O começo do ano está sendo agitado para um grupo de vinhateiros brasileiros. Fundadores de seis vinícolas-boutique, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, eles estão correndo para providenciar a papelada que vai permitir o embarque de seus vinhos para a França, um dos mercados consumidores mais tradicionais e exigentes do mundo.
O grupo faz parte do projeto Vin du Brésil, encabeçado pelo francês Benoit Mathurin, chef do restaurante Esther Rooftop, no centro de São Paulo. Fã dos vinhos brasileiros, Mathurin associou-se ao empresário italiano Giovanni Montoneri e a Guilherme França, da Intrust Associates, para criar a exportadora Vin du Brésil.
Depois de uma série de degustações realizadas em Paris, o trio constatou que mercado não falta.
"Tem brasileiro que ainda não acredita na qualidade dos vinhos brasileiros, mas não foi difícil convencer os franceses", diz Mathurin, ao NeoFeed.
Como o foco da Vin du Brésil é o mercado de luxo, a seleção montada para as degustações foi ampla – continha rótulos de 30 vinícolas, de várias regiões produtoras, estilos e preços. Por ser inverno no Hemisfério Norte, Mathurin caprichou na quantidade de tintos.
Mas, para sua surpresa, os brancos se destacaram bastante e os franceses revelaram preferências inesperadas. "Não foram os vinhos mais caros que fizeram sucesso. Alguns rótulos de entrada encantaram os degustadores", conta ele.
Radicado em São Paulo, Mathurin construiu sua reputação na cena gastronômica da cidade antes de se aventurar no mundo da exportação de vinhos.
À frente do Esther Rooftop, ele vinha observando a evolução da vitivinicultura brasileira e apostando em rótulos nacionais em sua carta. Foi essa vivência que o convenceu de que os vinhos brasileiros tinham potencial para surpreender até mesmo o paladar francês - desde que chegassem às mãos certas.
O projeto Vin du Brésil nasceu justamente dessa convicção. Os sócios da empresa estruturaram uma operação que vai além da simples exportação: o trio quer posicionar os vinhos brasileiros no segmento premium do mercado europeu, priorizando restaurantes de alta gastronomia e wine bars especializados.
A estratégia deu certo logo nas primeiras degustações em Paris, onde sommeliers e profissionais do setor se mostraram interessados pela oferta brasileira. O primeiro lote de exportação, que deve embarcar ainda em fevereiro, reúne 12 rótulos de seis produtores. As garrafas custarão entre 15 e 50 euros no varejo local.
"No meio do ano, vamos promover outras degustações por lá, já adaptadas ao consumo de verão. E queremos expandir o projeto para a Itália, a Bélgica e a Suíça", diz Mathurin.
Identidade brasileira
Todos os vinhos selecionados estão à venda no Brasil. Mas, pelo porte das vinícolas, não chegam aos grandes varejistas - as lojas online dos produtores são o canal de vendas.
O que une as seis vinícolas-boutique é justamente a busca por uma identidade brasileira autêntica, seja por meio de técnicas inovadoras, terroirs específicos ou experimentação com leveduras e madeiras nativas.
Em Tuiuty, distrito de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, o enólogo Giovanni Ferrari produz 50 mil garrafas anuais na vinícola ArteViva. A identidade de seus vinhos vem das barricas de madeiras brasileiras: jequitibá-rosa, grápia, castanheira, cabreúva, bálsamo e amburana.
"Elas agregam especiarias e um conjunto de taninos que o carvalho não consegue aportar, trazendo uma assinatura que nenhum outro vinho do mundo tem", diz Ferrari.
Dois brancos varietais da linha Sinônimos estão com passagem comprada para a França: o Riesling (R$ 96), cujas notas de grelhado lembram champanhes, na opinião do produtor, e o Sauvignon Blanc (R$ 96), um vinho que ele associa ao estilo do Velho Mundo.
Pioneiros da dupla poda mineira
A técnica da dupla poda, que permite produzir vinhos de inverno em regiões tropicais, é o grande diferencial das vinícolas mineiras selecionadas. A Estrada Real, fundada por Murillo de Albuquerque Regina, criador da técnica, é a de maior em volume entre as escolhidas: produz entre 80 e 100 mil garrafas anuais.
Pedro Olavo, filho de Murillo, conta que os dois vinhos selecionados pelo Vin du Brésil são os que melhor representam o pioneirismo da vinícola: o clássico Primeira Estrada Syrah (R$ 165), saído do primeiro vinhedo de dupla poda do Brasil, na cidade mineira de Três Corações, e o Primeira Estrada Sauvignon Blanc (R$ 170), cujas uvas são cultivadas em São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais, a 900 metros de altitude.
Também de São Gonçalo do Sapucaí, a vinícola Barbara Eliodora apostou na mesma técnica. Ex-produtor de grãos, Guilherme Bernardes Filho trocou a lavoura pelas uvas onze anos atrás. Com 18 hectares plantados, vinifica de 35 a 40 mil garrafas anuais, mas prevê chegar às 50 mil na safra em 2026.
O projeto Vin du Brésil selecionou dois rótulos de Syrah: o Léger (R$ 142), sem estágio em madeira, para ser bebido gelado, entre 14ºC e 16ºC, e o Clássico (R$ 178), mais complexo e intenso, com notas de especiarias.
Frescor e vibração à moda gaúcha
As vinícolas gaúchas que embarcam para a França apostaram em perfis mais frescos e vibrantes, exatamente o que encantou os degustadores franceses. A Bebber, de Flores da Cunha, surgiu em 2015 quando o casarão do nonno Bebber virou vinícola pelas mãos de seus netos, Felipe e Rafael. A dupla optou por não cultivar uvas, adquirindo as frutas de 20 produtores espalhados por diferentes regiões gaúchas.
Dois rótulos entraram na seleção. O branco Almejo (R$ 79), corte de Chardonnay e Riesling, considerado o vinho de entrada da Bebber, e o tinto Guri Pinot Noir (R$ 139), com seis meses de barrica.
As escolhas surpreenderam os produtores. "Enviamos outros vinhos que vendem bem aqui, mas os franceses preferiram os mais frescos e vibrantes. Para um mercado tão maduro, menos é mais", diz Felipe Bebber.
De Pinto Bandeira, a La Grande Bellezza segue caminho oposto. Há uma década, o casal Rossano Biazus e Cristiana Petriz se instalou na região e pôs-se a plantar uvas. A produção, de apenas 16 mil garrafas por ano, ainda é vinificada em parceiros, porque a vinícola segue em construção.
Os tintos Pipistrello (R$ 235), corte de Merlot, Petit Verdot e Aspirant Bouschet com 12 meses em barrica, e Madame Rara (R$ 235), varietal de Cabernet Franc que estagia 18 meses em barris de carvalho francês, foram os escolhidos. "Nosso estilo é francês, sem excesso de álcool", diz Cristiana.
Fechando a seleção, a Manus Vinhas & Vinhos representa a nova geração da vitivinicultura gaúcha. Instalados em Encruzilhada do Sul, região que vem se destacando na produção de uvas e azeitonas, os irmãos Gustavo, Francisco e Diego Bertolini vinificam de 10 a 15 mil garrafas anuais com foco em vinhos de mínima intervenção.
A grande aposta da vinícola é o trabalho com leveduras autóctones, que reforçam a identidade autoral de seus vinhos. O espumante Virgo Vermentino Brut (R$ 171) e o branco varietal Liberum Alvarinho (R$ 189,05) são exemplos desse método, sem passagem por barrica. Eles foram os escolhidos para a ida à França.
"A grande inovação deste espumante é a segunda fermentação com as leveduras. Quase ninguém trabalha assim na América do Sul", diz Gustavo.
Para conquistar o exigente mercado francês, os vinhos brasileiros não precisaram enviar um extenso catálogo para o Velho Mundo. Só tiveram de selecionar garrafas com a legítima assinatura do terroir brasileiro.