Um bom ponto de entrada para uma boa história. Essa é, em resumo, a justificativa de um relatório enviado a clientes pelo Citi sobre a Motiva nesta segunda-feira, 29 de junho, no qual o banco eleva a recomendação da ação, de neutra para compra, e o preço-alvo, de R$ 15 para R$ 15,60.

As atualizações vêm na esteira da recente movimentação do papel que, desde o pico em 2026, em 17 de abril, registra uma queda de mais de 18%, levando-se em conta o patamar de R$ 14,37 do pregão da sexta-feira, 26 de junho.

“Com a ação sendo negociada a taxa interna de retorno real de 11% em nossas estimativas, consideramos o valuation atual atraente, ao passo que os riscos decorrentes de maior capex e alavancagem parecem estar sob controle”, aponta um dos trechos do relatório, que ressalta os fundamentos sólidos do grupo.

O Citi ressalta que, após a queda recente na cotação das ações, o ajuste de múltiplos levou o valor de mercado da holding de infraestrutura a uma faixa de prêmio de 2,5% a 3% sobre as taxas de juro soberanas reais, ante cerca de 1,5% no início do ano.

“Embora esse patamar seja inferior à média histórica de 4%, consideramos a relação risco-retorno interessante, dado que os riscos percebidos da ação são menores do que historicamente”, escrevem os analistas.

O time do Citi também estima que as prováveis alterações contratuais em concessões da Motiva acrescentem 7,6% ao valor de equity em relação ao valuation atual do banco, uma vez que esses investimentos geram retornos superiores ao custo de capital próprio da empresa.

“A carteira de projetos (backlog) de capex da Motiva deve crescer 18% com essas alterações (ou 30%, se incluirmos a rodovia Regis Bittencourt), elevando a alavancagem e mantendo o capex acima de R$ 10 bilhões por ano pelos próximos quatro anos”, afirma o Citi.

Em contrapartida, o banco entende que a estrutura de capital deve permanecer dentro das metas da empresa. E que os esforços da gestão para fortalecer a capacidade de execução parecem positivos para sustentar investimentos mais elevados.

Como parte dessa visão, o relatório inclui análises de sensibilidade sobre essas alterações contratuais e outros projetos no radar da empresa. Segundo o Citi, à primeira vista, essas frentes parecem positivas e, aparentemente, não estão totalmente precificadas pelo mercado.

Um dos pontos no centro dessas avaliações é o leilão da Regis Bittencourt, que deve ser um dos últimos certames de 2026 envolvendo rodovias com pedágios. O Citi vê a Motiva fazendo uma eventual proposta pelo ativo e traça alguns cenários envolvendo um eventual lance.

Para o banco, apesar dos R$ 7 bilhões previstos em investimentos, concentrados em cinco anos, na rodovia, a geração antecipada de Ebitda e os fortes reajustes tarifários devem aliviar a pressão sobre o balanço para esse projeto.

O Citi observa que o governo projeta uma receita total de R$ 18 bilhões no projeto. E frisa que a rodovia serve como uma rota relevante para o transporte de cargas entre São Paulo e a região Sul, além de registrar um fluxo significativo de carros de passeio e de lazer.

“Se consideramos benefícios de capex semelhantes aos estimados para a rodovia Fernão Dias, haveria margem suficiente para a Motiva apresentar uma proposta conservadora. No entanto, a criação de valor depende significativamente de economias no Capex e na execução”, observam os analistas.

Quanto a possíveis aditivos em suas principais concessões, o banco aponta que o cronograma permanece incerto, especialmente devido às discussões regulatórias em um ano eleitoral. Mas vê maior chance de desdobramentos no curto prazo para as concessões da SPVias, da AutoBAn e das linhas 5 e 17 do Metrô de São Paulo.

No caso das rodovias com pedágio, a estimativa é de um reequilíbrio, principalmente por meio de prorrogações de concessão. Para a SPVias, o banco projeta investimentos de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões, potencialmente compensados por extensões entre 7 e 9,5 anos.

Já na AutoBAn, a estimativa é de um patamar de investimento semelhante, entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões, com prorrogações dos contratos no prazo de 2,5 a 3,5 anos, dependendo do volume da injeção de recursos.

“Quanto à mobilidade (linhas 5 e 17 do Metrô), a atual estrutura de concessão, combinada com investimentos potenciais de até R$ 7 bilhões, torna improvável um reequilíbrio baseado apenas na extensão do prazo”, destaca o banco.

O Citi considera mais plausível uma solução híbrida, com compensação governamental parcial por meio de mecanismos de parceria público-privada. E ressalta que, mesmo assumindo uma extensão máxima de 10 anos, ainda seriam necessários aumentos tarifários substanciais para atingir o custo médio ponderado de capital regulatório.

“Estima-se que cerca de 57% dos investimentos fiquem a cargo da empresa, enquanto os 43% restantes sejam compensados pelo governo”, destaca outro trecho do relatório.

Os analistas afiram que esse cenário inclui uma prorrogação de 10 anos no prazo da concessão, um aumento tarifário de 27,1% e um tráfego incremental de cerca de 50 mil passageiros por dia com as duas estações adicionais, a partir de 2030.

As ações da Motiva registravam alta de 2% por volta das 11h10 na B3, cotadas a R$ 15,06 e avaliando a empresa em R$ 29,7 bilhões. Já levando-se em conta o acumulado de 2026, os papéis tem uma desvalorização de 1,92%.