Ela está irreconhecível. A copa exuberante que um dia chegou a ter quase 50 metros de diâmetro hoje está reduzida a poucos troncos podados e galhos esparsos, sustentados por cabos de aço e cordas. Para quem a conheceu em seu auge, a sensação é de uma estranheza incômoda.

Ao longo de quase três décadas, ela foi a principal atração do restaurante A Figueira Rubaiyat. Inaugurada em 2001, pela família Iglesias, na elegante região dos Jardins, a casa ajudou a transformá-la em um dos cartões-postais mais improváveis de São Paulo. Tombada como Patrimônio Ambiental, depois de mais de um século de existência, seu futuro é incerto: apenas metade de sua composição está saudável.

“Nós supervisionamos quase diariamente os troncos, os galhos e as folhas contra todo tipo de praga, fizemos a higienização e seguimos rigorosamente o processo de adubação”, conta ao NeoFeed o biólogo Ítalo Mazzarella, responsável pelos cuidados com a figueira. “Temos até um aparelho, sismotron, que simula microtremores para afastar cupins e outros bichos”, completa o especialista, sócio da Gaia Consultoria.

Pertencente à espécie Ficus benghalensis, conhecida como figueira-de-bengala e originária do sul da Índia, a árvore é uma das maiores do mundo. Em seu habitat natural, podem atingir 30 metros de altura e formar copas com cerca de 100 metros de diâmetro.

Ela emite raízes aéreas a partir dos galhos. E essas raízes descem até o solo, enraízam e passam a funcionar como novos “troncos”. Com o tempo, isso se repete várias vezes. O resultado é uma estrutura que começa como uma única árvore, mas vai se transformando numa rede de figueiras conectadas entre si. Por isso, são chamadas de “florestas de uma árvore só”.

Essa forma de crescimento também explica a longevidade da espécie. Mesmo que partes antigas envelheçam ou morram, outras continuam se formando e assumindo a função estrutural. Em vez de depender de um tronco único, ela se mantém em constante renovação.

A Figueira do Rubaiyat, porém, não teve essa chance. Mazzarella até tentou fazer o estaqueamento das raízes aéreas para incentivar sua chegada ao solo — de modo a que elas ganhassem calibre e alimentassem os troncos e galhos. Exames de ultrassom, no entanto, mostraram que a distribuição da seiva não está ocorrendo de maneira adequada.

Em 2014, o restaurante e a árvore foram utilizados em um episódio da famosa série americana Simpsons (Foto: Reprodução)

A rede de restaurantes Rubaiyat foi fundada pelo imigrante espanhol Belarmino Fernandéz, em 1957. Sua primeira unidade nasceu na Rua Vieira de Carvalho, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Hoje, o grupo é liderado pela terceira geração da família, os filhos de Belarmino Filho, Victor e Diego. Eles tocam sete unidades, sendo quatro no Brasil, e as outras três no Chile, Argentina e Espanha (Foto: Divulgação)

Antes de pertencer ao Rubaiyat, a figueira ficava no estacionamento de uma loja de presentes de alto padrão, a Cleusa Presentes (Foto: Reprodução/Facebook)

Desde 2000, ela ocupa o centro do salão do renomado restaurante de carnes, com seu tronco de mais de seis metros de diâmetro (Foto: Divulgação/Figueira Rubaiyat)

A década era 1890. O ano, ninguém sabe ao certo. São Paulo tinha pouco mais de 60 mil habitantes. A avenida Paulista acabara de ser inaugurada e o bairro dos Jardins era dominado por fazendas, sítios e roças. Em uma daquelas propriedades, o pé da figueira foi plantado.

E ela atravessou boa parte de sua história longe dos holofotes. Nos anos 1970, porém, quando os Jardins deixaram de ser área exclusivamente residencial para virar o eixo do comércio de alto padrão da capital, a figueira passou a sombrear o estacionamento de uma loja de decoração.

Na transformação da provinciana São Paulo do século 19 em metrópole agitada do século 21, a árvore foi sufocando, de pouco em pouco.

“Ela perdeu espaço, por exemplo, para as tubulações de água, esgoto e drenagem. Você pode até achar que o local não mudou tanto, mas a árvore está no ‘pé’ da avenida Paulista, onde um lençol freático foi cortado, ou seja…”, lamenta o biólogo.

Como ela forma um extenso sistema radicular sob a terra, nem toda a sua estrutura está sob proteção dos Iglesias. Raízes da Figueira já foram encontradas a 50 metros além do restaurante. Mais recentemente, uma parte dela foi cortada durante as obras para a construção de mais um prédio na região.

“Estamos fazendo o que precisa ser feito”, diz Belarmino Iglesias, filho do fundador do Rubaiyat, em entrevista ao NeoFeed. “Nosso trabalho é conter o avanço dos danos, eliminar riscos e proteger a árvore das ameaças possíveis.” O grupo gasta entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão com a preservação da figueira.

Quando, em 1999, a família adquiriu o terreno da Haddock Lobo, a árvore ocupava o estacionamento de uma loja de decoração. “As raízes da árvore estavam cobertas por mais de uma camada de cimento”, lembra o empresário. “Nós tiramos todo esse pavimento para favorecer a regeneração e o fortalecimento da árvore, deixando as raízes ‘respirarem’ por quase um ano.”

Foi aí que a família percebeu que o projeto do novo Rubaiyat deveria ser em função da figueira — e não apesar dela. O salão principal foi idealizado ao redor de suas majestosas bengalas, como são chamadas as raízes aéreas. E a Figueira então batizou a casa.

Sob sua copa, almoçaram e jantaram a elite brasileira; artistas, intelectuais e empresários; presidentes e chefes de Estado; reis e rainhas; príncipes e princesas — Fernando Henrique Cardoso; Bill Clinton; Felipe VI, da Espanha; Silvia, da Suécia; Mariah Carey, Sting. Por aí vão os comensais ilustres da Figueira.

Até a família Homer Simpson marcou presença em uma mesa colada à árvore. Sim, os personagens do desenho animado americano. A “visita” aconteceu em 2014, durante a Copa do Mundo realizada no Brasil. “Foi uma grata surpresa”, conta Belarmino.

Mais do que isso. A aparição em um dos programas mais populares do planeta mostrou que a fama da Figueira já havia extrapolado os limites da gastronomia paulistana e alcançado até a cultura pop.