Havana — Em San Antonio de los Baños, a cerca de 40 quilômetros da capital cubana, a Escuela Internacional de Cine y Televisión (Eictv) vive hoje um dos momentos mais delicados de sua história. Fundada em 1986, a escola tenta preservar seu funcionamento em meio ao agravamento da crise econômica que assola o país.

Considerada fundamental para o desenvolvimento do audiovisual latino-americano, a instituição enfrenta a redução do apoio cultural internacional e está sujeita às dificuldades estruturais que atingem praticamente todos os setores da ilha — o que, segundo a diretora Susana Molina, impacta diretamente o cotidiano da Eictv.

“A inflação e a falta de acesso a moedas estrangeiras, fundamentais para importações em Cuba, encarecem a alimentação, o transporte e os serviços básicos para estudantes e professores”, diz ela, em conversa com o NeoFeed. “Os cortes de eletricidade e a crise energética afetam oficinas e filmagens, e a dificuldade para importar equipamentos tecnológicos limita a atualização dos recursos pedagógicos.”

As mensalidades de cerca de R$ 3 mil pagas por cerca de uma centena de alunos cobrem apenas 30% dos gastos da escola. O restante vem de oficinas, mestrados, workshops, convênios internacionais, projetos de cooperação, doações de fundações culturais europeias e latino-americanas e apoio institucional cubano.

Segundo Molina, além das dificuldades econômicas, as mudanças políticas na América Latina também enfraqueceram o apoio histórico à instituição. No auge dos governos progressistas na região, entre meados dos anos 2000 e o início dos anos 2010, especialmente entre 2005 e 2012, a Eictv era vista como símbolo de integração cultural latino-americana e resistência artística.

Hoje, embora continue respeitada internacionalmente, sua influência deixou de ocupar um papel estratégico para muitos governos.

Ainda assim, a escola insiste em preservar o projeto concebido há quase quatro décadas por Gabriel García Márquez, Fernando Birri e Julio García Espinosa: criar um espaço multicultural voltado à formação de cineastas do Sul Global.

"Favela cultural"

Cercada por árvores, construções simples e áreas abertas, a escola funciona longe do padrão universitário tradicional. Entre salas de aula, alojamentos e áreas de convivência, diferentes idiomas se misturam enquanto o cinema atravessa praticamente todas as conversas. “Aqui é uma comunidade, uma ‘favela cultural’”, define Molina.

A atmosfera informal contrasta com o peso histórico da instituição, criada em meio à efervescência cultural do Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, nos anos 1980. Naquele momento, cineastas da região discutiam a ausência de estrutura capaz de sustentar uma produção audiovisual própria no continente.

“Nas reuniões do festival sempre aparecia o mesmo tema: precisávamos formar nossos próprios técnicos e cineastas”, lembra o ex-diretor-geral Jerónimo Labrada, ao NeoFeed.

A ideia ganhou força após uma provocação feita por Fidel Castro aos participantes do encontro: “O que mais podemos fazer pelo cinema latino-americano?”. A resposta veio quase imediatamente: criar uma escola.

Em 1985, foi lançada a Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano, presidida por Gabriel García Márquez. Um ano depois, a EICTV foi inaugurada em Cuba. “Foi tudo muito rápido. "Dizem que alguns prédios foram construídos em 15 dias, trabalhando dia e noite", conta Labrada.

Apesar do apoio estatal cubano desde sua criação, a escola preserva certa autonomia em relação ao governo. “A escola é absolutamente independente do Estado cubano, ainda que ele seja o principal colaborador”, afirma Labrada. “Ninguém vem aqui dizer o que devemos ensinar.”

Segundo a direção, o modelo financeiro funciona dividido entre uma estrutura cubana — responsável por alimentação, manutenção e mobilidade — e uma estrutura internacional, que ajuda na captação de tecnologia, doações e projetos culturais.

A Eictv fica a cerca de 40 quilômetros de Havana (Foto: EICTV)

Fundada em 1986, a Eictv nasceu de uma provocação de Fidel Castro (no centro) e foi idealizada por intelectuais latino-americanos, como o escritor colombiano Gabriel Garcia Marques (à esquerda) e o cineasta argentino Fernando Birri (Foto: eictv.org)

Com a crise, há dificuldade para importação de equipamentos (Foto: EICTV)

Os alunos moram na instituição (Foto: EICTV)

A escola recebe alunos do mundo inteiro (Foto: EICTV)

Mesmo em meio às limitações materiais, a Eictv continua recebendo estudantes de diferentes partes do mundo e mantendo um corpo docente majoritariamente internacional. “Só cerca de 20% dos professores são cubanos. "O restante vem de qualquer lugar", orgulha-se Labrada.

Nos corredores, o espanhol predomina, mas convive naturalmente com português, inglês e outras línguas trazidas pelos alunos. A escola já recebeu alunos do Vietnã, países africanos, Austrália e diferentes regiões da América Latina, em um ambiente marcado pela convivência entre culturas, religiões e identidades distintas.

O modelo pedagógico segue baseado na prática. “O nosso modelo é aprender fazendo”, afirma Molina. “Mesmo as disciplinas teóricas terminam em exercícios práticos.” As oficinas se renovam constantemente, sempre conduzidas por profissionais em atividade.

Ao longo dos três anos do curso regular, os estudantes passam por diferentes funções até desenvolverem uma linguagem própria, em uma formação cada vez mais voltada ao cinema de autor.

Em quase quatro décadas, a Eictv formou profissionais que hoje atuam em festivais, produtoras e projetos audiovisuais em diversos países. Para a direção, esse legado mantém a relevância da escola mesmo em um contexto menos favorável.

A presença brasileira segue sendo uma das mais fortes dentro da escola, tanto entre estudantes quanto entre professores. Entre eles está Ailton Jesus, cearense e aluno do último ano do curso regular. Ao analisar o cenário artístico brasileiro, ele descreve um ambiente cada vez mais competitivo para quem deseja viver da arte.

“Eu sinto que as práticas artísticas no Brasil ficaram cada vez mais complexas. Existem oportunidades, mas também há muita gente disputando espaço”, afirma ao NeoFeed.

Mesmo em meio à crise cubana, a Eictv tenta preservar aquilo que a transformou em referência internacional: a convivência intensa entre artistas de diferentes países e a ideia de que o cinema ainda pode funcionar como ferramenta de pensamento crítico e integração cultural latino-americana.

Ao circular pelo campus, entre câmeras, roteiros e conversas sob as árvores, a sensação é de que a escola continua resistindo também como símbolo de permanência cultural em um país marcado pela crise.

Questionado sobre qual mensagem deixaria para jovens que desejam seguir no universo cinematográfico, Labrada sorri: “Mucha suerte”.