A desaceleração da atividade, da inflação e da taxa de juro é a tônica de cenários econômicos traçados por bancos e consultorias para 2026 com alerta coletivo para incertezas quanto à evolução do câmbio – variável que, entre todas, requer mais atenção nos próximos meses por ser a mais exposta ao calendário eleitoral. Mas não só a ele.
Pesquisas eleitorais, pesada pauta no Congresso com foco no Banco Master, no INSS e na segurança pública e a configuração do quadro internacional, que reúne desde tensões geopolíticas no Irã até a investida de Donald Trump contra o Federal Reserve (Fed) – ainda que sem risco da demissão de Jerome Powell por não fazer qualquer sentido a quatro meses do fim do seu mandato – ganham relevância no curto prazo.
Pesa no cenário, porém, o Fed ter entrado numa “tripla” saia justa pela investigação de Jerome Powell na Justiça americana em função da reforma da sede da instituição, pela resistência a um corte acelerado do juro e pela limitação da taxa cobrada por cartões de crédito ao máximo de 10%, a partir de terça-feira 20, por determinação e anúncio feito pelo próprio Trump que, também no dia 20, comemora o primeiro ano do atual mandato.
Primeiro ano que iniciou com uma saraivada de tarifas comerciais contra o mundo inteiro, mas principalmente contra a China, e culminou, de 2025 para 2026, com a invasão da Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro. E adentra em janeiro com Trump flertando com ações bélicas contra o Irã sacudido por manifestações populares contra a crise econômica instalada – uma ameaça ao regime dos aiatolás que já produziu centenas de mortes.
Paralelamente à geopolítica, encorpada pela cobiça de Trump pela Groenlândia, a investigação que levou Jerome Powell a disparar um inédito alerta sobre a potencial ingerência da Casa Branca em decisões monetárias colocando em xeque a independência da instituição – essa, sim, a grande preocupação do mercado – desencadeou uma onda de apoio de bancos centrais ao Fed e afetou a precificação dos Treasuries, do dólar e do ouro.
Embora abreviada, a correção de preços foi percebida como uma demonstração evidente de riscos a que ativos financeiros em geral estão submetidos e que poderão ser exacerbados em maio com a substituição de Powell por um expoente mais alinhado às políticas de Trump.
Nesse contexto, a decisão do Fed sobre sua taxa básica na reunião prevista para 27 e 28 de janeiro – coincidente com o encontro do Copom no Brasil – é crucial porque poderá provocar mais um “levante” do Trump se confirmada a aposta do mercado que aponta, na CME, probabilidade de 95% de manutenção do juro na faixa de 3,50% a 3,75%, alcançada após três cortes consecutivos no ano passado, quando o Fed cumpriu à risca o seu plano de voo.
Porém, um refinamento das projeções poderá ocorrer, a partir da segunda estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no terceiro trimestre. Por ora, esse dado com divulgação prevista para a quinta-feira, 22 de janeiro, é o mais relevante da agenda externa nos próximos dias.
“Queda” de juro afasta pessimismo
A primeira estimativa do PIB, publicada após o encerramento do “shutdown”, acusou vigorosa expansão de 4, 3% de julho a setembro, em base anualizada, ante projeção de analistas internacionais de 3,3%. O resultado se transformou num “convite” e tanto para o Fed cruzar os braços neste início de ano.
No Brasil, o IBGE já divulgou o desempenho em novembro da indústria, serviços e varejo. Indústria e serviços caíram. Varejo cresceu acima do esperado. Já o IBC-Br de novembro, divulgado na sexta, 16, pelo Banco Central exibiu forte crescimento. Improvável, porém, que provoque reversão das expectativas de desaquecimento gradual da atividade no ano.
Informações de dezembro, lançadas pela S&P Global via Índice dos Gerentes de Compra (PMI, na sigla em inglês), apontaram expansão em serviços e retração substantiva da indústria por queda na demanda a comprometer produção e encomendas.
Vetor positivo, a S&P identificou junto às empresas redução de custos de energia, alimentos, frete, plásticos e resina – fator que levou à queda de preços cobrados por produtos pelo quarto mês consecutivo e no ritmo mais rápido desde meados de 2023. E apesar do cenário considerado fraco no geral – com desempenho sofrível da indústria, a S&P informa não estar instalado o clima de pessimismo para o ano, graças à perspectiva de queda do juro.
A considerar cenários construídos por seis instituições (Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, BTG Pactual e XP) o ciclo de corte de juro pelo BC bate de fato à porta. A Selic, em 15% desde meados de junho do ano passado, patamar mais elevado em quase vinte anos, recuará 0,25 ponto percentual em janeiro ou março, com alguma chance de declínio de 0,50 ponto se o desmonte do ciclo de alta começar em março. Para o final de 2026, as estimativas para a taxa básica variam de 12% a 12,75% ao ano.
A Selic cairá sem desabar para contrariedade do próprio governo que, nesse caso, tem como aliado o setor privado na avaliação de que a restrição monetária está além da conta. Segundo a Focus, a taxa nominal recuará a um dígito em 2028. O juro real, que encerrou 2025 acima de 10%, estará em declínio, mas somente em 2029 estará abaixo de 6%. Apesar dos alertas das instituições sobre o risco de o câmbio ser afetado pela corrida eleitoral, sobretudo no segundo semestre, as estimativas para o ano variam de R$ 5,35 a R$ 5,90, com o Santander Brasil na ponta mais alta.
Quanto à inflação, as projeções seguem distantes da meta de 3%, mas se afastam do teto, e oscilam de 3,8% a 4,2% nos cálculos para 2026, quando o PIB deve desacelerar de algo em torno de 2,2% em 2025 para expansão de 1,5% a 1,7% e em meio a uma persistente frustração com a política fiscal. As instituições, sem exceção, projetam déficits primários seguidos e mantêm a aposta otimista de que o País passará por uma reforma fiscal em 2027. Desacreditado, o arcabouço fiscal saiu de cena há tempos.