A Decolar realizou no Brasil sua primeira venda agêntica, uma transação em que a inteligência artificial deixou de apenas recomendar produtos e passou a executar praticamente toda a jornada de compra.
Menos de 12 horas depois da ativação do novo recurso, um cliente pediu à SOFIA, agente de inteligência artificial generativa da companhia, sugestões de hospedagem. A ferramenta pesquisou as opções, apresentou as recomendações, conduziu a reserva e disponibilizou um QR Code.
O usuário confirmou o pagamento por Pix e recebeu a reserva sem abandonar a conversa nem acessar o checkout tradicional.
A primeira transação completa é o passo mais recente de uma ferramenta que já ganhou escala dentro da Decolar. Com cerca de 2 milhões de conversas por mês, a SOFIA participa de jornadas associadas a 6,7% do faturamento B2C da companhia.
Agora, a empresa quer transformar essa capacidade de recomendação em execução e fazer da inteligência artificial uma das alavancas da meta de crescer 40% ao ano no Brasil.
À frente dessa ofensiva está Rafaela Rezende, que assumiu o comando da operação brasileira há cerca de três meses, depois de liderar a VTEX no País. Ela chegou com a missão de dar mais autonomia ao negócio local, principal mercado do grupo na América Latina e peça central no plano traçado pela Prosus, que adquiriu a companhia em 2025.
“Para chegar nesse lugar, não dava para continuar fazendo o que fizemos até aqui. O que fizemos foi muito bom, mas, para o novo momento da Decolar, precisamos passar por uma transformação”, afirma Rezende, ao NeoFeed.
A meta colocada na mesa é fazer a operação brasileira contribuir para que o grupo triplique de tamanho até 2030. A Prosus, que pagou US$ 1,7 bilhão pela companhia, tem a ambição de levá-la a uma avaliação de US$ 6 bilhões no fim desta década.
A chegada da executiva também alterou o peso institucional do Brasil dentro do grupo. Antes, o principal responsável pela operação local não integrava o comitê executivo da Despegar, nome utilizado pela companhia nos demais mercados latino-americanos.
Agora, a CEO brasileira participa das decisões do grupo e ganhou mais autonomia para montar equipes, desenvolver parcerias e adaptar a estratégia às características do mercado local.
“Já enxergávamos que o próximo passo seria ter agentes capazes de executar uma venda do início ao fim, trazendo mais segurança para a decisão, reduzindo a fricção na jornada e poupando o tempo do consumidor”, diz a CEO.
Além de concluir compras, a SOFIA permite fazer pesquisas mais abertas. Um consumidor com flexibilidade de datas pode pedir, por exemplo, passagens para a Europa por até R$ 4 mil em qualquer período dentro de determinado intervalo, em vez de testar manualmente diferentes combinações de voos e datas.
A Decolar também prepara sua infraestrutura para permitir que plataformas externas, como o ChatGPT, acessem seus produtos. Assim, mesmo que o viajante não entre diretamente no aplicativo da empresa, poderá encontrar passagens, hotéis ou pacotes por meio de outro agente de IA.
“Ser relevante para um agente é muito diferente de ser relevante para o SEO tradicional do Google. Mesmo que a gente não seja o front direto do consumidor, ele poderá usar outro ambiente para encontrar o que procura”, afirma Rezende.
Para a Decolar, essa mudança cria duas frentes. A primeira é transformar a SOFIA em uma vendedora capaz de acompanhar e concluir toda a jornada dentro dos canais da empresa. A segunda é preparar seu inventário para ser encontrado e comercializado por agentes controlados por outras plataformas.
Pagamento em nome do cliente
Esse movimento faz parte do avanço global do comércio agêntico, no qual a inteligência artificial deixa de ser apenas um complemento ao trabalho do vendedor e passa a administrar a jornada de compra.
Nesse modelo, os agentes podem pesquisar produtos, comparar preços e condições e, em última instância, concluir a transação em nome do consumidor.
No Brasil, o mercado ainda dá os primeiros passos, mas a distância entre os testes e as aplicações comerciais começa a diminuir. Em março, Banco do Brasil e Visa realizaram a primeira transação agêntica do País, ainda em ambiente controlado. Na operação, um agente de inteligência artificial recebeu autorização para efetuar o pagamento em nome do cliente.
O teste faz parte de um movimento mais amplo da Visa. Em abril de 2025, a companhia anunciou o Visa Intelligent Commerce, plataforma criada para conectar agentes de IA à sua rede de pagamentos, com mecanismos de autenticação, proteção e controle de gastos, realizando as primeiras transações desse tipo nos Estados Unidos e na Europa.
No mesmo mês, a Mastercard apresentou o Agent Pay, programa que permite a agentes verificados realizar transações em nome de consumidores e empresas.
“Ainda estamos no começo dessa jornada, mas o intervalo entre teoria e prática está muito curto. Entre o lançamento do primeiro paper sobre pagamento agêntico e a primeira transação, foram apenas nove meses”, afirma Edson Santos, fundador e sócio da Colink Business Consulting e investidor-anjo com mais de 25 anos de experiência em meios de pagamento e serviços financeiros.
A expectativa de Santos é que o comércio agêntico ganhe escala em menos de dois anos, tanto globalmente quanto no Brasil. A avaliação vai ao encontro de projeções internacionais.
O Morgan Stanley estima que compras guiadas por agentes de IA movimentarão entre US$ 190 bilhões e US$ 385 bilhões no varejo online americano até 2030, o equivalente a 10% a 20% do comércio eletrônico dos Estados Unidos.
A McKinsey, por sua vez, calcula que os agentes de IA poderão intermediar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões do consumo global até o fim da década.
Globalmente, modelos B2C baseados em agentes também estão em fase de testes e aprimoramento, especialmente entre as gigantes de tecnologia. Nos Estados Unidos, a Amazon lançou, em abril de 2025, o Buy for Me, solução que permite ao agente encontrar produtos vendidos fora da Amazon e concluir a compra no site da marca em nome do consumidor.
A ferramenta, ainda em fase de testes, também provocou reações. Pequenos negócios disseram ao portal Business Insider, em janeiro deste ano, que foram incluídos no serviço sem consentimento.
Para Santos, o Brasil pode aproveitar a experiência desenvolvida com o Pix para criar um trilho aberto para os pagamentos agênticos, sem deixar essa infraestrutura restrita às redes de cartões.
“Se o regulador abre uma trilha de pagamento para agentes de IA, o pagamento pode ser feito em transações como TED e Pix, e não apenas via cartão. A concorrência aberta diminui a concentração de players”, afirma o especialista.
Ecossistema da Prosus
A aposta no comércio agêntico é uma das frentes do plano da Decolar para acelerar no Brasil, que já responde por quase 40% dos negócios do grupo Despegar. Outra alavanca são as parcerias com companhias do ecossistema da Prosus.
No iFood, por exemplo, os consumidores podem conectar as duas plataformas e transformar compras no serviço de delivery em cashback para gastar com viagens e experiências na Decolar.
Segundo Rezende, os clientes adquiridos por meio dessa parceria já respondem por 25% do crescimento da base de novos consumidores da travel tech.
A integração permite à Decolar acessar usuários que ainda não compravam na plataforma e reduz o custo de aquisição de clientes. Ao mesmo tempo, aumenta a quantidade de ocasiões em que as marcas da Prosus se relacionam com o consumidor.
A companhia também quer reduzir sua dependência das passagens aéreas e ampliar as vendas de hotéis, pacotes, aluguel de carros, cruzeiros, ingressos para parques e experiências. A estratégia é aumentar o valor gasto por cliente e participar de mais etapas da viagem, em vez de atuar apenas na compra do bilhete aéreo.