Na lousa de uma das classes do Instituto Apontar, no Rio de Janeiro, a data do dia está escrita assim: “Rio, √484/125 ÷ 25 /45² + 1”. Sorte daqueles que conseguem decifrá-la — embora a maioria dos alunos daquela turma faça isso sem maiores dificuldades.
Localizado no bairro da Lapa, o Apontar é uma organização sem fins lucrativos com mais de 50 anos de história, 20 deles dedicados a identificar e apoiar alunos com altas habilidades nas áreas acadêmica, cultural e psicossocial. Cada estudante recebe nove horas semanais de aulas de matemática, português e redação, além de participar de visitas a museus e instituições culturais.
A realidade dessas crianças e adolescentes é uma exceção no Brasil — um país que não sabe ao certo quantos eles são e onde faltam políticas públicas para desenvolver seu potencial. Sem a identificação e o suporte adequados, a alta habilidade pode deixar de ser uma oportunidade para se tornar uma vulnerabilidade.
Com 50 profissionais e o apoio de parceiros privados e institucionais como Stone, Brookfield, Fundação Behring, Vinci Compass e Occam, o instituto atende cerca de mil alunos em 30 polos, distribuídos entre a sede da ONG, instituições públicas e escolas particulares parceiras.
“Nosso maior objetivo é transformar esse sistema em uma política pública para que qualquer secretaria de Educação possa adotar”, afirma Ana Cecília Melo, diretora-presidente do instituto, ao NeoFeed.
O cuidado do Apontar se estende à família. Desde o ingresso no programa, a criança e seus responsáveis são acompanhados por uma psicóloga e uma assistente social — o que inclui visitas domiciliares, quando necessário.
“O acompanhamento é preventivo, mas também ativo”, diz Cecília. “Existem questões de raça e gênero, além das relacionadas às altas habilidades. Procuramos estar junto da família de forma integral.”
E as histórias de sucesso não são poucas. Entre elas está a de Wellington Vitorino, que fez MBA no MIT, em Boston, e fundou o Instituto Four e o Programa ProLíder. Ou a de Clara Mariano, bolsista de Relações Internacionais na PUC-Rio que fez intercâmbio na Sciences Po, em Paris. E a de Matheus Motta, morador da Maré que conquistou a graduação e o mestrado em Estudos Internacionais na Universidade de Tóquio.
Ana Cecília comemora o trabalho recente em Resende, no interior do Rio, onde o Apontar mapeou todos os alunos do ensino fundamental II da rede municipal e identificou 120 estudantes com altas habilidades. Destes, 60 foram convidados a participar do programa da instituição.
“A ideia é sempre provocá-los a pensar em temas que não pensariam ou às quais não teriam acesso na escola regular. O aluno pode estudar biologia, por exemplo, por meio da ciência forense”, explica ela.
O cérebro das pessoas com altas habilidades processa as informações em velocidade acelerada. “São motores de Ferrari”, comparou o psicólogo e pesquisador João Batista Araújo e Oliveira, no lançamento de seu livro Inteligência — O Ativo Estratégico Que o Brasil Não Pode Desperdiçar, recentemente no Rio.
“Dado que a média normal de QI é de 90 a 110, elas estão acima de 120. São capazes de associar muitos dados simultaneamente e aprofundar o conhecimento. Essa é a grande característica.”
Para ele, investir no desenvolvimento dessas crianças produz retornos econômicos e sociais elevados. Como aponta no livro, a negligência tem um custo invisível, mas real: “Manifesta-se de forma silenciosa: inovações que não ocorreram, pesquisas não conduzidas, soluções tecnológicas não desenvolvidas”. Todos perdem; o país perde.
A tríade de ouro
E, “para alimentar essa Ferrari”, ele diz, é preciso três mecanismos associados — a “tríade de ouro”. O primeiro é o tempo: “Quem aprende com rapidez, fica impaciente em uma sala de aula estruturada para o aluno médio. Enquanto os demais precisam fazer dez exercícios para aprender uma questão, ele precisa de um. Por isso, fica absolutamente desmotivado”.
A segunda, é entender que o aluno com superdotação aprende em profundidade: “Isso não significa pular de série ou acelerar. Mas associar ideias e ir a fundo em cada tema”. Em uma aula sobre temperatura, por exemplo, o professor pode conectar ciências, geografia e matemática ao ensinar Celsius, Fahrenheit e a conversão entre as escalas.
A terceira é crucial: começar cedo. Sem desafios, esses alunos tiram notas boas sem se esforçar, desenvolver disciplina ou lidar com frustrações. O problema estoura no ensino médio, quando a exigência sobe e a falta de resiliência pode levar a dificuldades acadêmicas e até à depressão.
Ao contrário de Oliveira, Ana Cecília não acredita em escolas especiais, preferindo seguir a filosofia do americano Joseph Renzulli, da Universidade de Connecticut: “A maré alta eleva todos os barcos”. Ou seja, um aluno com altas habilidades puxa todos para cima em sala de aula.
“O professor precisa saber conduzir a aula para que ela não gire só em torno desse aluno, mas sem podá-lo com frases como ‘você já perguntou demais’”, alerta Ana Cecília. “Saber ouvi-lo e usar as estratégias certas já resolve grande parte do problema.”
Segundo Cecília, diretores e professores relatam que, após o atendimento no contraturno, o aluno “sossega em sala”. No Apontar, ele ganha espaço para suas dúvidas e entende que não precisa monopolizar a aula.
Lá fora
Oliveira afirma que países industrializados — especialmente os asiáticos e, com exceção dos Estados Unidos — mantêm redes públicas de ensino de qualidade uniforme, garantindo desafios adequados até para os alunos medianos, ao contrário do Brasil.
Ele cita o exemplo de Israel, onde jovens talentos são identificados cedo e passam metade do dia em centros ligados a universidades, inclusive nas férias. Com 10 milhões de habitantes, o país já soma 14 prêmios Nobel, o maior número per capita mundial.
Para comparar o Brasil com o mundo, Oliveira recorre ao Pisa — avaliação da OCDE que mede o conhecimento de alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências.
A média nos países industrializados é de 500 pontos, enquanto o Brasil não passa dos 485 — na rede pública, em matemática, fica abaixo de 400. Ele alerta para a estagnação do resultado e sugere que o Enem foca no formato da prova, sem assegurar o aprendizado real.
No topo do desempenho (acima de 600 pontos), o abismo se repete: países asiáticos chegam a 15% (Cingapura a 19%), enquanto o Brasil tem apenas 4% — sendo só 0,9% na rede pública. “Mesmo as elites brasileiras têm desempenho modesto nos padrões globais”, lamenta.
Em tempo: a data mencionada no início desta reportagem é 22 de maio de 2026.