Eram pouco mais de 17h30 do dia 28 de outubro de 1929, uma segunda-feira. Horas antes, o mercado de ações fechara com queda vertiginosa de 13%, após uma semana de convulsões — de longe, o maior tombo até então. As ruas já escuras do centro de Nova York fervilhavam de corretores de chapéu modelo fedora, mensageiros e telefonistas, todos cochichando sobre o colapso.

O que provocara o colapso? Até onde iria no dia seguinte? Os mercados abririam? Nesse momento, Charles Mitchell, presidente do National City Bank (antigo nome do Citibank), subiu os degraus do nº 55 da Wall Street decidido a exibir sua habitual confiança. Fora uma tarde devastadora e ele sabia que o mercado observava cada movimento seu.

Dos operadores à sua secretária, todos examinavam seu passo e seu rosto, em busca de sinais em cada gesto. De terno cinza e ombros erguidos, manteve o sorriso ao cruzar o salão de cúpula de vidro do banco. Aos 52 anos, atlético e otimista, apelidado pela imprensa de “Sunshine Charlie”, ele passara a tarde em reuniões de emergência no Federal Reserve Bank de Nova York, tentando conter o pânico.

Era o tipo de momento para o qual um autoproclamado “Grande Homem” como Mitchell acreditava estar preparado, com experiência, estatura e nervos de aço para conduzir Wall Street em tempos difíceis. Dessa vez, porém, seria diferente e trágico. Um único homem não conseguiria impedir a tragédia a caminho. E ela viria no dia seguinte.

Assim começa 1929: Inside the Greatest Crash in Wall Street History — and How It Shattered a Nation, do premiado jornalista Andrew Ross Sorkin, ainda sem previsão de lançamento no Brasil e que ocupou o primeiro lugar da lista dos mais vendidos do The New York Times, no fim do ano passado.

Um dos livros favoritos de 2025 de Barack Obama foi eleito um dos melhores lançamentos de 2025 pelo The Washington Post, TIME, The Economist, Air Mail, Bloomberg, Fast Company, Katie Couric Media e History. Tudo isso por contar em ritmo cinematográfico uma história que todo mundo parecia conhecer. Nem tanto, porém.

Quase um século se passou desde o crash de 1929 e aquele continua a ser o desastre financeiro mais significativo e amplamente mal compreendido da história moderna. Se os livros escritos desde então dão uma noção mais técnica do que ocorreu, poucos conhecem os indivíduos que desempenharam papéis centrais nesse drama, o que fizeram para precipitar a crise, por que não a viram chegar e quais medidas tomaram para tentar encerrá-la.

Tampouco percebem o que é mais importante: os notáveis paralelos entre aquela era e o clima político e econômico atual. Para entender o que aconteceu, primeiro, é preciso entender o contexto amplo: os anos de 1920 testemunharam o nascimento da moderna economia de consumo. À medida que milhões deixavam fazendas e pequenas cidades rumo às metrópoles, criavam mercados para novas comodidades: carros, rádios e máquinas de lavar — produtos que tornavam a vida mais fácil e agradável.

O maior produto, aquele que tornava todos os outros possíveis, porém, era o crédito. “Compre agora, pague depois” virou a regra. Em 1919, a General Motors rompeu o tabu contra empréstimos pessoais ao vender veículos a crédito. A Sears, Roebuck & Co. passou a oferecer planos de parcelamento. Os bancos mecanizaram o processo para pequenos comerciantes e Wall Street avançou para ações “na margem”.

Milhares abriram contas com o pagamento de 10% ou 20% do valor e tomavam o restante emprestado. Com o mercado em alta, os ganhos pareciam dinheiro grátis e poupar já não parecia necessário. E esse contexto só cresceu e se complicou ao longo da década, até chegar a 19 de outubro de 1929, o dia fatídico.

Ainda sem previsão de lançamento no Brasil, o livro é fruto de mais de oito anos de reportagens e milhares de horas de pesquisa (Foto: Editora Viking)

Presidente do National City Bank, Charles Mitchell foi árduo defensor da expansão do crédito que alimentou a bolha (Foto: wilipedia.org)

Manchete do jornal "Brooklyn Daily Star" retrata o pânico deflagrado pela quebra da Bolsa de Nova York

Com base em documentos inéditos, diários privados e arquivos federais, Sorkin reconstrói o que aconteceu e quem foram os protagonistas: banqueiros, especuladores, políticos e reguladores e como suas decisões moldaram os acontecimentos. “Depois de escrever Too Big to Fail, sobre a crise de 2008, quis explorar o mais infame colapso da história com o mesmo nível de profundidade e emoção humana”, justifica ele na introdução.

Seu livro de quase 600 páginas é fruto de mais de oito anos de reportagens e milhares de horas de pesquisa, a partir de cartas, memorandos, atas, depoimentos e registros judiciais, alguns nunca antes examinados. “Cada cena foi montada a partir de fragmentos que, detalhe por detalhe, compuseram o quadro final. Ao compreender as motivações e trajetórias dos protagonistas, entende-se como a calamidade tomou forma”, acrescenta.

Esse é o trunfo de seu trabalho. O autor o define como não apenas uma história sobre quem suportou as consequências, mas sobre quem ajudou a colocá-la em movimento, onde residem a responsabilidade e as lições. O que emergiu desse trabalho, escreve ele, desafiou suas próprias suposições. Para isso, dá vida a banqueiros audaciosos, formuladores de políticas ambiciosos e investidores comuns.

Entre eles está o citado Mitchell, defensor da expansão do crédito que alimentou a bolha. Jesse Livermore, o especulador que lucrou ao apostar contra o mercado, mas perdeu tudo depois. Thomas W. Lamont, sócio do J.P. Morgan & Co., que tentou coordenar os grandes bancos para conter o pânico. Herbert Hoover, presidente dos Estados Unidos no início da crise, que se mostrou incapaz de evitar o colapso e a depressão subsequente. E o senador Carter Glass, crítico da especulação e defensor de reformas regulatórias.

O retrato do crash no livro é humano e analítico, segundo Sorkin, revela a combinação de otimismo, arrogância e falhas regulatórias que levou o país ao caos econômico por mais de uma década. Sua narrativa acompanha a ascensão vertiginosa e a queda dos preços das ações, além das decisões e conversas privadas que moldaram o destino de milhões em todo o mundo.

Tão relevante quanto o que aconteceu é o exame das consequências do crash. O autor mostra como os fracassos de 1929 provocaram mudanças profundas na regulação, no sistema bancário e na supervisão governamental. Vai além para narrar as reformas que buscaram conter excessos e restaurar a confiança pública, além da transformação social que se seguiu.

Em paralelo, o autor faz uma reflexão com relevância duradoura. Os ciclos de especulação, os perigos da euforia financeira e a tentação de acreditar que “desta vez é diferente” continuam a ecoar, escreve ele. Sorkin convida o leitor a reconhecer, sem comparações forçadas, os sinais de alerta do otimismo desmedido e da vulnerabilidade sistêmica que levaram, por exemplo, à crise de 2008.