Em tempos de consumidores ávidos por tudo o que é “natural”, “ancestral” e “puro”, alguns vinicultores voltam aos primórdios da bebida, cerca de oito mil anos atrás, e substituem os barris de carvalho por tonéis de cerâmica. O movimento ainda é pequeno, mas ascendente: vinícolas da França, Itália e Chile estão adotando o “velho-novo” estilo de produção.

Em Vosne-Romanée, na Borgonha, a Domaine Arnoux-Lachaux, fundada em 1858, adotou a cerâmica há três anos. O enólogo Charles Lachaux, sexta geração da família, fala da mudança com o entusiasmo de um recém-convertido. “Não queríamos que nada exógeno às uvas fosse expresso na bebida”, diz, em entrevista ao NeoFeed. O resultado, segundo ele, são vinhos mais frescos, enérgicos e precisos. “Brutos”, resume, com certa satisfação.

A mudança, diz Lachaux, é nítida. Antes, os vinhos poderiam ser descritos como pesados e até muito maduros, com notas de frutas vermelhas e textura de quase geleia — características associadas à madeira dos barris. Hoje, eles estão mais leves, revelando todas as nuances das uvas e de seu terroir.

Deu tão certo que a vinícola francesa, dedicada aos chamados vinhos especiais, agora só utiliza recipientes de cerâmica para os 16 rótulos produzidos na propriedade, incluindo um regional, seis de denominação de origem controlada, cinco Premier Crus e quatro Grand Crus. De 400 a 650 litros cada uma, todas as pipas foram fabricadas na Itália pela Clayver, uma das principais marcas de barris de cerâmica.

Como a Arnoux-Lachaux, as vinícolas italiana Planeta, na Sicília, e na espanhola Cuevas de Arom, em Saragoça, também aderiram à cerâmica. Na espanhola, ela é utilizada em todo o processo de vinificação — da fermentação ao envelhecimento.

“Isso nos ajuda a preservar o frescor, estabilizar a cor naturalmente e obter uma textura mais firme e refinada, mantendo a pureza do perfil aromático do vinho”, diz Fernando Mora, cofundador da vinícola, à plataforma Robb Report, especializada na cobertura do mercado de luxo.

O uso crescente da cerâmica não condena a madeira ao ostracismo. O uso de barris de carvalho, por exemplo, confere aromas, sabores e textura específicos à bebida, provenientes de compostos intrínsecos da madeira e do processo de fabricação do tonel, sobretudo da queima da madeira — a tosta, no jargão dos enófilos e enólogos.

Um vinho envelhecido em carvalho, por exemplo, pode ter um perfil mais complexo, com notas de especiarias, como baunilha e cravo, coco, café, chocolate, avelã… até toques de defumado, entre muitos outros. Tudo depende da espécie e da idade da madeira e do nível da tosta. E essas características são bem-vindas para muitos produtores e consumidores.

Muitas vinícolas, como a francesa Domaine Frey, também na Borgonha, recorrem ao envelhecimento híbrido — uma parte do tempo em barris de carvalho e a outra, em recipientes de cerâmica.

Influência celta

Historicamente, os romanos começaram a substituir as ânforas de barro para armazenar o vinho entre os séculos 3 e 5, inspirados pelos celtas, que usavam barris de madeira para transportar cerveja. Os tonéis de carvalho eram mais leves e resistentes, mais fáceis de selar e reparar e aguentavam melhor longas distâncias.

A redescoberta das barricas de cerâmica só foi possível graças aos avanços da engenharia de materiais. Durante séculos, a cerâmica tradicional era porosa demais, instável em grandes volumes e difícil de controlar em termos de micro-oxigenação, um processo fundamental para a qualidade do vinho.

A Miolo decidiu utilizar os ovos de concreto em busca de vinhos mais sedosos e florais (Foto: Divulgação/Miolo)

Com essa técnica, a vinícola desenvolveu a linha Miolo Giuseppe, que remete às raízes do fundador (Foto: Divulgação/Miolo)

A italiana Clayver é uma das pioneiras na fabricação de barris de cerâmica (Foto: Divulgação)

A produção da Arnoux-Lachaux de vinhos envelhecidos em cerâmica soma 16 rótulos (Foto: Divulgação)

A partir dos anos 2000, graças à combinação de técnicas ancestrais com pesquisa industrial, foi possível desenvolver compostos cerâmicos de alta densidade, capazes de suportar pressão, temperatura e longos períodos de contato com a bebida.

Naturalmente, os barris de madeira ainda lideram o mercado global, estimado em quase US$ 1,3 bilhão em 2025, pela consultoria Research and Markets. Não há dados consolidados sobre o movimento dos recipientes de cerâmica, mas o desempenho da Clayver dá pistas sobre o segmento.

O faturamento da empresa passou de € 1,89 milhão em 2023 para cerca de € 2,06 milhões em 2024, um crescimento de 9% — ritmo semelhante aos 8,6% de taxa de aumento anual composta projetados para todo o setor até 20235.

Os "ovos" de concreto

No Brasil, o uso dos tonéis de cerâmica ainda não é difundido. Mas, por aqui, os produtores também estão em busca de recipientes inertes, que livrem o vinho da “presença” do carvalho. A Miolo, uma das maiores vinícolas do país, aposta nos “ovos” de concreto.

“Na prática, significa buscar uma integração maior entre textura, pureza aromática e expressão do terroir. Esse formato favorece um movimento natural e constante do líquido, mantendo as borras em suspensão e trazendo mais cremosidade, mineralidade e volume de boca”, diz Adriano Miolo, diretor superintendente da Miolo Wine Group, ao NeoFeed.

“O concreto permite uma micro-oxigenação estável, semelhante à madeira, mas sem transferir aromas de carvalho. Isso entrega vinhos mais precisos, puros e vibrantes, com uma leitura muito fiel da uva e do lugar”, completa.

A técnica é utilizada na linha Miolo Giuseppe, que tem três rótulos e busca retomar as raízes de sua produção.

Como o executivo explica, apesar de a técnica ser antiga, hoje ela ganhou uma nova dimensão com a tecnologia, controle e entendimento do impacto sensorial. Para ele, um movimento que se alinha com o momento do vinho em todo o mundo, um equilíbrio entre a tradição e a inovação.

“O Brasil tem terroirs extremamente diversos, e o concreto se adapta muito bem a estilos que valorizam pureza, mineralidade e precisão. A nossa experiência tem mostrado que é uma ferramenta poderosa para entregar vinhos elegantes, equilibrados e fiéis ao seu lugar de origem”, diz.

Ele pode estar certo. Apesar de o mercado específico de cerâmica e concreto não ter números registrados, o relatório da consultoria Grand View Research sobre vinhos orgânicos mostra o apetite dos consumidores por vinhos mais naturais, de baixa intervenção.

Os vinhos orgânicos movimentaram US$ 11,87 bilhões em 2024 e devem alcançar US$ 21,48 bilhões até 2030, com taxa de crescimento anual de 10,4% até 2030. Uma onda que vai do modo como as uvas são cultivadas ao ambiente onde a bebida é envelhecida.