A Strategy informou na segunda-feira, 20 de julho, ter levantado mais de US$ 263,5 milhões por meio da venda de ações ordinárias (MSTR). Entre 13 e 19 de julho, foram vendidas 2.732.318 ações Classe A, segundo Form 8-K arquivado junto à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos.

A empresa comandada por Michael Saylor mantém um programa de venda contínua de ações no mercado — o chamado ATM ("at-the-market") —, por meio do qual coloca papéis aos poucos, a preço de mercado, sem uma oferta pontual fechada com bancos. Na semana anterior (6 a 12 de julho), a companhia já havia levantado US$ 466,7 milhões com a venda de 4,8 milhões de ações.

Nas últimas duas semanas, a MSTR oscilou entre US$ 94,88 e US$ 101,95, mais de 15% acima da mínima em dois anos, registrada em meados de junho, quando a Strategy anunciou suas primeiras vendas de bitcoin, levantando questionamentos sobre uma possível mudança de postura da empresa nesse mercado.

Apesar da recuperação, as ações, negociadas a cerca de US$ 96, na manhã de 20 de julho, ainda acumulam queda de 82% em relação à máxima histórica de US$ 543, alcançada em novembro de 2024.

Com a justificativa de que a criptomoeda seria uma melhor reserva de valor que o dólar por ter um número de emissões pré-definido, a Strategy passou a comprar bitcoin em 2020, tornando-se referência para dezenas de empresas listadas que voltaram suas atividades para o acúmulo de moedas digitais, como a Méliuz, no Brasil.

A seca de aquisições da Strategy coincide com o lançamento de sua maior reformulação de política de capital em anos, anunciada em 29 de junho.

Batizado de "Digital Credit Capital Framework", o pacote de medidas nasceu de um aperto de liquidez. Em maio, a Strategy usou boa parte de sua reserva em dólar para recomprar US$ 1,5 bilhão em notas conversíveis, e o caixa da empresa caiu para US$ 871 milhões — o equivalente a apenas seis meses de cobertura do cerca de US$ 1,76 bilhão que a companhia precisa pagar por ano em dividendos de ações preferenciais e juros de dívida.

Desde o lançamento do framework, a Strategy já vendeu 3.588 bitcoins, por cerca de US$ 216 milhões — a maior venda do ativo já realizada pela companhia. No mesmo período, a empresa levantou outros US$ 730,2 milhões com a venda de ações ordinárias via ATM, elevando a reserva em dólar da companhia para US$ 3,225 bilhões, mais que o triplo do nível registrado há cerca de dois meses.

Além das ações ordinárias emitidas para levantar capital, a companhia também mantém quatro séries de ações preferenciais no mercado. Três delas têm dividendo fixo: STRF, STRD e STRK, que pagam, respectivamente, 10%, 10% e 8% ao ano sobre o valor de face de US$ 100 por ação. A quarta, a STRC ("Stretch"), tem dividendo variável — e é justamente essa que vem sendo usada pela empresa como termômetro de estresse no mercado.

Como parte do framework de 29 de junho, a Strategy elevou a taxa de dividendo da STRC de 11,5% para 12% ao ano. Em comunicado, a empresa afirmou que a mudança busca aproximar o preço do papel de volta à faixa de US$ 99 a US$ 100 — próximo ao valor de face —, já que a STRC vinha sendo negociada abaixo desse patamar.

A companhia disse ainda que passará a reavaliar essa taxa mensalmente, considerando fatores como o preço de negociação da própria STRC, spreads de crédito, o preço e a volatilidade do bitcoin e a cobertura da reserva em dólar. Também fez questão de ressaltar que o aumento não é automático nem garantido, já que os dividendos das preferenciais dependem sempre de declaração do conselho.

Dias antes do anúncio do framework e da revisão da taxa de dividendo, a STRC chegou a ser negociada na mínima histórica de US$ 71,25, em 26 de junho. O papel, desde então, vem recuperando parte das perdas, mas, sendo negociado próximo de US$ 88 nesta segunda-feira, ainda segue distante do valor de face de US$ 100 que a companhia diz perseguir como objetivo.

Nesta segunda, as ações da companhia são negociadas em alta, com a STRC chegando a subir mais de 3%, enquanto as ações ordinárias avançam mais de 5% na máxima intradia. Com a valorização do dia somada às novas emissões, a Strategy afirma em seu site ter elevado seu valor de mercado para cerca de US$ 37 bilhões — patamar ainda 31% abaixo do valor de suas reservas em bitcoin.

Se, por um lado, as novas emissões representam diluição da base de acionistas, por outro, mostram a capacidade da companhia de levantar recursos, ainda que numa relação desfavorável frente ao valor de suas reservas em bitcoin.

Com dólares suficientes para cobrir os pagamentos de curto prazo, a preocupação com a necessidade de vender mais criptomoedas diminui e, consequentemente, também as incertezas relacionadas à potencial pressão vendedora da companhia nesse mercado. Nesta segunda, o bitcoin sobe cerca de 1%, sendo negociado ao redor de US$ 65,4 mil, reduzindo a perda acumulada no ano para 30%.

O patamar atual segue abaixo do preço médio pago pela Strategy por seus bitcoins, de US$ 75.476. Com 843.775 bitcoins em estoque, até agora, a estratégia da companhia resultou em prejuízo de cerca de US$ 8,5 bilhões.

A reserva é cerca de vinte vezes maior que a segunda maior tesouraria de bitcoin, da Twenty One Capital, e equivalente a 4% do volume total já emitido da criptomoeda.