O empresário mineiro Rubens Menin aproveitou a semana em que completou 70 anos para lançar um rótulo raro. Numa cerimônia em que reuniu familiares e amigos em uma de suas seis quintas às margens do rio Douro, no norte de Portugal, ele deu a conhecer o resultado de cinco anos de trabalho de seus enólogos: um “Very Very Old Tawny”, um vinho do Porto de 150 anos.

A produção foi limitada a 200 luxuosas garrafas de cristal chanfrado, com 500 ml cada uma. O rótulo leva seu nome, detalhe que ele desconhecia, e esse foi o presente surpresa da mulher Beatriz, responsável pela organização da recepção.

A festa começou com uma bênção de um padre católico na capela da quinta, seguiu com coquetel e jantar com piano ao vivo e terminou com violonistas diáfanas, que se movimentavam na adega em meio à barris de carvalho, lustres e candelabros de cristal para apresentar o novo vinho.

A garrafa, que custa € 10 mil em Portugal, ainda não tem data prevista para chegar ao Brasil. Mas Menin, que tem o país como segundo mercado para seus vinhos, seguido pela Dinamarca e pelos Estados Unidos, assegura que em pouco tempo pretende mudar isso.

“O Brasil não pode ser o segundo. Precisa ser o primeiro”, disse em entrevista ao NeoFeed, enquanto degustava o H.O Pontão Tinto (R$ 1.222), um dos seus tops de linha.

Atualmente, a Menin Douro Estates possui duas marcas: a Menin, com cinco quintas, e a Horta Osório (H.O), comprada em 2021, cuja quinta foi completamente renovada e para a qual foram criados novos vinhos. Juntas, as duas marcas somam 185 hectares de vinhas. Deles, 30 hectares são de vinhas velhas, as mais valorizadas do Douro.

Sócio-controlador da construtora MRV, do Banco Inter, da Log Commercial Properties e da CNN Brasil, o empresário investiu € 65 milhões entre compra de terras, de vinhas, construção de adegas e restauração de edifícios quase em ruínas.

As vinícolas de Menin não compram uvas, utilizam apenas as suas próprias. Com elas, a H.O faz 11 rótulos de vinhos de mesa e a Menin 14. Além disso, a Menin produz 15 tipos de Porto. Esse resultado deve-se ao trabalho do enólogo consultor Tiago Alves de Souza, uma estrela do Douro, e do enólogo residente Manuel Saldanha.

A dupla é responsável pela complexa elaboração do blend que deu origem ao Rubens Menin — “Very Very Old Tawny”, 150 anos. Para isso, recolheram vinhos em diversas adegas do Douro que foram provados, identificados e selecionados num trabalho que eles definem como “quase arqueológico”.

“Reunimos uvas plantadas no século XIX, mas é impossível identificar o número de castas presentes”, diz Tiago, que considera o resultado uma "expressão do patrimônio do Douro”. Antes de entrar oficialmente no mercado, as primeiras garrafas serão disponibilizadas para colecionadores.

Nos próximos anos, Menin pretende investir mais € 25 milhões na compra de mais vinhas, na construção de outra adega e de um hotel para enoturismo. “Estou contente como as coisas estão caminhando e minha expectativa de retorno é de 20% ano ano”, afirmou.

O nome do empresário no rótulo foi um presente surpresa de Beatriz, sua esposa, responsável pela organização da festa (Foto: Divulgação/Menin Douro Estates)

Foram produzidas apenas 200 garrafas do novo vinho. Todas elas em cristal chanfrado (Foto: Divulgação/Menin Douro Estates)

Portugal possui 267 castas autóctones identificadas, sendo que mais de 100 delas estão no Douro. Para elaborar os vinhos das duas marcas, são utilizados 54 tipos de uvas diferentes. A produção atual da empresa é de 650 mil garrafas por ano e Menin espera chegar a 1 milhão em breve. Para isso precisa de mais vinhas.

Sua chegada ao mundo do vinho e mais especificamente ao Douro não foi planejada. Em uma tarde de inverno, depois da derrota do Atlético Mineiro no Marrocos, em 2013, que levou o time a ser eliminado do Mundial de Clubes, ele foi com uma excursão para a Quinta do Crasto, no Douro.

“A gente estava afogando as mágoas, tomando o Vinha Maria Teresa, um tinto que adoro, quando pensei: ‘Gente, quero ter uma terra e fazer um vinho nosso aqui".

Dessa forma começou um projeto pessoal, totalmente financiado com recursos próprios e que não tem nada a ver com suas empresas.

Não aos modismos

Ao falar do resultado dos vinhos que produz, Menin diz que sua interferência é muito pequena, que dá liberdade e autonomia à sua dupla de enólogos. Apesar da queda nas vendas que o vinho do Porto vem experimentando no mundo nos últimos anos, a política da Menin é investir em rótulos de Porto de alta gama.

“Ao contrário dessa tendência, os Porto excepcionais estão tendo um mercado crescente”, afirma Tiago, ao NeoFeed. Junto com Manuel, nos últimos anos, ele elaborou dez vinhos do Porto Tawny e dez Portos brancos: de 10, 20, 30, 40 e 50 anos.

Em 2025, chegaram ao Brasil apenas 20 garrafas do Porto 80 anos da Menin, cuja maioria já foi vendida pelo preço de R$ 20 mil.

Quanto a outras tendências que estão norteando o mundo do vinho, como o maior consumo de brancos e a preferência por rótulos de menor graduação alcoólica, Tiago afirma que prefere seguir o terroir e as características essenciais do Douro a embarcar em modismos:

“As modas vêm e se vão, são circunstanciais. Não podemos abrir mão de nossa identidade em função delas”.

Antes de investir no Douro, Menin nem chegou a cogitar comprar terras em outras regiões do mundo. De certa maneira, porque as terras vinícolas em Portugal ainda são muito baratas comparadas às de outras áreas demarcadas, como a do Barolo, na Itália, da Champagne ou da Borgonha, na França.

“O Douro tem um potencial de crescimento enorme. Gosto de dizer que é um diamante bruto que ainda precisa ser lapidado para virar um brilhante. Minha chegada aqui tem a ver com a paixão”, afirma o empresário.

Seu maior receio, afirma, era não conseguir atingir uma boa qualidade/preço com seus vinhos, que efetivamente são caros e possuem um valor elevado mesmo em Portugal.

“Vamos com calma e chegaremos lá. Às vezes o que a gente precisa é moderar o instinto animal de fazer bobagem. A paixão tira um pouco do nosso senso de realidade. Mas a verdade é que o vinho está me dando mais alegrias do que o futebol”, diz ele, torcedor fanático e dono do Atlético Mineiro desde 2023.