Houve um tempo em que cruzar as fronteiras deste Brasil continental por via aérea era um privilégio de poucos. Mas um jovem empresário olhou para esse cenário e não viu uma hierarquia social imutável, mas sim uma ineficiência que precisava ser corrigida. Tratava-se de Constantino de Oliveira Júnior, ou simplesmente Junior, como era conhecido.
Ele viu milhões de brasileiros que passavam dias e noites em estradas precárias para abraçar seus entes queridos. Não apenas viu como vivenciou. Afinal, Júnior é um dos filhos de Constantino Oliveira, conhecido como Nenê Constantino, o homem que fundou o grupo Breda, dono de companhias de transporte rodoviário. E, se o pai tinha feito sucesso nas estradas, ele faria o mesmo nos céus.
Ao fundar a Gol Linhas Aéreas em 2001, Júnior não estava apenas construindo uma empresa de transporte; ele estava liderando uma revolução democrática. Ao trazer para a aviação nacional o modelo de “baixos custos / baixas tarifas” ele quebrou as correntes de um setor que teimava em permanecer aferrado à velhas práticas.
Graças à sua visão, o professor de escola, o pequeno comerciante e a família do interior puderam, pela primeira vez, afivelar um cinto de segurança e cruzar o Brasil a doze mil metros de altura. Júnior não vendia apenas passagens; ele vendia inclusão social, vendia tempo e proporcionava reencontros e descobertas.
No início, os concorrentes fizeram troça dele. Wagner Canhedo, da antiga Vasp, na época, chegou a dizer que a Gol era uma aventura. Mas, com o passar do tempo, trataram apressadamente de seguir essa rota. Poucos conseguiram. O modelo Gol passou a prevalecer em toda a indústria da aviação nacional. Era, com perdão do trocadilho, uma viagem sem volta.
A própria Vasp ficou pelo caminho. A Varig, que mandava e desmandava no setor, acabou sendo comprada pela Gol. Apesar do sobrenome e da fortuna familiar, construiu sua própria trajetória de empreendedorismo e inovação. Júnior foi nomeado "Executivo de Valor" repetidas vezes pela crítica econômica, mas nunca se deixou seduzir pelo brilho fútil dos holofotes.
Ele ficava muito mais à vontade no dia a dia das operações. Sua linguagem era a da eficiência e sua bússola era, invariavelmente, a segurança do passageiro e a sustentabilidade do negócio. E não foram poucos os desafios da Gol desde sua fundação. A trajetória da companhia é um retrato de resiliência e adaptação constante.
A Gol enfrentou desafios estruturais, começando pela natureza cíclica da economia nacional e a volatilidade do mercado financeiro. Mas Júnior tinha um plano: uma empresa inovadora, com frota jovem, dirigida por alguns dos mais calejados executivos do setor, como David Barioni e Tarcísio Gargioni.
Foi a primeira empresa aérea no Brasil a abolir as passagens impressas. Conciliava um produto justo, transparente, a uma frota unificada de Boeing 737, quase todos novos de fábrica, com preços muito abaixo daqueles praticados por algumas das congêneres. A ideia, como hoje sabemos, vingou.
A Gol teve outro pioneirismo: foi a primeira empresa aérea no Brasil a realizar o seu IPO (Oferta Pública Inicial) em 24 de junho de 2004. A operação foi histórica para o mercado brasileiro, pois marcou a primeira vez em quatro anos que uma empresa nacional realizou uma listagem simultânea na bolsa brasileira (Bovespa, atual B3) e na bolsa de Nova York (NYSE). Foi um sucesso.
Quando tudo parecia ser um voo em céu de brigadeiro, o destino traçou outro plano de voo para Júnior e para a Gol. O desastre do voo 1907, ocorrido em 29 de setembro de 2006, foi um dos episódios mais trágicos e marcantes da história da aviação brasileira. O acidente envolveu um Boeing 737 e um jato executivo Legacy 600, que colidiram sobre a região de Peixoto de Azevedo, Mato Grosso.
O Boeing se desintegrou e caiu em uma área de floresta densa, resultando na morte de todos os 148 passageiros e seis tripulantes. Júnior teve uma atuação ímpar nos dias após a tragédia: foi para a linha de frente, não fugiu de sua responsabilidade e verteu lágrimas sentidas pela dor dos familiares e amigos das vítimas. Sua atuação diz muito sobre o homem por detrás do dono da companhia aérea.
A partir de 2020, o setor foi atingido pelo impacto devastador da pandemia de COVID-19, que interrompeu o fluxo de caixa e gerou um endividamento que exigiu medidas drásticas. Esse cenário culminou no pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, o Chapter 11, iniciado em 2024.
Este processo levou a Gol a renegociar dívidas bilionárias e a buscar uma integração mais profunda com o Grupo Abra, holding que também controla a Avianca. Além das questões financeiras, a companhia precisou gerenciar a intensa concorrência doméstica, especialmente com a consolidação da Latam e a forte presença da Azul.
Mas o verdadeiro sucesso de Júnior não era medido apenas no desempenho das ações na bolsa, mas em algo que lhe era muito precioso: a lealdade de seus colaboradores, os "Águias". Júnior entendia que um avião é apenas uma estrutura de metal se não tiver alma — e a alma da GOL sempre foi a sua gente.
Ele tratava o mecânico de pista com o mesmo respeito e atenção que dedicava a chefes de Estado, pois sabia que na aviação, assim como na vida, cada peça e cada pessoa são vitais para que o voo seja seguro e o destino alcançado.
Sua passagem foi sentida pelos líderes da indústria. Celso Ferrer, atual presidente da Gol, afirmou ao NeoFeed: “Eu agradeço por ter tido o privilégio de trabalhar 22 anos ao lado do grande homem Constantino Júnior. Apaixonado pela aviação, apaixonado pela sua família, apaixonado pela Gol. O que mais me chama atenção era o seu jeito humilde e a sua capacidade de escutar. Todas as pessoas.”
Paulo Kakinoff, que foi CEO da Gol por uma década e hoje comanda a Porto Seguro, falou com o NeoFeed e disse que “Júnior foi um líder extremamente humano, adorado por todos. Era muito reservado em sua vida familiar, cultivava como ninguém poucas e sólidas amizades”, afirma. “Ele tinha esse dom de saber falar e ouvir, uma empatia natural. Trabalhamos lado a lado por muitos anos. Júnior deixa um vazio enorme. Negócios vem e vão, mas pessoas como ele não têm substituição.”
Leonel Andrade, que estruturou a empresa Smiles, de fidelidade da Gol, e a levou para o IPO, disse que “Júnior foi o executivo mais elegante que conheci na vida. Ele tinha adoração em ver as pessoas se dando bem. Ele vibrava com cada conquista de seus colegas, sempre foi muito leal com todos que o acompanharam desde a fundação da Gol. Adorava dizer que seu maior orgulho era gerar empregos. Ele é uma pessoa que fez o mundo ser um lugar melhor”, diz ao NeoFeed.
Os concorrentes também o admiravam. E um deles reconheceu o seu legado para a aviação nacional. Nas redes sociais, John Rodgerson, CEO da Azul, disse que foi “uma perda para a aviação brasileira. Sua liderança, seu empreendedorismo e o legado pelo setor aéreo jamais serão esquecidos. Graças a ele que milhões de brasileiros puderam voar pela primeira vez.”
Nos últimos anos, Júnior, que tinha 57 anos, enfrentou sua batalha mais difícil e silenciosa: o câncer. Ele enfrentou a enfermidade com a mesma serenidade e discrição com que gerenciava as turbulências do mercado financeiro: com coragem, sem alarde e com uma fé que servia de âncora para todos ao seu redor. Mesmo em seus momentos de maior fragilidade, sua mente continuava traçando rotas e pensando no futuro do Brasil.
*Gianfranco “Panda” Beting é consultor de aviação e Publisher da revista Flap International. Executivo de aviação comercial, foi diretor de marketing da Transbrasil, bem como cofundador da Azul Linhas Aéreas Brasileiras e da Breeze Airways nos Estados Unidos. Palestrante sobre o setor, escreveu dezoito livros sobre aviação.