Uma coalizão de empresários, advogados e gestores do mercado financeiro, reunidos no Convergência Brasil, criou um projeto econômico-social que prevê aportes anuais do governo, investidos em ações, para todo brasileiro entre o nascimento e os 18 anos.

O grupo, que se apresenta como apartidário, foi criado há seis anos, durante a pandemia, com o objetivo de buscar pautas que — como seu nome sugere — consigam convergir diferentes espectros políticos.

Entre os nomes que participam da organização estão Jayme Garfinkel, Jorge Gerdau, Paulo Hartung, Wilson Ferreira, Roberto Rodrigues, Fabio Barbosa, Alvaro de Souza, Carlos Kawall e Luciano Timm, hoje presidente do Convergência Brasil.

O criador do projeto foi Luís Felipe Teixeira do Amaral, fundador da Drýs Capital e que há décadas faz gestão de ações no mercado brasileiro. Em entrevista ao NeoFeed, ele conta que o projeto foi inspirado no Invest America Act — programa que o governo dos Estados Unidos transformou em lei em 2025.

O programa americano que serviu de inspiração foi batizado pela imprensa de "Trump Accounts" — o que, segundo o próprio Amaral, não ajuda no intuito de unir a esquerda e direita brasileira em torno do projeto. “Mas a ideia foi preservada”, afirma.

Nos Estados Unidos, porém, pesquisadores como Ray Boshara, do Center for Social Development da Washington University em St. Louis, afirmam que a ideia de contas de poupança infantil "há muito tempo tem apoio bipartidário" nos Estados Unidos.

Embora tenha levado o nome do presidente, a estrutura do projeto americano também surgiu a partir de iniciativas independentes que foram em busca de apoio político. O idealizador foi Brad Gerstner, fundador e CEO da gestora Altimeter Capital, que passou a defender publicamente a ideia de uma conta de investimento para cada bebê americano a partir de 2020.

Gerstner criou a Invest America Foundation para dar tração ao projeto. Segundo o site da organização, o senador Ted Cruz — autor formal do texto — chegou a dizer, em evento na Casa Branca, que a lei não existiria sem "a visão, a execução e o empenho incansável" do gestor.

No Brasil, o projeto nasce como Conta Convergência e está em busca de potencial apoio durante as eleições deste ano. Segundo Amaral, a intenção é levar o tema a candidatos de diferentes partidos e medir a adesão de cada um à proposta.

"Seria muito legal se a gente conseguisse colocar isso no debate dos candidatos, levar  para todos, independente de partido, e entender quem apoia", afirma Amaral. Foi ele próprio quem assumiu a tarefa de formatar a proposta e levá-la adiante dentro do grupo.

Liberado aos 18

A ideia é que cada brasileiro chegue aos 18 anos com cerca de R$ 22,5 mil. Desse total, os aportes anuais decrescentes do governo somariam R$ 9,5 mil por pessoa, enquanto o restante seria obtido a partir do rendimento no mercado de ações ao longo do período.

Todo o investimento seria alocado em fundos de índice que replicam o mercado acionário brasileiro — sem que o governo escolha empresas específicas.

Para chegar a esses valores, o paper que fundamenta a proposta considerou um retorno real de 7% ao ano. O material também testa uma hipótese mais conservadora, de 5% — que reduziria o saldo aos 18 anos para cerca de R$ 17,5 mil. E outra mais otimista,  de 10% — que elevaria o valor a cerca de R$ 32,7 mil.

A projeção se baseia no retorno histórico real do Ibovespa, que soma cerca de 6% a 7% ao ano nas últimas décadas — período marcado por volatilidade alta e longas fases de estagnação, como entre 2010 e 2015.

"É um projeto que poderia reverter esse discurso de separação e alinhar as pessoas ao bom funcionamento da economia e à criação de riqueza pelas empresas. A maneira de fazer isso é tornar as pessoas participantes, torná-las investidoras desde o início", diz Amaral.

O projeto prevê que, ao completar 18 anos, o titular possa sacar os recursos para três finalidades específicas: custeio de educação técnica ou superior, entrada na casa própria ou abertura de um negócio.

Quem preferir manter o dinheiro investido pode esperar até os 30 anos — quando, mesmo sem novos aportes do governo desde os 18, a previsão é de que o saldo já esteja em cerca de R$ 50,7 mil, puxado pelo mesmo efeito de juros compostos. A partir dessa idade, o saque passa a ser livre, sem vinculação a nenhuma finalidade específica.

Os custos totais do programa dependeriam da taxa de natalidade e se tornariam cada vez maiores até atingir a maturidade plena, em 18 anos. A projeção é de que, nesse momento, os gastos para o orçamento sejam de R$ 22,8 bilhões ao ano — equivalente a cerca de 0,2% do PIB e a 0,35% do total do Orçamento de 2026, de R$ 6,54 trilhões.

Uma forma de equalizar esse custo adicional sugerida pelo programa é compensá-lo com uma redução de despesa em outra ponta do orçamento — no caso, a Previdência, hoje o maior item de gasto da União. A proposta é postergar gradualmente a idade mínima de aposentadoria em dois meses por ano, ao longo de 18 anos, até acumular um avanço de três anos.

Pelo cálculo do próprio grupo, essa medida seria suficiente, sob condições específicas de ritmo e alcance, para neutralizar o custo fiscal da Conta Convergência no longo prazo. Mas, diferente da criação das contas em si, esse mecanismo de compensação exige uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), já que mexe em idades mínimas fixadas pela reforma da Previdência de 2019.

Apesar do sonho de tornar a iniciativa uma realidade, Amaral admite que "o desafio será gigantesco": "Temos de tornar esse projeto conhecido pela sociedade civil como um todo para ter apoio. Só assim vamos conseguir empurrar essa pauta para os políticos".