Setembro tem 22 dias úteis. Um a mais que a média observada a cada mês do ano no calendário nacional. O “chorinho” é bem-vindo, mas insuficiente para desconcentrar uma rara sucessão de eventos econômicos e políticos a testar a resiliência do mercado financeiro que poderá cruzar os braços apenas na segunda-feira, 1º de setembro, feriado nos EUA pelo Dia do Trabalho.
Durante o mês, economia e política se atropelam numa agenda para todos os gostos e que abarcará desde o PIB do Brasil no 2º trimestre e definição da Selic ao pronunciamento do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU, passando pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) com a CPMI do INSS e a votação da proposta de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil no plano de fundo.
Indicadores econômicos domésticos e externos terão relevância ao longo do mês, mas é improvável que despertem mais atenção que os eventos, sobretudo políticos, que podem elevar prêmios de risco de ativos brasileiros por repercussões imponderáveis em função de personagens e interesses envolvidos – condição que exigirá mais foco que o habitual de operadores.
Minimizar a potencial volatilidade do dólar pode ser mais arriscado nesses tempos de embate entre Donald Trump e Federal Reserve que pode desestabilizar o câmbio internacional se ampliada a percepção – já semeada – de que o Fed perderá sua independência.
Por ordem cronológica, em 2 de setembro, o STF dará início ao julgamento de Bolsonaro e aliados por suposto golpe de Estado. A mobilização de políticos e militantes do espectro bolsonarista e da direita é esperada em defesa do ex-presidente, da anistia dos envolvidos e do impeachment do ministro Alexandre de Moraes. Reações de Trump, que atrelou o tarifaço ao Brasil à condição jurídica do ex-presidente, não são descartadas.
Também no dia 2, o IBGE divulgará o resultado do PIB do 2º trimestre que deve desacelerar de 1,4% no período anterior, ante o último quarto de 2024, para algo entre 0,2% e 0,5%. Sem surpresa. Porém, o detalhamento do indicador poderá reorientar projeções para o PIB do ano por ora estimado entre 1,9% e 2,5% por grandes bancos e consultorias. Em 2024, o indicador subiu 3,4%.
Em 3 de setembro, o Congresso poderá votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 – pontapé inicial para o Orçamento do ano eleitoral, enquanto parlamentares, especialistas e representantes da sociedade civil deverão discutir a proposta da sempre espinhosa Reforma Administrativa em Comissão Especial.
Na mesma data, em Washington, EUA, o órgão do governo americano responsável pelo comércio internacional (USTR na sigla em inglês) realizará audiência na investigação contra o Brasil por supostas práticas comerciais ilegais. Empresários brasileiros pretendem marcar presença e fortalecer o diálogo sobre o tarifaço.
Em contraponto à agenda externa em evidência nas próximas semanas, o governo deverá enviar ao Congresso o Projeto de Lei do “Gás do Povo” – programa que prevê gratuidade do gás de cozinha a 46 milhões de brasileiros. O “Gás do Povo” é irmão do “Luz para Todos” lançado em 2003 e relançado em 2023.
Lula x Trump na ONU
Na seara financeira, no dia 17, os bancos centrais do Brasil e dos EUA voltam a definir taxas básicas. As decisões de mais uma “superquarta” têm resultados previstos. A Selic deve permanecer em 15% até o início de 2026.
Entretanto, deflação do IPCA-15 aquém do esperado e queda generalizada de índices de confiança, além da criação de empregos e crédito, favorecem apostas no corte antecipado da Selic. Inclusive, porque as expectativas inflacionárias, embora distantes da meta de 3%, estão convergindo para menos que o teto de 4,50%. Quanto à taxa básica do Fed, o mercado futuro de juro sinaliza redução de 0,25 ponto percentual para 4% a 4,25%.
No dia 22, Tesouro, Ministério do Planejamento e Orçamento e Ministério da Fazenda apresentarão o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias – ocasião em que bloqueio e/ou contenção do Orçamento deste ano podem ser anunciados com vistas ao cumprimento da meta de déficit zero e do arcabouço fiscal.
No dia 23, o BC divulgará a Ata do Copom que terá seu conteúdo incorporado ao Relatório de Política Monetária, sucessor do Relatório Trimestral de Inflação. Dois dias depois, em 25 de setembro, o documento será apresentado pelo presidente Gabriel Galípolo e pelo diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, cujo mandato expira em 31 de dezembro, mas poderá ser renovado por Galípolo. A ver.
Ainda no dia 23, reza a agenda preliminar, o presidente Lula fará a abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Mantendo a tradição, o primeiro pronunciamento da Assembleia cabe ao presidente do Brasil e antecede o discurso do presidente dos EUA – país “anfitrião” da sede da organização. A expectativa é que Lula reitere sua defesa enfática da soberania nacional, multilateralismo e agenda ambiental. Já Trump, difícil prever. É possível que ocorra um encontro protocolar ou um confronto verbal entre os dois governantes que não se bicam.
Em 2020, último ano do primeiro mandato de Trump (2017-2020) e auge da Covid 19, a Assembleia Geral foi virtual. O presidente americano discursou após a fala de Bolsonaro, então presidente do Brasil. Trump, que estava num embate comercial com a China, não poupou ataques a Pequim que, segundo ele, era responsável pela pandemia por não alertar o mundo sobre a gravidade do “vírus chinês”.
De volta à agenda de um setembro “fora da curva”, de 21 a 28, Nova York acolherá a Semana do Clima. Encontro global que reúne líderes políticos e empresariais, acadêmicos e ativistas de todas as partes do planeta. O evento ganha relevância com a proximidade da COP 30, entre 10 e 21 de novembro em Belém, Pará, Brasil.