencionados, incluindo o fomento da produção e inovação nacionais.
O impacto do tarifaço mexicano será substancial para a indústria automotiva chinesa. Carros e autopeças representaram 13,6% e 14% das exportações da China para o México em 2024, respectivamente.
As tarifas sobre carros chineses aumentarão em até 50%, em comparação com a faixa atual de 15% a 20%. Para as autopeças, o aumento será entre 10% e 50%, em comparação com a faixa atual de 0% a 35%.
No caso do Brasil, a alta de tarifas mexicanas pode ter impacto de US$ 1,7 bilhão, referentes a 232 produtos da indústria brasileira, de acordo com avaliação inicial da CNI. O México foi o sexto maior destino de exportações brasileiras até novembro de 2025, com um total de US$ 7,1 bilhões em embarques.
Para a especialista Daniela Poli Vlavianos, a repetição desse modelo protecionista por parte do México e da China evidencia que o problema não era apenas quem adotava as tarifas, mas o que elas representam.
"Em última análise, no afastamento deliberado da lógica cooperativa do comércio internacional e uma instrumentalização do direito econômico como ferramenta de disputa política, com impactos diretos sobre cadeias globais, custos ao consumidor e previsibilidade contratual", diz.