A linha é a ponte entre o hoje e o passado. Ela une ao mesmo tempo que tensiona e abre brechas para que o retalho de linho do século XVIII ganhe nova vida sobre o tecido que recobre o chassi de uma tela de pequenas proporções. No trabalho Sem título — linho antigo, de Sidival Fila, o tempo se acumula e o presente dá uma nova chance ao que parecia perdido.
“Minha obra é um trabalho de resgate”, explica o artista, que concilia a carreira com a vida de frade franciscano, em entrevista ao NeoFeed. “Tenho essa sensibilidade em relação a coisas que já não têm valor para o mundo. Eu as recupero e lhes devolvo valor. É assim também quando acolho a vida de alguém que foi colocada às margens da sociedade. É dar uma outra chance de continuar o seu percurso.”
Em cartaz na galeria Luisa Strina, em São Paulo, com a mostra A dignidade da matéria, esta é a primeira vez que o artista paranaense radicado na Itália expõe no Brasil. Nascido em Arapongas, na região metropolitana de Londrina, em 1962, Fila mudou-se ainda jovem para São Paulo a fim de aprofundar seu interesse pela arte — uma paixão que começou ao ver reproduções de obras em livros.
Mas o que a cidade oferecia era pouco para saciar seu desejo. Com a intenção de morar em Paris, viajou à Europa, mas fez uma parada em Roma para obter a cidadania italiana. “Fiquei apaixonado pela cidade e não quis mais me mudar”, conta.
Ampliando seu repertório no país berço do Renascimento, sua produção passou por transformações significativas. As pinturas, que transitavam entre uma estética expressionista e uma figuração com inclinações cubistas, migraram progressivamente para a abstração.
“Comecei a me interessar pela textura do tecido, pela materialidade. Eu pintava 15, 20 vezes um quadro com uma tinta translúcida, porque queria uma cor intensa, mas sem cobrir a textura. Meu interesse era a matéria”, lembra.
Uma crise existencial, porém, o levou a ingressar na Ordem dos Frades Menores e a abandonar a carreira de artista. “A decisão não foi traumática, porque não foi uma imposição. Foi uma escolha consciente”, explica. “É como amar uma pessoa, encontrar outra e se apaixonar. Mas a alegria desse novo encontro é diferente, porque, no fundo, é um encontro com você mesmo. E isso é maior do que o amor que se perdeu.”
Ao ingressar na ordem franciscana, Fila fez voto de pobreza. Permaneceu por anos totalmente voltado à vida religiosa. Mas o interesse pela arte estava apenas adormecido. Ao realizar oficinas de restauro com jovens — ensinando-os a recuperar santuários, castiçais e outros objetos —, voltou a ter contato com o fazer manual, o que reacendeu seu impulso criativo. “Senti vontade de pintar um quadro”, lembra.
Fez uma reprodução de Doze girassóis numa jarra, de Vincent van Gogh. Em seguida, o interesse deixou de ser a cópia e passou à criação, a partir de técnicas como o dripping, cujo maior expoente é Jackson Pollock. “Aí tudo saiu”, diz. Nas horas livres, Fila produzia sem compromisso. E, certo dia, ganhou de um amigo um colchão de linho.
O (re) chamado da arte
“Quando descobri aquele material, foi uma grande surpresa. Era como uma síntese do meu desejo de trabalhar com o tecido, com algo tridimensional”, explica. “Sempre acreditei que a matéria carrega significado, tempo e memória. Queria usá-la como algo que se apresenta por si.”
Os tecidos que Fila utiliza, em geral, chegam por meio de doação — materiais que, para seus antigos donos, já não têm mais valor. Algumas peças têm mais de 200 anos. Seu gesto, de certo modo, se aproxima daquilo que muitos buscam na fé: encontrar uma saída para o que parece perdido.
Por meio de técnicas de restauro, o artista reforça esses tecidos frágeis, fixando-os sobre uma nova base para que possam voltar a existir como superfície de trabalho. “Eu quase nunca procuro tecidos. Eles é que chegam até mim”, conta. “Se eu comprasse o material, acabaria repetindo a mim mesmo. O tecido precisa me dizer algo. Não posso impor o meu ponto de vista a ele.”
É nesse horizonte que surge o que ele chama de “epifania da matéria”. “É uma ideia de revelação”, explica. “Mostrar a matéria por aquilo que ela é.” Mais do que criar, seu gesto é o de indicar, de tornar visível. “Mais do que criar, eu mostro. Faço ver.”
Com trabalhos se acumulando no espaço que usa como ateliê no convento San Bonaventura al Palatino, onde vive e trabalha, um colega lhe sugeriu organizar uma exposição. Em 2006, realizou sua primeira mostra no próprio convento. Três anos depois, vieram os convites para expor em galerias.
Em 2019, alcançou um dos marcos mais importantes de sua trajetória: foi convidado a participar da Bienal de Veneza, expondo no pavilhão da cidade. A partir daí, colecionadores passaram a se interessar por seu trabalho.
Para conciliar a crescente demanda do mercado com o voto de pobreza assumido ao ingressar na ordem, Fila criou, em 2021, a Fundação Sidival Fila. É para ela que destina os recursos obtidos com a venda de suas obras, revertidos em projetos voltados a crianças em situação de vulnerabilidade social ao redor do mundo.
“Com a fundação, o dinheiro não é mais meu”, explica. “Para mim, foi uma grande libertação. Saber que não é minha propriedade, que não preciso administrá-lo sozinho. Isso foi uma grande ajuda, inclusive do ponto de vista psicológico.”
A vida de um artista muitas vezes é comparada à de um religioso, pela dedicação quase absoluta que exige. Mas o mundo da arte também tem seus excessos — vaidade, luxúria e um mercado que alcança cifras elevadas. Um universo que parece distante da vida de um franciscano.
Para Fila, no entanto, a questão central não está nas contradições externas, mas naquilo que chama de “liberdade interior”. Os recursos gerados por sua obra não o seduzem, porque não lhe pertencem. “Não uso esse dinheiro para mim. Sei que não é meu”, diz.
Ao mesmo tempo, reconhece o descompasso do sistema artístico. “A arte acaba virando investimento”, observa. “Aquilo que é espiritual se torna excessivamente material. Mas, infelizmente, a arte sempre teve esse compromisso.”
Fila não tenta resolver essa tensão. Convive com ela. Na arte, concentra-se na matéria. Não para transformá-la, mas para revelar a beleza que parecia perdida.