Barcelona - A gigante americana de tecnologia Oracle está pronta para aumentar investimentos no Brasil e direcionar parte do pacote de US$ 500 bilhões do programa Stargate da empresa, que é destinado a aportes na expansão de data centers de inteligência artificial (IA). Mas a companhia enxerga uma trava clara no País: a falta de um ambiente regulatório e tributário mais favorável.
O exemplo mais expressivo é a incerteza sobre a aprovação do Regime Especial de Tributação de Data Centers (Redata), do governo federal. O programa pretende estimular a instalação dos centros de dados no País, por meio de isenções de impostos federais, e na compra de máquinas e equipamentos.
A estimativa é que a renúncia fiscal chegue a R$ 5,2 bilhões neste ano e de cerca de R$ 1 bilhão em cada dos dois anos seguintes. A perspectiva é que isso possa garantir investimentos de pelo menos R$ 1 trilhão no Brasil até 2030. E é nesse benefício que a Oracle está de olho.
A medida provisória que instituiu a medida expirou em 25 de fevereiro, sem que fosse votada no Senado. Para tentar manter parte do caminho já percorrido, a Câmara chegou a aprovar um projeto de lei que garantia a criação do Redata, mantendo os benefícios. Só que ainda não há sequer prazo para que o projeto seja apreciado entre os senadores.
Sem esse avanço de forma clara, a Oracle vai reavaliar como será o processo de expansão de seus próprios data centers no Brasil. Não necessariamente vai fechar a torneira, mas a “vazão” dos recursos será menor.
“Trazemos equipamentos todos os meses para o Brasil e sabemos o custo disso. Quando for aprovado, a empresa vai poder acelerar os investimentos. Não podemos seguir com o risco de perder parte deste processamento de dados para outras regiões”, diz Alex Colcher, vice-presidente sênior da Oracle da América Latina, em entrevista ao NeoFeed no Mobile World Congress (MWC).
Hoje, há seis data centers no Brasil com utilização do sistema de nuvem da Oracle: dois públicos (em São Paulo e Vinhedo), dois com clientes privados e dois operados pela NeSuite, empresa da própria Oracle.
“A Oracle tem data centers na Colômbia, no México e outros países da América Latina. E é mais fácil instalar lá do que no Brasil. O País ainda não perdeu espaço, mas há um risco. A Argentina já fala em IA soberana. A gente ainda não chegou neste patamar”, afirma Colcher.
A questão é que, na visão do executivo, a lentidão na aprovação do Redata não é a única barreira para que o Brasil, que já é relevante para o Oracle, possa crescer em participação na receita global.
“A trava mais significativa no país é justamente o custo-Brasil. É o ambiente político, econômico, regulatório e fiscal. E esse melhor ambiente precisa ser criado. As operadoras de telefonia têm papel preponderante liderando essa discussão para mudar este cenário”, diz Colcher.
Enquanto o volume de recursos não avança no Brasil, a Oracle tem acelerado parcerias de desenvolvimento de IA. No mês passado, a empresa anunciou parceria com a Claro, para a criação de modelo de IA próprio, integrado à rede da gigante de chips Nvidia.
Com isso, a empresa de telefonia vai poder desenvolver LLMs em moldes parecidos aos usados pelo ChatGPT, da OpenAI. “Na prática, isso elevou a parceria para um patamar acima de ser apenas fornecedor. Eles vão vender soluções que a gente ajuda a construir. Acaba virando um canal importante para que a gente possa escalar nosso serviço”, afirma o executivo.
Em dezembro, a companhia assinou contrato de cinco anos com a TIM para acelerar o processo digital da empresa de telefonia. Recentemente, a TIM anunciou a compra da V8.Tech [por R$ 140 milhões, com possibilidade de chegar a R$ 280 milhões]. A nova empresa já é parceira da Oracle em serviços.
“A gente se tornou parceiros de desenvolvimento de IA, onde faz soluções internas juntos. A TIM vai poder capturar benefícios internos e, se tudo der certo, encapsular tudo isso em produtos de mercado”, conta.
“Recentemente, a TIM anunciou a compra da V8.Tech [por R$ 140 milhões, com possibilidade de chegar a R$ 280 milhões], que já é um grande parceiro Oracle”, diz Colcher.
Os dois contratos são os únicos públicos do segmento de telecomunicações, mas Colcher afirmou que hoje a Oracle atua com todas as principais operadoras de telefonia da América Latina (incluindo o Brasil) e que há novos contratos em andamento.
No sistema financeiro, a Oracle tem parceria com a Caixa e com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). A companhia é responsável pela operação do pix da instituição financeira comandada pelo governo federal.
“Temos espaço também para avançar com bancos privados. Telecomunicações e financeiro são áreas-chave para a Oracle no Brasil. Cada banco vem desenvolvendo sua arquitetura”, afirma.
Mesmo com desafios regulatórios e tributários postos, o executivo afirma que a Oracle aponta o Brasil como um de seus principais polos de crescimento para IA no mundo. O exemplo mais caro disso é o centro de inovação da empresa, em São Paulo, o único da América Latina, e que completa um ano no fim de março.
“O Brasil serve como local de testes para muitas das inovações que hoje são desenvolvidas pela companhia. O país é visto como um centro inovador. O espaço criado em São Paulo foi consequência disso”, afirma Colcher.
O aporte de R$ 40 milhões para a implementação do centro de inovação brasileiro, em um espaço de 700 metros quadrados (m²), foi realizado diretamente pela Oracle global. Só há mais três do tipo no mundo: Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.
“A gente traz a nossa infraestrutura aberta de IA para nossos parceiros. E isso hoje, para as empresas de telecomunicações, é muito importante. O futuro destas empresas, no B2B, é ter soluções verticais por meio da IA. Temos uma relação muito madura com as teles brasileiras”, afirma o executivo da Oracle.
Em 12 meses, as ações da Oracle na Nyse acumulam desvalorização de 5,6%. No último mês, no entanto, a alta é de 11,6%. A companhia está avaliada em US$ 438 bilhões.
O jornalista viajou a Barcelona a convite da Vivo.