Gestora americana de private equity, a Advent desembarcou na América Latina há 30 anos. E, desde então, na contramão de muitos de seus pares, seguiu investindo na região, mesmo diante das costumeiras adversidades locais. E a colher frutos dessa aposta.
O exemplo mais recente dessa persistência – e dos retornos gerados por ela – veio de um dos países que mais enfrentaram turbulências nesse intervalo: a Argentina. Em 19 de fevereiro, a gestora anunciou as vendas da Prisma e da Newpay, subsidiárias do Grupo Prisma, de meios de pagamento, para a Visa.
A Advent manteve 100% da Payway, o braço de adquirência da Prisma. Os termos financeiros das duas vendas não foram revelados. Mas o jornal Clarín informou que os ativos foram avaliados em cerca de US$ 1,5 bilhão, numa boa pista da magnitude do acordo.
“O deal provou que nossa tese é muito sólida”, diz Juan Pablo Zucchini, managing partner da Advent, ao NeoFeed. “Temos muito conhecimento local, o que ajuda a nos isolar do momento macro das economias, a focar nos fundamentos do negócio e entender se temos uma grande oportunidade à frente.”
A Prisma ilustra bem a tese da Advent. A gestora assumiu o controle da companhia no início de 2019. Principal player de meios de pagamento da Argentina, a empresa, na época, pertencia aos 14 maiores bancos do país.
Três anos depois, no primeiro trimestre de 2022, a gestora comprou os 49% restantes dessas instituições. Segundo o Clarín, as duas tranches envolveram um aporte de pouco mais de US$ 1 bilhão, valor que não é confirmado por Zucchini.
Ele não esconde, porém, o que chamou a atenção no ativo. A começar pelo setor de atuação – desde 2008, a Advent investiu US$ 9,4 bilhões globalmente em 18 empresas de pagamento. E também pelo peso que a Prisma tinha no mercado local e por sua infraestrutura – com poucos paralelos na região.
“Temos o que chamamos de ‘lista de pérolas’ de companhias na América Latina e a Prisma estava lá”, diz Zucchini. “Havia uma grande oportunidade de criação de valor na companhia. E num setor muito defensivo em relação à inflação e bastante resiliente à volatilidade da economia.”
Uma das questões que marcaram a análise sobre o investimento no grupo foi um estudo com a participação de economistas locais. O tema central? Os ciclos macroeconômicos da Argentina nos 50 anos anteriores.
“Estávamos preparados para os piores cenários. Nada apontava para isso, mas queríamos estar precavidos”, afirma Zucchini. “Naquele momento, tínhamos o governo de Mauricio Macri, a inflação controlada, de cerca de 2% ao mês. Uma inflação ou uma desvalorização elevada da moeda não eram hipóteses.”
O que veio na sequência do primeiro aporte na Prisma fez valer, porém, essa cautela. Impactado por promessas não cumpridas, entre elas, o controle da inflação, que voltou a disparar, Macri foi derrotado por Alberto Fernández, que assumiu a presidência da Argentina no fim de 2019. E o cenário piorou.
“Para se ter uma dimensão, a inflação acumulada entre o nosso primeiro investimento, em 2019, na Prisma, até 2025, foi de 3.515%”, diz Zucchini. “E a desvalorização acumulada da moeda foi de 2.505%.”
Ele ressalta que, nessa trajetória, os capítulos mais duros foram os anos de 2020 a 2022, que combinaram uma inflação elevada, uma desvalorização “violenta” da moeda, o controle de câmbio e o baixo crescimento do PIB argentino. “O ano de 2021 foi o pior da história da Prisma”, afirma.

Entretanto, foi justamente após esse ano “para esquecer” que a Advent decidiu comprar a fatia restante de 49% do grupo. Nesse ponto, Zucchini recorre a investimentos feitos no mercado brasileiro para reforçar a abordagem da gestora.
“Nós investimos, por exemplo, no Grupo CRM, na pandemia, quando a companhia estava machucada”, diz. “São momentos em que muitos investidores estrangeiros hesitariam em fazer o aporte. Justamente por não terem conhecimento local.”
A Advent assumiu o controle do Grupo CRM, dono da Kopenhagen, em 2020. E vendeu a operação três anos depois, em um acordo cujo valor não foi revelado. Mas que foi estimado na época em mais de R$ 4 bilhões.
À parte dos desafios
Já no caso da Prisma, numa trilha para uma venda que, ao que tudo indica, também envolveu uma cifra bilionária, a Advent implantou uma série de medidas para adicionar valor à operação, à parte da inflação galopante e de toda a sorte de intempéries macro em seis anos à frente da companhia.
Esse plano ganhou velocidade, em particular, após a gestora assumir 100% da empresa. E incluiu investimentos em tecnologia, digitalização das ofertas e a criação de uma força de vendas – até então, quem vendia os produtos e serviços do grupo eram os bancos.
O pacote incluiu também o lançamento ou melhoria de produtos – casos das operações de financiamentos para varejistas, na modalidade de descontos de recebíveis. Boa parte dessas iniciativas contou com a participação de consultores da Europa e dos EUA.
Em outra ponta, a Advent concentrou a gestão da operação em um comitê formado por três executivos. Entre eles, o próprio Zucchini, com reuniões semanais para monitorar a evolução do negócio.
A principal medida, porém, foi a separação do grupo em três companhias: a Prisma, de processamento de cartões; a Newpay, de infraestrutura para diversos meios de pagamento; e a Payway, de adquirência e que também opera mais de 7 mil caixas eletrônicos da rede Banelco.
“Com essa separação, conseguíamos cobrar e acompanhar o desenvolvimento de cada negócio independente”, diz. “Nós também entendemos – e isso acabou se provando agora – que estávamos aumentando nossa opcionalidade de venda, com diferentes interessados por cada unidade de negócio.”
Ele destaca alguns indicadores para ressaltar a evolução dessas operações. A Prisma, por exemplo, fechou 2025 com 5 bilhões de transações processadas e a gestão de 75 milhões de cartões. De 2022 ao ano passado, o volume de transações da empresa teve um crescimento composto anual de 13,1%.
Já a Newpay encerrou o ano com 3,4 bilhões de transações processadas e US$ 14 bilhões em pagamentos de contas. O volume de transações de pagamentos instantâneos registrou um avanço composto anual de 61,6% no mesmo período.
“Desde 2022, o Ebitda do grupo multiplicou por quatro”, afirma. A Payway, por sua vez, que segue no portfólio da Advent, alcançou um TPV de US$ 52 bilhões em 2025, por meio de uma base de 370 mil clientes do varejo.
“Hoje, a Payway é uma empresa consolidada e a maior de adquirência na Argentina. Em termos absolutos, essa operação representava cerca da metade do grupo.”, observa. “E ainda enxergamos muita oportunidade nessa operação.”
A Payway é, agora, o único investimento da Advent na Argentina. A perspectiva, porém, é de que esse “elenco” local possa voltar a crescer, muito em função da visão um pouco mais favorável da gestora sobre o governo do atual presidente Javier Milei.
“Ele conseguiu dar uma estabilizada na economia e isso criou um momento positivo de investimento no país”, diz. “Nós não temos uma pré-alocação por mercado, mas passamos a olhar mais intensamente a Argentina do que olhávamos antes, especialmente no setor financeiro, na indústria e em consumo.”