Foi com uma bagagem pesada que a CoreWeave fez o caminho até sua estreia na Nasdaq. De um lado, a oferta pública de ações da empresa carregava uma expectativa elevada de impulsionar a retomada dos IPOs de tecnologia.

Em paralelo, o percurso da companhia americana até sua listagem também estava sendo visto como um grande termômetro para medir o interesse dos investidores nas empresas de inteligência artificial (IA). Especialmente após a chinesa DeepSeek “furar” tal onda com seu modelo, muito mais barato.

No centro dessa trama, a CoreWeave tocou, enfim, a “campainha” na bolsa de valores americana nesta sexta-feira, 28 de março. E a julgar por seus primeiros passos sob os olhares mais atentos do mercado, a empresa não deve entregar tudo o que prometia ao escolher esse destino.

As ações da companhia abriram as negociações na Nasdaq recuando quase 6%. Os sinais se inverteram, porém, na sequência. Por volta das 16h20 (horário local), os papéis registravam ligeira alta de 0,7%, cotados a US$ 40,93, dando à empresa um valor de mercado de mais de US$ 14 bilhões.

Mesmo com essa virada, a trajetória da CoreWeave, até aqui, é decepcionante. Isso porque um dia antes da estreia, que foi ancorada pela Nvidia, uma das vedetes do boom de IA, a empresa já havia tratado de esfriar os ânimos do mercado ao reduzir suas expectativas na oferta.

Na quinta-feira, 27 de março, a CoreWeave anunciou que iria colocar 36,6 milhões de ações no balcão, 23,5% a menos do que planejava orginalmente. E que os papéis seriam precificados a US$ 40, bem abaixo da faixa definida anteriormente, de US$ 47 a US$ 55 por ação.

Com esse downsizing, o IPO resultou numa captação de cerca de US$ 1,5 bilhão, a maior de uma empresa de tecnologia desde a abertura de capital da UiPath, em 2023. O valor ficou abaixo, porém, do objetivo inicial, que apontava para a faixa de US$ 2,3 bilhões a US$ 2,7 bilhões. Assim como o valuation buscado, que, a princípio, era de US$ 32 bilhões.

Segundo a agência Reuters, esse roteiro começou a ser recalculado a partir do roadshow da oferta, iniciado na semana passada e contou com uma recepção mais morna por parte dos investidores, preocupados com o crescimento de longo prazo e o capital intensivo inerente ao modelo da empresa.

Fundada em 2017 a CoreWeave fornece acesso a data center e chips de alta potência para cargas de trabalho de inteligência artificial, fornecidos principalmente pela Nvidia. E tem como seus dois principais clientes a Microsoft e a OpenAI.

A dependência em relação a Microsoft foi justamente um dos pontos levantados pelos investidores, dado que a gigante de Redmond está promovendo mudanças em sua estratégia de data centers para inteligência artificial, o que pode impactar a demanda pelos serviços da companhia no longo prazo.

Há outros pontos de atenção. A CoreWave ainda é deficitária e tinha uma dívida de aproximadamente US$ 8 bilhões em 2024. Em seu prospecto do IPO, a companhia informou que cerca de US$ 1 bilhão captado na oferta seria destinado a melhorar sua estrutura de capital.

Em um contexto mais amplo, que extrapola os limites da empresa, a recepção aquém do esperado dos pode traduzir uma redução da confiança dos investidores no mercado de infraestrutura de inteligência artificial, cujos gastos elevados já haviam sido colocados em xeque pela DeepSeek.

"O modelo de negócios não parece fundamentalmente falho, mas isso sugere que os investidores estão recalibrando as avaliações da infraestrutura de IA", disse Lukas Muehlbauer, analista de pesquisa do IPOX, à Reuters.

O desempenho da CoreWeave em seu primeiro dia como companhia aberta também sugere que a empresa pode não passar no teste para ser o nome capaz de virar a chave da recuperação das ofertas nas bolsas americanas.

Dados da consultoria Dealogic trazem um retrato bem recente do que está em jogo nessa frente no mercado americano de capitais. Foram 187 ofertas até o momento em 2025, contra 243 em igual período de 2024. O valor captado também registrou queda, de US$ 74 bilhões para US$ 63,4 bilhões.