A política fiscal domina debates e declarações dentro e fora do governo, mas concorre com a inflação que arrefece, mas segue distante da meta de 3%, e ganha destaque com pressões generalizadas pelo corte do juro – também dentro e fora do governo.

Coincidente com a corrida eleitoral, o combo “política fiscal, juro e endividamento” é citado dia sim, e no outro também, por candidatos, assessores políticos, parlamentares, empresários e integrantes do mercado financeiro por representar, hoje, mazelas da economia brasileira.

O alívio na taxa de juro é apregoado, sobretudo, como consequência de uma melhora nas contas públicas porque, ao fim e ao cabo, persiste a visão de que o governo gasta demais e ativa a demanda que banca ou sanciona a alta da inflação. E o Banco Central, que deve manter a inflação sob controle, corre atrás do “prejuízo”. Aperta o juro e todo mundo perde, inclusive, o governo.

Para economistas da corrente desenvolvimentista próxima ao PT e ao governo Lula, um caminho para aliviar a política de juros é aumentar a meta de inflação, perseguida pelo BC que, para atingir seu objetivo, mantém o juro na Lua. A meta está fixada em 3% desde 2024, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Contrariando entendimento do mercado, que teme perda de credibilidade da autoridade monetária em caso de alteração, elevar a meta talvez seja o caminho mais curto para aliviar o juro, defendem os desenvolvimentistas, uma vez que rever a política fiscal é, por ora, promessa distante.

Para o economista Nelson Marconi, professor da Fundação Getulio Vargas e coordenador do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimento, um ajuste fiscal será insuficiente para reduzir os juros e conter a evolução da dívida pública.

Ele considera necessário um ajuste fiscal que reduza o déficit primário e permita elevar investimentos públicos. Entretanto, alerta que esse ajuste poderá não gerar uma redução acentuada da taxa de juros se a inflação estiver distante da meta de 3% que ele considera irrealista e defende meta de 4% – mais coerente com a estrutura da economia brasileira.

Mas um ajuste da meta não é tudo. Ele acrescenta a necessidade de ocorrer uma desvinculação entre taxas de juro da política monetária e da fiscal, lembrando que o Tesouro emprega a mesma taxa – aplicada pelo BC na gestão monetária – para financiar parcela relevante da dívida pública, quase 50% indexada à Selic e que ele aponta como herança deletéria da hiperinflação.

“Na prática, isso significa que a alta do juro para combater a inflação contamina a dívida independentemente do resultado fiscal”, pontua o economista que sintetiza ao NeoFeed detalhado artigo publicado na Conjuntura Econômica, da FGV, onde destaca que a composição da dívida pública explicita quanto as políticas fiscal e monetária estão emaranhadas.

Selic cai até quando?

De volta à inflação e suas consequências, o IPCA de agosto será divulgado na sexta-feira, 11 de setembro, e deve trazer uma boa e uma má notícia. O indicador tende a registrar deflação estimada em cerca de 0,30%. Resultado que estará em consonância com a leitura prévia da inflação – medida pelo IPCA-15 – negativa em 0,40%.

Confirmada a projeção, o IPCA em 12 meses deve recuar de 4,44% para cerca de 4,22%. Boa notícia por reprisar variação inferior ao teto da meta, 4,5%. Má notícia, por ser insuficiente para afastar de 5% o resultado esperado para 2026.

Ainda assim, a inflação mensal negativa deverá incentivar o BC de Gabriel Galípolo a reduzir a Selic em 0,25 ponto no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) em 15 e 16 de setembro. Se ocorrer, o corte será o quinto seguido e levará a taxa a 13,75% – prevista pela Focus, em sua última edição, para o final desse ano.

A possibilidade de encerramento do ciclo de baixa no próximo Copom existe, inclusive, porque há expectativa de que o Comitê fique neutro na reunião de 3 e 4 de novembro. Quando terá a chance de assumir uma postura vista como “adequada” no penúltimo encontro do ano na “saideira” do segundo turno da eleição presidencial que, se acontecer, tem data: 25 de outubro.

O Copom ainda se reúne em dezembro e pode, claro, reduzir o juro. É improvável, porém, uma tesourada na Selic para menos de 13% porque a inflação segue como ponto de atenção, ante a expectativa com efeitos do El Niño. E em função de um dólar eventualmente mais valorizado ante moedas emergentes por contágio externo, caso o Federal Reserve eleve sua taxa básica e/ou Donald Trump continue botando fogo no circo, dando suporte ao petróleo.

Ao nebuloso cenário externo a ser tensionado pelas eleições norte-americanas de meio de mandato em 3 de novembro, determinante para a taxa de câmbio, somam-se incertezas quanto ao desfecho da eleição no Brasil e medidas que podem ser anunciadas pelo candidato vencedor ao Planalto – seja quem for.

Fabio Silveira, sócio-fundador da MacroSector Consultores, especialista em inflação e agronegócio, acaba de atualizar projeções e estima alta do IPCA de 5,2% esse ano, ante 4,3% em 2025. Ao NeoFeed, ele justifica a expectativa listando uma série de eventos esperados para o período de setembro a dezembro de 2026. Todos têm como pano de fundo preços de alimentos. Péssimo cenário para o BC e para o próximo governante.

Silveira calcula que a inflação IPCA do ano ficará, portanto, acima do teto da meta, 4,5%, pela combinação de aumento dos preços internacionais de grãos – soja, milho, algodão, entre outros – refletindo a perspectiva de maior avanço das economias emergentes asiáticas em 2027, exercendo pressão de demanda.

Os preços internacionais do petróleo e derivados também devem reforçar o encarecimento dos alimentos em escala global, o que vale também para a evolução ainda positiva do mercado de trabalho no Brasil que tende a elevar a a Massa Real de Rendimento e o Bolsa Família. De novo, péssimo cenário para o BC e para o próximo governante. Seja quem for.