Cambridge (EUA) - Em 2012, Cesar Carvalho abandonou o MBA na Harvard Business School, em Boston. Naquele mesmo ano, de volta ao Brasil, ele foi um dos fundadores da Gympass, que nasceu com a tese de fornecer diárias avulsas ou pacotes mensais, com diárias ilimitadas, em academias, diretamente para os usuários.

O tempo passou, a Gympass ampliou seu escopo para uma plataforma de bem-estar, mudou de foco – do B2C para o B2B – e também de nome. Rebatizada como Wellhub, a startup ganhou também musculatura. Hoje, a empresa opera em 18 países e atende 40 mil clientes corporativos.

“Temos operações em cada um dos países que nós estamos”, disse Carvalho, em conversa com jornalistas da qual o NeoFeed participou durante a edição de 2026 da Brazil Conference. “Mas, hoje, eu divido meu tempo entre os Estados Unidos e a inteligência artificial.”

Nessa última ponta, um dos passos mais recentes da companhia foi o lançamento de uma espécie de “Coach de IA”, ainda em versão beta, que auxilia os usuários na sugestão de planos personalizados em áreas como fitness, terapia e sono.

Na outra metade da sua agenda, por sua vez, Carvalho disse que a Wellhub não está dormindo no ponto para ganhar escala nos Estados Unidos – o último país no qual a startup ingressou organicamente, justamente em 2019. E para onde ele se mudou, no mesmo ano, e passou a atuar como CEO global.

Hoje, a operação americana já é o segundo maior mercado da companhia, atrás apenas do Brasil. E, segundo o CEO, caminha para ocupar o lugar mais alto desse pódio, muito em função de um cenário mais maduro em termos de demanda.

“Aqui, o trabalho não é de educar o mercado, explicar a importância do bem-estar e convencer as empresas a começarem”, afirmou. “O trabalho é mostrar que a solução da Wellhub é muito mais eficiente do que outras que eles já têm. Então, o discurso é mais fácil.”

Do discurso à prática, ele diz que há um tempo necessário para essas conversões, dado que os contratos são de longo prazo. “Mas eu já estou sentindo aqui os mesmos padrões que víamos lá no Brasil em 2013, 20124 e 2015, quando estávamos expandindo o negócio.”

Ele descarta, porém, que um próximo passo natural dessa jornada seja uma abertura de capital, como já tem sido ventilado no mercado. Apesar de ressaltar que, quando e se isso acontecer, o roteiro escolhido deverá ser tocar a campainha em uma das bolsas de valores americanas.

Cesar Carvalho, Cofundador e CEO da Wellhub

“O IPO não é um milestone e não há nada concreto sobre datas. Nós precisamos continuar a crescer”, disse. “Na hora que algum acionista precisar de uma saída ou a empresa tiver algum uso de capital que não consiga financiar, vai fazer sentido. Mas eu não vejo como sendo um destino, e sim, como um possível caminho.”

Desde a sua criação, a empresa já captou mais de US$ 600 milhões com investidores como Softbank e General Atlantic. Na última rodada levantada, em agosto de 2023 e liderada pela sueca EQT, a companhia foi avaliada em US$ 2,4 bilhões.

Nesse meio tempo, Carvalho destacou que, além do mercado americano, outra prioridade é fazer a integração da Urban Sports Club, provedora europeia de programa de benefícios corporativos incorporada pela Wellhub em setembro de 2025, em um acordo de US$ 600 milhões.

Com a aquisição, a companhia adicionou cinco novos países na Europa ao seu mapa de operações. E, antes desse movimento, já havia investido em outros M&As. A lista inclui nomes como a Trainiac, nos Estados Unidos, além da Fitprime, Andjoy e 7Card, também na Europa.

A partir dessa escala, Carvalho reservou tempo ainda para ressaltar que mais empresas brasileiras deveriam pensar com essa cabeça global e que muitas delas estão desperdiçando a oportunidade de ampliarem seus horizontes.

“Eu acho que temos um right to win, primeiro, porque os produtos digitais que consumimos no Brasil são os mesmos usados na maior parte da América Latina, dos EUA e da Europa”, disse. “Ou seja, toda nossa intuição de produto está alinhada com todas as outras geografias.”

Juntamente com a própria escala do mercado interno, ele observou ainda que as habilidades e talentos dos brasileiros estão cada vez mais alinhadas com as capacidades requeridas no mundo. “Além de sermos bons, estamos mais treinados em relação às incertezas e instabilidades”, concluiu.