Pouco mais de três meses depois de celebrar um compromisso vinculante com os acionistas da Natura para montar uma posição no capital da companhia de cosméticos, a gestora americana de private equity Advent começa a cumprir esse acordo em direção às metas estabelecidas entre as duas partes.

A Natura anunciou na manhã desta quinta-feira, 2 de julho, que o Lotus Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, gerido pela Advent, passou a deter 90.676.500 ações da companhia, o equivalente a 6,6% do seu capital social.

Em fato relevante, a empresa informou ainda que o fundo mantém uma posição adicional de 1,4% do capital por meio de operações financeiras derivativas (TRS), o que se traduz em 19.288.800 ações.

Nos termos anunciados em março deste ano, o acordo prevê que a Advent alcance uma participação equivalente a no mínimo 8% e, no máximo, 10% do capital da Natura, em uma operação que deveria ocorrer em até seis meses, ao preço médio-alvo de R$ 9,75 por ação.

Como parte do compromisso, assim que alcançar a fatia mínima prevista, a gestora poderá indicar dois membros adicionais para compor o Conselho de Administração da companhia, além de participar de comitês estratégicos da operação.

A operação com a Advent está condicionada à aprovação em assembleia geral para dispensa da oferta pública de aquisição (OPA), requisito para que o fundo gerido pela gestora possa ampliar sua participação sem a necessidade de lançar uma oferta pública.

Essa entrada da gestora ocorre na esteira de uma reestruturação na governança da empresa, que inclui um novo acordo de acionistas e prevê a transição dos fundadores Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos do board para um novo conselho consultivo, centrado na preservação da cultura do grupo.

Em paralelo ao novo papel do trio, o Conselho de Administração passou a ser composto por novos membros e a ser presidido por Alessandro Carlucci, executivo que já foi CEO da empresa entre 2005 e 2014. E que, desde abril de 2025, ocupa uma cadeira do board.

Entre os novos nomes que passaram a ocupar assentos no colegiado estão indicações do trio fundador, como Guilherme Passos, filho de Pedro Passos; Pedro Villares, do Maraé Investimentos, family office de Guilherme Leal; e Luiz Guerra, do family office de Luiz Seabra.

Todas essas movimentações, por sua vez, foram precedidas por uma ampla estratégia de simplificação do grupo, que, entre diversas etapas, envolveu o desinvestimento em empresas compradas quando o grupo alimentava a ambição de se consolidar como um gigante global de cosméticos.

Após colocar um ponto final nesse sonho, a Natura se desfez de ativos como a The Body Shop e Aesop, além de operações da Avon na Europa, Ásia, África e América Central. E passou a se concentrar em seus negócios na América Latina e na integração da Avon na região.

Essa transição não foi, porém, tranquila. Durante mais de três anos, o grupo se acostumou a conviver com os questionamentos e a desconfiança do mercado, diante da demora em mostrar o resultado desse novo roteiro, o que se refletiu em derrocadas nas suas ações, especialmente a cada balanço trimestral.

Nos números mais recentes dessa trajetória, a Natura registrou um prejuízo líquido de R$ 444,5 milhões no primeiro trimestre de 2026, revertendo o lucro líquido de R$ 96,7 milhões apurado em igual período, um ano antes.

Três meses antes, porém, o grupo deu sinais de que o pior tinha ficado para trás. No balanço do quarto trimestre e do ano consolidado de 2025, a Natura reportou indicadores como um lucro anual de R$ 486 milhões e uma alavancagem de 1,31 vez, contra 7,83 vezes três anos antes, quando iniciou sua reestruturação.

Agora, com o novo papel do trio de fundadores, um conselho renovado e a entrada da Advent, a expectativa é de que a empresa vire definitivamente essa página. E a chegada da gestora americana é um sinal de que as condições para que isso aconteça parecem estar na mesa.

Nessa direção, chama a atenção que a Advent tradicionalmente entra em empresas de capital fechado, para depois levá-las à bolsa e realizar o lucro. Na própria prateleira de cosméticos, a gestora detém participação majoritária na Skala, que se fundiu com a Lola from Rio em junho de 2025.

A empresa também já montou posições em companhias listadas, como Fleury e Yduqs. Mas essa não é sua tese usual. E o fato é que, ao abrir espaço para a Natura em seu portfólio, a gestora provavelmente está enxergando uma potencial valorização nas ações do grupo, especialmente nesse novo momento.

Nessa quinta-feira, por volta das 11 horas as ações da Natura registravam ligeira alta de 0,12%, cotadas a R$ 8,59. Em 2026, os papéis acumulam uma valorização de 15,3%, avaliando a companhia em R$ 11,8 bilhões.